Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Deixem de covardia, nerds: cresçam!

narnia1Por Luiz Fernando Vaz.

A geração ‘nerd’ e os jovens de uma forma geral vibram com a riqueza de detalhes que emulam civilizações imaginárias em obras como “Star Wars”, “O Senhor dos Anéis”, “Crônicas de Nárnia”, entre outras; ainda que – em estranha paralaxe – em especial ateus, militantes ou não – costumem ignorar a saga da humanidade expressa na Bíblia e nos demais livros sagrados, inclusive nas obras mais ‘laicas’. E isso é – ao menos para mim – algo bem esquisito.

Por que muitos preferem excitar seu fascínio através de fantasias metafóricas e não através da Literatura e da História do nosso mundo? Por que raramente empolgam-se com a saga heroica dos gregos da “Odisséia”, com a sociologia cristã às vezes nada sutil do mundo medieval da “Divina Comédia” ou com as aventuras civilizadoras dos “Lusíadas”?

Ao consumir o legado da trajetória humana através de uma segunda, terceira ou quarta ‘mão’, nossos caríssimos amigos – apesar de reviverem muitas das mesmas vicissitudes da nossa civilização – acabam absorvendo em menor grau duas questões essenciais da condição humana expressas nos clássicos da vida real: a gratuidade do pecado e do mal e o Protagonismo divino.

Nas obras fantásticas supracitadas, o protagonismo divino é representado por diversas metáforas engenhosas. Em “Star Wars” a ação do Bem supremo age através da “Força”; em “O Senhor dos Anéis” através da coragem e da amizade; nas Crônicas de C. S. Lewis através da invencibilidade da Inocência, etc. Já na Bíblia, por exemplo, o protagonismo divino não é metafórico, mas sim uma Presença e uma Ação reais que opera milagres e feitos heroicos, erige e destrói impérios e que intervém Pessoalmente exigindo total obediência às leis morais.

Não é difícil encontrar um exemplar da geração ‘nerd’ que se declare ateu no mesmo momento em que satisfaz sua sede por ordem e sentido somente naquelas obras de fantasia. Não deixa de haver certo escapismo nesta nova geração. E, como em todos as gerações românticas, esta também padece do mesmo pendor pela fuga da realidade e pela castidade real ou fingida. Daí o aforismo de Chesterton sobre os que deixam de acreditar em Deus para acreditar ‘em qualquer coisa e até em si mesmos’. Chesterton acerta – mais um vez – em cheio. Como um raio da Estrela da Morte.

Existe mais sacanagem na Bíblia e na “Odisséia” do que em toda a obra de Tolkien (incluindo suas exaustivas notas de rodapé). No entanto, a predileção do nerd pela fantasia livra-os da radicalidade perturbadora da pedagogia divina. Não há uma só trepada sugerida em “Star Wars”, assim como não há nos livros de Dungeons & Dragons, e muito menos em Crepúsculo. Como aprender sobre a gratuidade do mal no mundo sem a dimensão do descontrole da luxúria? A Bíblia é a a via de aprendizado mais excitante que Deus inventou e os ‘nerds’ preferem se excitar com Sakura Card Captors? Daí talvez resultem os clichês mais batidos do estilo de vida nerd que a cultura pop explora (alguém pensou em Big Bang Theory?): o ateísmo e a lendária castidade neurótica.

“Senhor dos Anéis”, ao menos os filmes, não mostram ninguém orando diretamente a uma entidade superior com algo parecido a instituições. A Ira, a Inveja e a Avareza, por exemplo, existem aos montes nos mundos imaginários, mas pecados como a Gula e Luxúria – pecados mais terrenos e menos épicos -, não. Nestes mundos imaginários, a luta entre o bem e o mal é transferida do coração do homem para o exterior visível e maniqueísta dos campos de batalha.

As duas pontas da narrativa religiosa da Queda e da Redenção pertencentes à saga humana estão romantizadas e mais discretas nestas obras sobre mundos imaginários. Para alguns ateus com menor imaginação essa aparente ausência da dimensão radical da existência pode ser confortante Para os ateus militantes poderia figurar como prova de ‘hipocrisia judaico-cristã’ as dezenas e dezenas de putarias do Antigo Testamento em contraste com a pureza que impera em Nárnia. Ah, quão confortável seria nosso mundo sem pecados de alcova!

A diferença da Bíblia para Tolkien, por exemplo, é que as narrativas sagradas são um chamado para a conversão e para o campo de batalha do coração e do cosmos. A Bíblia e as narrativas clássicas não lhe deixam escolha a não ser tomar as rédeas de sua vida. Elas exigem a fibra moral e o protagonismo dos amados heróis que os ‘nerds’ tanto admiram – na vida real. Já Tolkien e C. S. Lewis podem ser convites para iniciar-se na contemplação da condição humana, sim; mas também somente para a compra de cards, bonecos, pôsteres e HQ’s. Uma cousa é vislumbrar a Verdade por tabela; e outra é contemplá-la em toda a sua crueza ‘assinando’ um termo de responsabilidade com a própria consciência. Daí a Bíblia, principalmente, ser incômoda apesar de trazer narrativas tão empolgantes quanto o Silmarillion. E, como acontece na maioria dos casos, livram-se de refletir sobre isso com dois ou três argumentos iluministas de que as escrituras sagradas são uma fraude publicitária para enganar camponeses. “Ah, é tudo uma questão de fé!”, dirão os mais esquentadinhos. Ora, ora: todo nerd sabe como é difícil explicar “Star Wars” para aquela gata que costuma sair com os esportistas da faculdade. É preciso crer para compreender a ficção também.

O fato é que os ‘nerds’ já foram fisgados pela fascinante saga da nossa existência. O que a geração ‘nerd’ precisa é deixar de covardia e imaginar, por um momento ou dois, que a aventura dos homens e mulheres do nosso passado é tão digna de credibilidade e encanto quanto as eras da Terra Média ou a Galáxia ameaçada pelo lado negro. Deixar de ficar namorando por tabela o enigma da vida e agarrá-lo de uma vez. Os mundos mágicos que eles tanto amam não chegam nem perto da saga do mundo real. A nossa saga é infinitamente mais cruenta, com muito mais ação e excitação do que aparenta. E é verdadeiramente nossa. Não alude a nós, mas sim faz parte de nós. Somos herdeiros dela.

E já que Joseph Campbell diz que todos somos protagonistas das nossas sagas heroicas, que tal agarrar-se ao seus anéis do poder e assumir seus talentos Jedi NESSE mundo, hein?

Atravessem o umbral do armário rumo a Nárnia sem medo. Como os protagonistas do clássico de C. S. Lewis: cresçam!

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Um comentário em “Deixem de covardia, nerds: cresçam!

  1. mosteirodoconhecimento
    5 05America/Belem março 05America/Belem 2017

    Muito pertinente…

    Curtir

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Publicado às 1 01America/Belem março 01America/Belem 2017 por em Arte, Atualidade, Civilização, Cultura, Entretenimento, Luiz Fernando Vaz, Religião e marcado , , , , , , .
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