Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Maravilhamento e gratidão

“Ao lado da fé, capacidade de acolher a Revelação de Deus que descende aos homens, o homem é dotado de razão, como faculdade de conhecer a natureza, ascendendo, dialeticamente, dos efeitos mais imediatos até as suas causas mais remotas, e destas até o princípio da causa primeira e do fundamento último (Deus)”.

Por Victor Sales Pinheiro.

Segundo Platão e Aristóteles, a Filosofia nasce do maravilhamento, do espanto diante da existência de um mundo tão fascinante, colorido e diversificado, composto por uma pluralidade de entes que, classificados em espécies, se articulam numa unidade dotada de sentido. Dos seres inorgânicos aos vegetais e animais, dos homens à divindade, o universo é um “cosmos” porque é um todo ordenado, que pode ser pensado e compreendido pelo homem, que, por sua vez, é um “microcosmos”, não só porque seu corpo é um conjunto de sistemas orgânicos interligados de forma harmônica, mas porque sua mente pode acolher e interpretar a realidade como um todo.

Base da filosofia clássica, essa intuição do mundo como “cosmos” liga-se ao amor (“philia”) que o homem devota ao conhecimento do mundo (“sophia”), ao ponto de lhe consagrar a vida toda, de forma insaciável. Aos verdadeiros amantes da sabedoria, a atividade filosófica dignifica a vida inteira, não se reduzindo a um conhecimento técnico, por mais útil que seja a uma profissão ou ocupação social. Por isso, a filosofia é considerada uma forma superior de amor, que se deleita em contemplar a realidade amada, acolhendo-a no seu pensamento e memória e traduzindo-a em conceitos lógicos, argumentos retóricos e imagens poéticas, de que a obra de Platão é a demonstração mais perfeita.

Ao herdarem esse projeto filosófico grego, os cristãos não tiveram dificuldade em transpô-lo ao horizonte da revelação bíblica, uma vez que Cristo é, simultaneamente, “Logos”, o verbo de Deus feito carne, e “Amor”, a caridade que une e harmoniza não só os homens entre si, mas o cosmos como um todo. Ao lado da fé, capacidade de acolher a Revelação de Deus que descende aos homens, o homem é dotado de razão, como faculdade de conhecer a natureza, ascendendo, dialeticamente, dos efeitos mais imediatos até as suas causas mais remotas, e destas até o princípio da causa primeira e do fundamento último (Deus). A razão é uma força extática no homem, um meio de ele sair de si e encontrar a alteridade de uma realidade diferente de si e que, ao mesmo tempo, o constitui. Nesse contexto, a Igreja converteu o ideal de vida científica dos filósofos gregos no ideal de vida espiritual, em que o cultivo ordenado e diligente dos estudos é uma forma de contemplação da criação divina e da harmonia universal das coisas, como ensina Sertillanges, em “A vida intelectual” (ed. É Realizações).

Daí a importância da leitura e da meditação nos mosteiros, da edição e tradução de livros filosóficos no âmbito do renascimento carolíngio, da reflexão intelectual dos mistérios revelados (Teologia), que era acompanhada da contemplação científica do universo criado (Filosofia), nas escolas catedralícias. Esse processo de valorização católica da razão humana culmina na fundação das Universidades, a partir do século XII, que consumam o projeto intelectual católico de universalidade e unidade do conhecimento a partir do seu princípio unificador, Deus (cf. MacIntyre, “God, Philosophy, Universities”, ed. Rowman).

A razão clássica da filosofia perene, cujos culminâncias são Platão, Aristóteles, Plotino, Agostinho e Tomás de Aquino, pode ser considerada como sendo essencialmente “católica”, etimologicamente “conforme o todo” (“kata holos”). Segundo David Schindler, em “The catholicity of reason” (ed. Eerdmans), a razão é católica por quatro motivos: 1. porque é definida na sua relação ao ente como um “todo” (o amor é sempre ao todo do que se ama, e nunca apenas a uma parte dele); 2. porque envolve a pessoa com um “todo” (ninguém ama apenas com uma parte do seu ser); 3. porque sempre apreende o “todo” como universal (essência) e 4. porque visa ao “todo” como particular e concreto, como substância individualizada (existência). Nisso consiste o realismo analógico da filosofia clássica e sua dimensão intrinsecamente moral.

Mas essa totalidade da razão católica não implica um racionalismo opressor, uma totalização de tipo hegeliana, mas exatamente impede o processo de separação idealista e artificial da pensamento em relação à realidade, por estabelecer o horizonte ontológico no qual a razão se situa. De fato, o próprio Hegel percebeu, no §60 da sua famosa “Enciclopédia das ciências filosóficas”, que a noção de “todo” é paradoxal. Por um lado, ele é completo, autossuficiente, fechado, não pressupõe nada além dele mesmo para o seu ser e significado, como simbolizado na figura do círculo. Por outro lado, ninguém pode estabelecer um limite ao todo a menos que já o tenha ultrapassado. Esse é o sentido de um dos mais profundos dos excepcionais “Pensamentos” de Pascal: o último passo da razão é entender que infinitas coisa o transcendem. Ou seja, a razão é dotada de uma transcendência intrínseca, e não pode ser isolada e considerada a rainha soberana, a dispensar todos os outros elementos da realidade, a religião, a tradição, a cultura, a arte, a política etc. Esse gesto iluminista de emancipação epistemológica se revelou posteriormente ingênuo e infecundo, como demonstrou Gadamer em “Verdade e método” (Ed. Vozes), consoante a dimensão ineludível da tradição histórica e mesmo da pré-compreensão religiosa e cultural na constituição da linguagem.

Em “Ortodoxia” (ed. Ecclesiae), Chesterton considera essa razão iluminista, autonomizada e autorreferente, enlouqueceu o homem moderno. Louco não é aquele que perdeu a razão, mas que perdeu tudo, exceto a razão. O homem são, por sua vez, conserva um salutar misticismo, sabe que não pode conhecer tudo, que há um senso insuperável de mistério na realidade do mundo, que deve ser acolhido e valorizado. Aludindo à famosa analogia platônica da ideia do bem, Chesterton explica que tudo se torna visível pela luz do sol, mas o sol, ele mesmo, não pode ser contemplado diretamente, cegando quem o fitar, não por lhe faltar luz, mas por sua superabundância de luz. A razão católica, então, cultiva a humildade intelectual como complemento ao maravilhamento grego, no âmbito da gratidão pelo dom da realidade, que deve ser perscrutada ao máximo, mas que sempre será superabundante em ralação à capacidade cognitiva humana. Essa abertura ao mistério é o que permite a articulação da razão com a fé, no âmbito da tradição católica, que soube harmonizar, sobretudo com Santo Tomás de Aquino, Filosofia e Teologia.

A fundação da Faculdade Católica de Belém e seu recente Simpósio Filosófico-Teológico demonstram que a razão católica não foi plenamente superada pela razão científica, e que a Teologia e a Filosofia continuam a atrair os que reconhecem na inteligência uma dimensão mais profunda e transcendente da vida humana.

Fonte: O Liberal, em 19/03/2017.

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