Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A cidadela interior

“a psicologia moral de Platão é um estudo da “cidadela interior”, da unificação do homem pela justiça que o torna concorde consigo mesmo, evitando a guerra civil interna entre os seus desejos potencialmente conflitantes”. 

Por Victor Sales Pinheiro.

Depois da Bíblia, “A República” de Platão é a obra mais influente, estudada e debatida da nossa tradição intelectual ocidental. Autêntica odisseia filosófica que perpassa todas as questões essenciais da vida humana, trata-se de uma obra longa, dramática e complexa, alternando argumentação filosófica e alegorias poéticas, culminando num extraordinário mito escatológico sobre o destino das almas depois da morte. Na sua obra-prima, Platão assimilou, agonicamente, toda a cultura grega clássica, sua poesia, retórica, ciência natural e política, a fim de defender a autoridade da sabedoria filosófica na educação moral e política da sociedade. Para tanto, precisou destronar do poder cultural os poetas, que criavam os mitos que estruturavam o imaginário moral dos gregos, e os políticos, que se valiam da retórica para exercer domínio sobre o povo “livre”.

Em defesa de seu mestre Sócrates, processado e condenado pela democracia ateniense em 399 a.C., Platão esculpe, dialeticamente, o novo modelo de homem, o filósofo, como aquele que se liberta da caverna das ideologias reinantes na sociedade e é capaz de educar, pelo diálogo crítico, os seus concidadãos, ordenando os seus desejos de vida, de poder e de verdade. O tema do grande diálogo de Platão é, portanto, essencialmente moral e pedagógico, como convencem o grande helenista Werner Jaeger, “A Paideia – a formação do homem grego” (ed. Martins Fontes), e o tradutor e ensaísta Allan Bloom, em “O declínio da cultura ocidental – da crise da universidade à crise da sociedade” (Ed. Bestseller). O tema da cidade, com suas divisões e conflitos, é uma analogia estrutural para a compreensão da complexidade da alma humana, verdadeiro local em que se dá a mais importante das virtudes sociais, a justiça.

Como se pode ler na nova edição bilíngue da “República”, traduzida por Carlos Alberto Nunes, introduzida por Benedito Nunes e publicada com esmero pela Editora da Universidade Federal do Pará, a discussão do livro gira em torno da justiça, virtude mais questionada em tempos de crise moral e política. O diálogo encena três personagens, Polemarco, Nicerato e Sócrates, que foram executados por acusações políticas, sendo os dois primeiros brutalmente assassinados pela facção oligárquica dos Trinta Tiranos, que governou a cidade por um breve e violento período de tempo, em 404 a.C. Desdenhosos do serviço ao bem comum, esses tiranos usaram o pretexto da justiça para enriquecer suas próprias fortunas, eliminando, inescrupulosamente, os seus desafetos políticos. Como alguns familiares de Platão pertenciam a esse grupo corrupto e assassino, a exemplo de

Crítias, o filósofo os representa na “República” na figura dos seus irmãos Glauco e Adimanto, indicando o que eles deveriam ter aprendido de Sócrates. Da mesma forma, no “Banquete”, Platão expõe o que seria a verdadeira doutrina do amor de Sócrates, não assimilada, nem vivida por um de seus discípulos mais famosos, Alcibíades, outro líder democrático moralmente desgovernado, ambicioso e tempestuoso, que arruinou a cidade de Atenas. Homens democráticos como esses representam o tipo de cinismo “maquiavélico” ensinado por sofistas como Cálicles, no diálogo “Górgias”, e Trasímaco, na “República”.

Desafiada pelo relativismo sofístico de Trasímaco, para quem a justiça não passa da vantagem do mais forte, toda a extensa argumentação de Sócrates é uma elaborada defesa da justiça como florescimento humano pleno e base da felicidade verdadeira. Mais ligada a diálogos morais como “Górgias”, “Banquete” e “Fédon” do que a diálogos políticos como “O político” e “As Leis”, a “República” é uma investigação ética e pedagógica sobre a alma humana, as suas partes constitutivas e o dinamismo interno dos seus desejos de vida (prazeres individuais da comida e do sexo), de poder (emoções sociais de nobreza e honradez) e de verdade (intelecções da ciência e filosofia), com as respectivas virtudes da temperança, fortaleza e sabedoria.

Para usar uma famosa imagem do filósofo estoico Marco Aurélio, fecundada pelo neoplatonismo de Plotino e pela espiritualidade cristã de Santo Agostinho e Santa Tereza d´Ávila, a psicologia moral de Platão é um estudo da “cidadela interior”, da unificação do homem pela justiça que o torna concorde consigo mesmo, evitando a guerra civil interna entre os seus desejos potencialmente conflitantes. A virtude da justiça é que ordena e harmoniza o homem, o que só é possível com uma educação do desejos, que está naturalmente ligada à formação do imaginário moral, alimentado desde a infância pelas representações poéticas dos modelos humanos a serem seguidos por imitação, e pelas normas políticas que regem a sociedade.

A ordem política na cidade depende da ordem moral na alma. Como é difícil analisar a alma humana, Sócrates propõe uma analogia com a cidade, cujas relações justas de governo e submissão entre as classes sociais servem de modelo para pensar a ordenação das partes da alma, a apetitiva, a volitiva e a racional. Essa é a questão central da “República”, o que a torna a obra máxima da cultura ocidental, e não a proposta política utópica da cidade “totalitária” – que mais parece os pesadelos autoritários imaginados, no século XX, por Aldous Huxley e George Orwell -, com a rígida divisão do trabalho em três classes sociais – baseada na suposta diferenciação estanque entre três tipos de pessoas e sustentada pela “mentira nobre” do mito das três raças -; com a abolição da família nuclear e educação estatal das crianças; com a censura pedagógica que purifica o imaginário moral da sociedade de todo tipo de vício e corrupção; com a igualdade absoluta de homens e mulheres; e, por fim, com o governo aristocrático dos filósofos, que têm a mais completa educação científica e filosófica, os únicos a libertarem-se da retórica da caverna democrática. Embora haja grandes contribuições da “República” para a filosofia política, sobretudo para a crítica da democracia e das revoluções autoritárias, não é a sua proposta política que a torna indispensável, mas a descoberta da interioridade como âmbito da harmonia e da liberdade, afirmando a possibilidade de ser moralmente justo mesmo numa sociedade politicamente injusta.

Fonte: O Liberal, em 28/05/2017.

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