Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O feminismo como estética

Por Carlos Ramalhete.

O que é o feminismo?
Cada vez mais venho pensando que o que une todas as formas que se fazem chamar “feminismo” hoje em dia é uma estética, não uma ideia. Mais ainda, é uma estética de mão única e um pouco atrasada na passagem do moderno ao pós-moderno. O feminismo parece seguir o consenso dito progressista, acompanhando perfeitamente a agenda de George Soros e demais megacapitalistas. Mas as causas contra as quais se levantou o feminismo não existem mais.
Ao contrário, até, hoje na classe média urbana — única área que parece entrar no radar da esquerda, notadamente da feminista — a formação dita superior de filhos e de filhas, sem nenhuma distinção de sexo, é considerada o padrão. Para as mulheres, até, o que se lutava para ter como direito — estudar mais, trabalhar fora, etc. — acabou virando uma prisão em muitos aspectos tão trágica quanto a prisão burguesa em que a mulher era colocada até meados do século passado. Se eu ganhasse um dinheirinho a cada vez que uma moça me diz que ela não aguenta mais tanta pressão para estudar, porque só o que ela tem como desejo real é casar e ter filhos, meu bolso nunca ficaria vazio.
Ao contrário do paradigma burguês da mulher burra trancada em casa, que aparentemente parece irremediavelmente esfacelado, graças a Deus, o novo demanda que ela seja “independente”, o que é um absurdo. Ninguém é independente. Ter um diploma superior não torna alguém independente. A independência financeira é, como sempre foi, o feliz privilégio de poucos; todos os demais vivemos da mão para a boca, comendo num mês o que ganhamos trabalhando no mês anterior. Inclusive as moçoilas ditas “independentes” porque se veem escravas de uma carreira indesejada, da caixa do supermercado ao serviço público, passando pelo direito, odontologia e todas as demais formações axiomáticas da burguesia masculina do século passado. No Século XX fazia algum sentido a pessoa que quisesse ser percebida como “gente de bem” — como burguesa, beneficiária e mantenedora da ordem social de então — procurasse esses caminhos. Mas eles não foram apenas abertos às mulheres, finalmente: foram escancarados, fazendo com que o que deveria ser um dever se torne um direito mais impositivo que para os rapazes.
Aos meus filhos eu digo sempre que eles não precisam fazer faculdade, e que é melhor não a fazer que cursar algo que não os apaixone. Já fui muito criticado por dizer isto à minha filha, mas nunca por dizê-lo ao meu filho: para a mulher seria, pelo feminismo de consenso atual, mais obrigatório que para o homem seguir o caminhozinho burguês do começo do século passado.
Ao mesmo tempo, como movimento preso financeira e intelectualmente à rabeira do progressismo globalista, os feminismos que mais aparecem abraçam teses péssimas para as mulheres. A invasão deste lastimavelmente derradeiro espaço exclusivamente feminino, o banheiro de moças, por barbados de saiote é o maior atentado à feminilidade que consigo conceber. Mas elas têm que aceitar, e a maior parte engole seco e aceita mais esta imposição da polícia de pensamento. Ora, em qualquer sociedade saudável há espaços exclusivamente femininos e espaços exclusivamente masculinos, além de espaços abertos às exceções do sexo oposto (o salão de cabeleireiro e a direção de caminhões pesados são bons exemplos destes). A nossa sociedade, uma versão decadente de uma sociedade burguesa, por sua vez uma espécie de parasita alimentando-se do que sobrou da ordem natural debaixo de sua carapaça, não apresenta espaços exclusivos reais, e os feminismos não parecem interessados em criá-los. Isso é coisa que me pasma.
Ao contrário, os espaços que criam são sempre reativos, reacionários, jamais proativos e — nisso está a abominação da desolação — jamais acolhedores. Ora, a mulher é o ser que acolhe. Se vem um idiota e xinga uma mulher, as feministas adotam a boçalidade como se fosse um elogio, degradando-se como crianças que fazem concurso de nojeira: e aí temos “coletivos” de “vadias”, de “rodadas”, e presumo que de “barangas”. É como se um abilolado dissesse “você come meleca” e a resposta do cidadão fosse comer meleca em público.
Ora, xingamentos não são positivos, e é evidente que fazer marchas dos bocós ou encontro nacional dos debilóides não mudam em nada a grosseria que os motivou. Ao contrário, até: esses movimentos feministas, na sua fúria reacionária, parecem bater no peito e dizer “eu como mais meleca! Ninguém come meleca tão peluda e nojenta quanto a minha!”. Os boçais de plantão riem e fazem gracejos acerca de como as barangas mal-amadas saíram todas da toca. Claro. Os homens que realmente gostam de mulher, dentro os quais me incluo, ficam constrangidos ao ver semelhante espetáculo público, em que uma grosseria desperta um furioso ritual de autodepreciação. Chamar-se de “vadia” é uma forma de autodepreciação. Borrocar-se de tinta e marchar pelas ruas como um operário do Século XIX ao invés de efetivamente controlar a sociedade, como as mulheres já fizeram de maneiras infinitamente mais femininas em tempos mais civilizados, é outra forma de autodepreciação.
Ao mesmo tempo, contudo, esses movimentos fazem outros rituais, em que parecem querer infantilizar-se mais e mais (“eu como mais meleca!”): danças de roda fartamente regadas a maconha são um exemplo disso. Esta moda me parece sintomática de uma questão extremamente mal-resolvida com a procriação, a infância, a adolescência e a idade adulta. Com o ser humano, em suma. Nem falo da velhice, porque esta é tabu para o progressismo sorosiano. Mas intoxicar-se para dançar em roda me parece tão absurdamente parecido com os rituais de Admirável Mundo Novo que — mais uma vez — fico a admirar a presciência desse livro. É um pseudo-dionisíaco de playground de prédio, uma perversão da infância e ao mesmo tempo uma negação até da própria beleza da idade adulta. Adultos fazem seres que brincam de roda. E isso é lindo. Mas fora de uma forma ritual culturalmente específica, como é o caso dos dançadores de roda daqui e daí, que não são índios nem aborígenes, o que se tem é o oposto de um ritual saudável. É uma forma especialmente doentia de infantilização, que vem pari passu com a hipersexualização da infância e pré-adolescência atual.
Nem me parece necessário ir além das linhas mais simples para mostrar como a negação da maternidade — explícita na luta pelo aborto, uma das únicas causas que unem todo tipo de feminista — abre caminho para essas disfunções todas. A mulher, por definição, é o ser humano que concebe e mantém dentro do ventre outra pessoa, e depois dá de si mesma em alimento à criança até ela crescer um pouco. Quer a mocinha perceba em si esta vocação quer prefira outra vida, ela continua ali, e sua fertilidade ao menos potencial continua sendo parte importantíssima de quem ela é. O homem, pela mesma medida, é aquele que pode não ser realmente o pai daquela criança. A ligação da mãe com a criança é visceral; a do pai é extremamente intensa, mas de outra natureza. Quando mulheres adultas se dedicam a fingir que são crianças, dançando em roda intoxicadas e entrando em concursos verbais de quem come mais meleca, tendo como causa única a legalização do assassinato do próprio filho, dá para ver que não se trata de um fenômeno muito saudável.
Mas e a estética da coisa? Eu escrevi mais acima que os feminismos atuais são uma forma fundamentalmente estética, e é verdade. Mas é uma estética de mão única, como a arte pós-moderna em que a piada é que não há arte. No caso da estética feminista, a coisa fica mais complicada pelo fato de mulheres serem pessoas mais esteticamente afinadas que os homens, de modo geral. Isto torna necessário que haja um descompasso no discurso, uma confusão de significado e significante. A idéia é essa, abertamente, quando da reapropriação reacionária de xingamentos. Ela me lembra os “clubes do corno” comuns no folclore de algumas partes do país, em que alguém chora e celebra explicitamente sua cornice pública.
Muito do apelo estético do feminismo atual — por mais que não seja esta a aparência das moças; vejam bem, a viagem é de mão única — pode ser atribuído à desconstrução agressiva da pin-up girl feita pela cantora Madonna no final do século passado. Enquanto a pin-up clássica do auge da sociedade burguesa (o pós-guerra imediato) tinha seios fartos, a Madonna tinha sutiãs que faziam os seus parecerem espetos, lápis ou ogivas. Qualquer coisa, menos uma parte do corpo que dá leite e colo. Sua performance no palco — e nisso limito-me a parafrasear a Camille Paglia, porque não consigo levar meu interesse ao ponto de assistir os clipes de tão lamentável senhora — era extremamente sexuada e vigorosa, com dezenas de bailarinos em quem a cantora se esfregava.
A meu ver, é ela quem ali lançou o ovo de serpente que acabou por gerar “coletivos” de mulheres (uma contradição em termos, para quem quer que conheça e ame mulheres) que se fazem chamar por xingamentos, querem matar os próprios filhos e voltar a ser criança na base da maconha e “o cravo brigou com a rosa”. A estética “empoderadora” (há quem o defenda…) dela já era uma estética de mão única, com uma confusão tremenda entre significado e significante. As moças a percebiam como uma afirmação de feminilidade, sem perceber que ela era na verdade a semente de sua negação. É fenômeno similar ao da apropriação sistemática dos ideais burgueses do Século XX (formar-se, não depender de ninguém…).
Mas a Madonna fazia sucesso não por aquilo em que ela se diferenciava das pin-ups, sim por aquilo em que ela se assemelhava a elas: uma mulher curvilínea requebrando sexuadamente é atrativo para qualquer homem e — ponto crucial — desperta sentimentos de ciúme, inveja e desprezo em mulheres. O sonho do soldado americano que tinha uma foto de Bettie Page colada na porta do armário era tê-la ao seu lado como esposa (por mais limitadora que fosse a noção dele de “esposa”). O do que tivesse uma foto da Madonna dificilmente daria a ela tanto respeito: sua estética a marcava como “vadia”, como mulher inconstante com quem não se deve constituir família. Pudera que quem se apropriou imediatamente dela foi justamente o movimento gay, interessado em que os homens dessem menos valor às mulheres. Afinal, convenhamos, para alguém trocar um útero capaz de reprodução por um intestino grosso, algo tem que estar muito errado na cabeça do freguês.
Mas ela lançou este tipo de discurso visual em que o significado é tão dissociado do significante que para as pessoas normais o que se tem é um mistério ou — o que é bem mais comum — um mal entendido. A mulher-Madonna se percebia como poderosa e vitaminada, e era percebida como prostituta de cinco reau. A pseudo-criação de uma pseudo-feminilidade exuberante escondia uma negação da mesma feminilidade, que só não se tornava completa por ela não ser totalmente feia. Ou seja, por haver alguma beleza apesar do triste espetáculo de degradação fazendo-se de afirmação. Mas as mulheres a percebiam como ser sexuado, logo perigoso, e achavam que o que ela fazia era caminho de “empoderamento”, sem perceber que era um caminho de degradação que só se sustentava, como disse, pelo que sobrava de beleza natural por trás da máscara. Basta imaginar o fenômeno Madonna com uma mulher baixinha, barriguda e de pernas finas para ver o quanto suas fantasias se tornam patéticas uma vez desprovidas de beleza natural real.
Madonna, a seu modo bizarro, teve filhas: pelo que eu vejo internet afora, há pelo menos a Lady Gaga e a Miley Cyrus mantendo a franquia no ar. O mal-entendido já poderia ter-se dissipado, e certamente teria sido o caso se ele não fosse tão útil aos megacapitalistas que financiam o progressismo. Mas é daí que ele vem. Vejam nesta foto — que me inspirou este texto — como ele funciona:

Dedinhos sujos
A estética é impecável: uma moça bonita (deve ser alguma bonita profissional famosa; não pesquisei), com contraste marcado entre a pele clara e o cabelo, o batom impecável, a roupa idem e as pontinhas dos dedinhos sujinhas de tinta. É assim que as feministas se percebem.
Sim, senhores, quando nós vemos um grupo de mulheres barrigudas, com a sovaqueira cabeluda juntando mosca e frases anti-vida pintadas na pança, gritando que são vadias, rodadas e barangas (existe algum coletivo que se diga de barangas? Cabe a pesquisa) como quem diz que come mais meleca e meleca mais nojenta que qualquer um, elas estão se percebendo como a moça da foto acima. E não percebem que o que ela tem de bonito não é estar pintada nem estar fazendo caretinha; isso nega o que ela tem de bonito e, por contraste, amplifica. Já se a mulher parece a frente de um Scania cor-de-abóbora, contudo, o buraco é bem mais embaixo.
Isso acontece por uma característica da psique feminina, muito aproveitada aliás por homossexuais que detestam mulheres e querem que elas sofram: toda mulher acredita que a beleza seja literalmente algo construído. É por isso que elas ficam furiosas se a gente diz que elas acordaram lindas, é por isso que elas ficam horas escolhendo roupas, é por isso que elas se submetem a todo tipo de indignidade para ficar com o cabelo assim ou assado, é por isso que elas usam salto-agulha: “se doer está bonita”, ensinou minha avó à bisnetinha dela.
A estética burguesa de uma Bettie Page, contudo, agia na mão correta de direção em todos os sentidos. Significante casava com significado. O receptor da mensagem (o soldadinho americano com a foto dela no armário) a via exatamente como ela queria ser vista. Há até quem defenda as franjinhas, mas não creio que alguém em sã consciência vá dizer que as mulheres deveriam raspar a cabeça por praticidade, como os homens, em vez de ficar se torturando no cabeleireiro. Já o discurso do feminismo atual é outra coisa. A feminista se acha igual àquela moça quando na verdade parece é com isso, ó:


Há no meio algumas mocinhas bonitas, vejam bem, mas o importante é outra coisa: é a “produção” delas. Assim como em outros meios todas as moças vão ter cabelo de chapinha e óculos escuros enormes, as autointituladas “vadias” acima têm todas a mesma fôrma básica, a mesma estética. Só que, ao contrário da estética pin-up, esta não “empodera” a mulher por não ser percebida com o significado que teoricamente estaria sendo emitido. O significado se perde totalmente. Uma boa pessoa, vendo essa foto sem saber da existência desses fenômenos feministas do Século XXI, ficaria com pena, achando que são vítimas de alguma coisa, talvez mulheres que tenham sido aprisionadas por um tarado durante meses e mantidas a miojo e água num porão da Alemanha. Uma má pessoa vai abstrair os rabiscos e vê-las como veria mulheres com pouca roupa em geral (mulheres, com ciúme das mais bonitas; homens, com atração pelas mesmas). Só uma feminista vai achar que aquilo ali “dá poder”, “empodera” alguém.
Trata-se de uma confusão criminosa que fizeram com mentes femininas, fazendo-as crer que este make Tiazinha-depois-da-catapora dar-lhes-ia de alguma forma poder, transmitiria de alguma forma um sinal de que elas deveriam ser respeitadas, quando na verdade é o oposto que fazem. Mas é o que se tem quando se julga que “empoderar” mulheres se faz facilitando com que matem seus filhos, é o resultado de uma estética construída pela negação reacionária em assentimento perverso com que os feminismos atuais lidam com a única “questão feminina” que sobrou: o que fazer com os assovios dos operários para as moças na porta da obra?
O feminismo tornou-se meramente uma estética, e uma estética pervertida em todos os sentidos.

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2 comentários em “O feminismo como estética

  1. Leonardo Melanino
    8 08America/Belem agosto 08America/Belem 2017

    Dicionaristicamente falando, “VADIO” significa “AQUELE QUE ESTÁ NA VADIAGEM”. “VADIAGEM” é o mesmo que “ÓCIO”, “OCIOSIDADE” ou “VAGABUNDAGEM”. Seus sinônimos são “OCIOSO” e “VAGABUNDO”.

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  2. Leonardo Melanino
    8 08America/Belem agosto 08America/Belem 2017

    Agora, os nomes destas pessoas que vivem nestas imoralidades são “ANTIÉTICO”, “DEVASSO”, “IMORAL”, “IMPUDICO”, “IMPUDOROSO”, “INDECENTE”, “INDECOROSO” e assim sucessivamente. Suas atitudes são chamadas de “ANTIETICIDADE”, “DEVASSIDÃO”, “IMORALIDADE”, “IMPUDICÍCIA”, “IMPUDOR”, “INDECÊNCIA”, “INDECORO” e assim sucessivamente.

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Publicado às 2 02America/Belem agosto 02America/Belem 2017 por em Atualidade, Carlos Ramalhete, Feminismo e marcado , .

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