Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Redescobrindo a vida cristã

 

Por Victor Sales Pinheiro.

Há várias maneiras de descobrir o Cristianismo. A maioria dos brasileiros nascidos nos últimos 30 anos o receberam, inercialmente, como religião tradicional, reconhecendo talvez a força da fé nas suas avós e percebendo a sua neutralização ou indiferença na vida dos seus pais, que viveram, a partir da década de 1960, a revolução cultural, sexual e estudantil, com a liberação dos costumes e a imposição de novas formas de comportamento e pensamento. Provavelmente, a geração brasileira do final do século XX teve os rudimentos do Catecismo na primeira infância, receberam dois dos sacramentos da iniciação cristã, Batismo e Eucaristia, e apreciam, do ponto de vista social, o estreitamento de laços de amizade com os padrinhos no Batizado dos filhos e a simbologia do ritual do Matrimônio, sem aderir às responsabilidades da formação religiosa, no primeiro caso, e às da fidelidade e perseverança até o fim da vida, no segundo.

Nesse contexto, os feriados religiosos como os da Semana Santa, ápice da vida litúrgica da Igreja, são ocasiões de ócio, descanso e passeio, sem qualquer significado mais profundo na vida de boa parte dos brasileiros. O centro do mistério cristão, a paixão e crucificação de Deus encarnado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios, como adverte São Paulo (1Cor.1:23), torna-se cada vez mais incompreensível e distante para nossa sociedade hedonista, que valoriza o conforto material e o bem-estar físico acima de tudo, sempre preocupada com a “qualidade de vida”. A ética do sacrifício e da doação, como formas superiores do amor, desaparece no “pensamento positivo” da autoajuda, formado por slogans de autossugestão e nas compensações psicológicas que lutam contra qualquer “sentimento de culpa”, que alguns reputam o grande mal da consciência ressentida, a ser superado pela autoindulgência e aceitação da própria personalidade. Peleja-se, de todos os meios, contra a noção de “pecado”, considerado resquício de um sistema social opressor que impede o livre desenvolvimento da personalidade anômica e permissiva.

Muitos apelam a Deus em momentos difíceis e agradecem a Ele as dádivas recebidas, mas poucos procuram conhecê-Lo mais a fundo a partir de uma vida ascética e mística. As ideias de “vocação” e “conversão”, bases da experiência religiosa, são simplesmente ignoradas ou associadas a fanatismo moral ou fundamentalismo político. O horizonte da vida espiritual, que motivou a experiência dos apóstolos, santos e mártires ao longo da história, é predominantemente desconhecido pelos que reduzem a religião seja a um conjunto moralista de normas repressivas, seja a uma ética de benevolência e altruísmo, seja a um sentimento vago do misterioso e do absoluto. Ignoram o sentido teológico da Liturgia da Missa, o sentido ético, social e psicológico do Decálogo e das Bem-Aventuranças, a tradição contemplativa de oração e meditação, o canto gregoriano, a arte sacra, a Exegese e Hermenêutica Bíblica e a Teologia dos Doutores. Acessíveis ao público em geral, obras como “As grandes descobertas do cristianismo”, organizada por René Remond (ed. Loyola), “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental”, de Thomas Woods Jr. (ed. Quadrante), e “O Banquete do cordeiro – a Missa segundo um convertido”, de Scott Hahn (ed. Loyola), contribuem significativamente para a reabilitação intelectual da tradição cristã, assim como “Cartas a um jovem católico”, de George Weigel, (Ed. Quadrante) e “Catholicism: A Journey to the Heart of the Faith”, de Robert Barron (ed. Image, proveniente do Documentário da Produtora World On Fire), exploram, de forma vibrante, a tradição viva da Igreja, com sua Liturgia, Espiritualidade, História, Universidade, Artes Plásticas, Arquitetura, Literatura, Filosofia e Teologia. Muito da indiferença ou da rejeição à Igreja Católica provém da ignorância do que ela, de fato, é.

Com o ensino predominantemente positivista e secularista das ciências humanas em geral, tem-se a impressão de que a Igreja é uma instituição de poder, que controlou a mentalidade e a vida do povo durante a Idade Média, aproveitando-se da estrutura político-administrativa do Império Romano, e se tornou a maior inimiga do progresso na era moderna e suas promessas de liberdade moral, igualdade política e fraternidade social. Em “Sete mentiras sobre a Igreja Católica” (Ed. Castela), a historiadora Diane Moczar refuta, uma a uma, as mistificações históricas, as ideologias e os factoides vulgarmente utilizados para se caluniar ou injuriar a Igreja: os mitos da “Idade das Trevas”, da Lenda Negra, da Inquisição, do obscurantismo científico e do Caso Galileu. Esse livro ainda pode ser complementado com a competente reconstituição da História da Igreja feita pelo Prof. Felipe Aquino em “Uma história que não é contada” (Ed. Cléofas) e com o pequenino “manual” de respostas às questões polêmicas, escrito por Alfonso Aguiló, “Luzes e sombras da Igreja” (ed. Quadrante). Aos leitores com interesse de aprofundamento histórico e alcance especulativo, os livros de Régine Pernoud, “Idade média” (ed. Agir), de Christopher Dawson, como “A criação do Ocidente – A religião e a civilização medival” e “Religião e Progresso” (Ed. É Realizações), e de Ricardo da Costa, “Impressões da Idade Média” (Ed. Armada – no prelo), são imprescindíveis.

Mas a melhor forma de conhecer, de fato, o Cristianismo é ler, vivamente, os Evangelhos, principalmente os relatos da Paixão e Ressurreição, liturgicamente proclamados e vividos nestes intensos dias da Semana Santa, com toda sua dramaticidade e envolvência catártica. Além disso, para que a vida de Cristo não pareça um modelo distante, deve-se conhecer o itinerário das pessoas que levaram a sério o seu ideal de excelência espiritual: os santos. É difícil permanecer o mesmo quando se defronta com as vidas de Santo Antão, Santo Agostinho, São Francisco de Assis, Santo Inácio e Santa Tereza, ricamente descritas por René Fulop-Miller em “Os santos que abalaram o mundo” (ed. José Olympio). Ademais, as hagiografias de “Santo Tomás de Aquino” e “São Francisco de Assis” (Ed. Ecclesiae), escritas por Chesterton, um dos maiores escritores do século XX, são convites atraentes para assumir a identidade cristã, de identificação com Cristo, crucificado e ressuscitado, por amor.

Fonte: O Liberal, em 16/04/2017.

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Publicado às 17 17America/Belem abril 17America/Belem 2017 por em Atualidade, Civilização, Família, Moral, Religião, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , , .
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