Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Ser “contra” não é mau em si, como não é bom em si ser “pró”

plinio correa de oliveiraSer “contra” não é mau em si, como não é bom em si ser “pró”. O “contra” é bom quando voltado para o que merece efetivamente a censura. E reciprocamente, o “pró” não é bom quando significa apoio ao mal.

Por Plínio Corrêa de Oliveira.

Nossa época tem visto nascer aberrações desconcertantes. Uma delas surpreendi-a nos lábios de um conhecido, que sustentava, não há pouco, uma tese sesquipedal. Afirmava ele que nunca se deveria escrever contra algo ou alguém, mas só a favor, pois em nossos dias de pacifismo e diálogo é absolutamente obsoleto ser contra algo.

Dificilmente se poderia enunciar pensamento tão inconsistente. Ser “contra” não é mau em si, como não é bom em si ser “pró”. O “contra” é bom quando voltado para o que merece efetivamente a censura. E reciprocamente, o “pró” não é bom quando significa apoio ao mal.

Além disto, toda apreciação “pró” algo importa em uma censura ao pólo contrário desse algo. E vice-versa.

Tudo isso poderá parecer algum tanto abstrato. Vamos, pois, aos exemplos.

Comecemos por este. Um vespertino carioca publicou, em princípios de novembro, a notícia de que, na aldeia de Keng Nok, guerrilheiros comunistas do Pathet Lao amarraram a um poste e queimaram vivas duas missionárias norte-americanas. Um médico, depois de examinar os cadáveres, informou que eles haviam sido quase inteiramente queimados.

O comentário que esse crime sugere é, evidentemente, na linha do “contra”. Mas ele contém implicitamente um “pró”. Pois, verberar essa atrocidade, máxime quando praticada contra duas religiosas, implica em afirmar dois princípios altamente positivos, quais sejam, o direito de toda criatura humana à existência e a especial intangibilidade de religiosas dedicadas ao exercício de sua sublime missão.

Se toda imprensa verberasse, com a devida energia, semelhante crime, estaria contribuindo para algo de eminentemente positivo, ou seja, para tornar mais difícil que outras barbaridades do gênero se repitam. Pois é grande, hoje, o peso da opinião pública.

Outro exemplo. Na revista francesa “Magistère”, de 15.9.72, leio uma notícia transcrita do quotidiano parisiense “L’Aurore”, de 29-30 de julho do mesmo ano. Um francês, Ronald Fame, visitou uma comuna sino-vietnamita, a quarenta quilômetros de Pequim. Segundo ele informa, vivem ali, numa área de 96 km2, quarenta mil pessoas divididas em 36 vilas, regidas com disciplina de ferro por um “Comitê Revolucionário”. Cada família de 10 pessoas tem direito a apenas dois hectares, e ganha 242 francos por ano. As famílias numerosas são punidas: a partir do quarto filho, a mulher perde o direito de trabalhar. Uma família jamais pode abandonar a comuna.

Sem nenhuma vacilação, qualifico tudo isso de odioso e infame. Sou contra.

Entretanto, essa minha atitude, fundamentalmente negativa, é, ao mesmo tempo e na mesma medida, fundamentalmente positiva. Pois verberando aquele estado de coisas ominoso, dou meu contributo para que a opinião mundial se revolte contra o comunismo chinês e os pobres chins sejam libertos dessa tirania. De outro lado, alerto meus leitores contra o perigo comunista e contribuo, assim, para que o meu País seja preservado desse flagelo. Se tudo isto não é altamente positivo, é o caso de dizer que as palavras não têm mais valor…

Li esta semana, num matutino paulista, que elevado número de berlinenses ocidentais foram autorizados a transpor a cortina de ferro, para festejar o Ano bom com seus parentes de Berlim Oriental, aos quais levavam substanciosos presentes. Ao mesmo tempo, um pobre homem de Berlim Oriental que quis passar a cortina de ferro em fuga para o Ocidente foi preso e espancado pelos guardas comunistas.

A mim me parece que o episódio reúne aspectos de hipocrisia e barbaridade. Hipocrisia pela contradição entre a bonomia que as autoridades comunistas de Berlim simulam ao receber os visitantes carregados de presentes, e a intransigência férrea com que proíbem a qualquer pobre coitado a fuga para a zona aliada, próspera e livre. Barbaridade pela dureza com que é punido o transgressor. Assim, sou contra. E – mais uma vez – afirmo o caráter altamente positivo desta atitude.

Negativo, sinistramente negativo, seria dar de ombros para o fato, e passá-lo sob silêncio, sob pretexto de que não se deve ser contra nada!

Bem entendido, com silêncios destes só quem lucra são os comunistas. Pois, o tal princípio de que não se deve ser contra nada serve para os deixar livres de empreender impunes quanto queiram.

Assim me pergunto se os propugnadores deste fátuo princípio não são, no fundo, inocentes-úteis do comunismo.

A mim, me parece que sim. “Bobo é cavalo do demônio”, ensina um velho adágio.

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Publicado às 5 05America/Belem abril 05America/Belem 2017 por em Filosofia, Humanidade, Plínio Corrêa de Oliveira, Política e marcado , , , .
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