Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Verdade e liberdade na educação

 

A doutrinação é o desvirtuamento dos fins da educação: a verdade e a liberdade. Doutrinar é divorciar esses dois princípios, tanto impondo a verdade (excluindo a liberdade da educação), quanto libertando o educando ‘da’ verdade (ao invés de libertá-lo do erro ‘para’ a verdade).

Por Victor Sales Pinheiro.

Sempre ameaçada pelos excessos de autoritarismo e permissivismo, o desafio maior da educação é manter-se na interseção entre a verdade e a liberdade. Não há verdadeira educação sem esses dois princípios que a constituem. Em todas as tradições pedagógicas, religiosas ou seculares, a conquista educacional da verdade é vista como libertação do erro, da ignorância e da falsidade. Sem a educação, o homem é um escravo, preso às paixões, aos preconceitos e modas do seu tempo, às ideologias. Se a educação é uma libertação, como ela deve ser conduzida? Na maior alegoria pedagógica de todos os tempos, a Caverna de Platão, Sócrates pergunta se é legítimo obrigar os prisioneiros a se libertarem. A educação pode ser imposta, se o educando ainda não tem formada a capacidade de juízo, exatamente porque ainda não foi educado? Qual é o papel da autoridade na educação, na relação entre pais e filhos, professores e alunos? Essas intrigantes questões da filosofia da educação são enfrentadas, com clareza e precisão, por Olivier Reboul, em “A doutrinação” (Ed. Companhia Editora Nacional e Universidade de São Paulo).

O verdadeiro ensino não pode ser autoritário, porque só chegamos à verdade livremente. Método de conciliar a liberdade intelectual com a objetividade da verdade, a maiêutica socrática transparece nessas linhas de Reboul: “Quando se ensina a verdade aos alunos, o fim proposto não é a verdade, mas que ela se torne sua verdade. É preciso que encontrem por si mesmos, que ela signifique, para eles também, resistência, confiança e luz.”. O objetivo da educação é a maturidade moral e intelectual, adquirindo a capacidade de tomar decisões e questionar teorias infundadas. O grande desafio da autonomia intelectual é aprender a pensar por si mesmo, e não apenas receber passivamente um conteúdo específico: “tanto a criança como o homem não chegam ao verdadeiro senão livremente, e a verdade imposta cessa, ‘ipso facto’, de ser verdade; um ensino que não põe cada indivíduo em condições de julgar a sociedade que o ministra, é nocivo tanto à sociedade como ao indivíduo.”

Se a verdade sem a liberdade torna-se dogmatismo autoritário, a liberdade sem a verdade condena os alunos à confusão e à indiferença intelectual, moral e política, sem nenhum ideal pessoal e social pelo qual lutar. Verdade e liberdade devem caminhar juntas e são mutuamente implicadas: o objetivo da liberdade é a verdade, pessoalmente buscada e vivida. Sem a verdade, não se pode distinguir a educação libertadora da opressora. A educação liberal, portanto, não pode temer o pluralismo e o livre debate de ideias. Por outro lado, não deve promover o relativismo moral e científico, sob o risco de neutralizar a própria liberdade moral e verdade científica que a legitimam.

É fácil trair o sentido da tolerância, o maior valor das sociedades liberais: pode-se tolerar os alunos 1. por condescendência, subestimando-os, como se fossem eternas crianças incapazes de aprender; 2. por indiferença, desprezando a possibilidade de um aluno aceder à verdade, porque tudo é relativo a opiniões particulares e todas se equivalem; ou 3. por respeito, considerando que o valor do homem é sempre maior do que o erro intelectual ou moral que ele realiza. Não se respeita o erro, mas a pessoa que o comete, a fim de corrigi-la e instrui-la. Corrigir o discente, aliás, é o maior respeito que o professor pode lhe prestar. Uma educação que abdicasse a sua função corretora perderia a sua razão de ser, tanto quanto uma educação que impusesse de forma autoritária um conteúdo doutrinário, indiferente à subjetividade de quem aprende: “uma verdade que devemos impor não merece que a ela adiramos”, diz Reboul.

Para que o aluno acolha livremente à verdade que lhe é apresentada no processo educacional, ele deve poder questioná-la, criticá-la a partir de concepções concorrentes. Sem o aprendizado de uma pluralidade de doutrinas, o aluno se vê privado de recursos para crítica de si e da sociedade em que se encontra. Nesse sentido, a educação pode corromper-se em doutrinação que o infantiliza, seja conservadora, seja revolucionária. À primeira, Reboul chama de conformista, que se apoia na autoridade supostamente intocável da instituição e da tradição, explorando e reforçando os preconceitos arraigados na cultura majoritária. Isso infantiliza o aluno na medida em que reforça nele a dependência e a imaturidade diante do que assimilou desde que nasceu, apresentando-se como verdade irresistível e inquestionável. Por outro lado, a educação revolucionária também condena o aluno ao infantilismo, porque visa a refundar, no educando, o estado de ingenuidade infantil, de crença numa utopia pela evasiva insatisfação com a realidade atual.

A doutrinação é o desvirtuamento dos fins da educação: a verdade e a liberdade. Doutrinar é divorciar esses dois princípios, tanto impondo a verdade (excluindo a liberdade da educação), quanto libertando o educando ‘da’ verdade (ao invés de libertá-lo do erro ‘para’ a verdade). Segundo Reboul, “combater a doutrinação não é ensinar sem doutrina, mas ensinar a doutrina que libere o pensamento em lugar de sujeitá-lo, que substitua o culto cego dos ídolos pela admiração clarividente dos modelo humanos.” Isso depende de verdadeiros mestres, que se dediquem à educação com consciência da sua vocação pedagógica e sejam amantes da verdade e da liberdade.

Fonte: O Liberal, em 30/04/2017.

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