Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A animalização do homem

animalizado“A solução da alma está no corpo, nisso reside o barbarismo da sensibilidade, que se volta contra a elevação da ascese espiritual tradicional, considerada arcaísmo obscurantista, e o esforço da inteligência para aceder à alta cultura, tachada de elitismo ou classicismo obsoletado pelas vanguardas estéticas, hoje saturada pela “pop art” e pelo culto do primitivismo artístico”.

Por Victor Sales Pinheiro.

Após ter apresentado o instigante tema da barbárie interior, no último artigo desta coluna (disponível no site www.dialetico.com.br), passo a aprofundá-lo a partir da obra de Mário Ferreira dos Santos, “Invasão vertical dos bárbaros” (Ed. É Realizações), cuja forma literária de notas breves e sucessivas pode ser comparada aos atuais “posts”, com que nos comunicamos nas redes sociais e blogs. Esses apontamentos de um dos maiores filósofos brasileiros, porém, nada têm de opiniões esparsas e impressões desconexas, mas se articulam no âmbito de uma robusta filosofia da cultura, de matriz clássica.

O autor analisa a barbárie nas três dimensões constitutivas do homem: a sensibilidade, a afetividade e a intelectualidade. Essa antropologia tripartida remete diretamente à investigação psicológica de Platão na “República”, segundo a qual o homem é composto por três princípios constitutivos e hierárquicos: animalidade, humanidade e divindade. Simbolizados por três partes do corpo humano, o abdômen, o peito e a cabeça, esses princípios respondem às nossas três faculdades básicas, o apetite, a vontade e a inteligência, e a três das quatro virtudes cardeais, respectivamente, a temperança, a fortaleza e a sabedoria.

Pelo princípio da animalidade, o homem dispõe da sensibilidade dos instintos elementares e passionais de sobrevivência, consoante os desejos espontâneos de vida individual (alimentação) e coletiva (reprodução), que correspondem aos prazeres da mesa e da cama. Por isso, o símbolo do abdômen, que se localiza entre o estômago (apetite alimentar) e a genitália (apetite sexual). Pelo princípio da humanidade, o homem é dotado de vontade, enquanto capacidade de resistir às paixões inferiores e baseada nos afetos e emoções que compõem a grandeza ou a fraqueza de seu caráter. Os atos de autodomínio revelam exatamente a insubmissão às forças baixas. Mas, segundo Platão, essa vontade humana não seria capaz de domar os instintos animais no homem se ela não estivesse vinculada à parte alta da alma, que é a racionalidade, a capacidade de entender o sentido geral da vida individual e social e a função particular de cada um dos seus elementos. Por isso, essa virtude da sabedoria tem uma dimensão essencialmente prática, realizada na virtude da prudência, efetuando a justiça ética e política, como a ação de dar a cada um o que lhe pertence. No âmbito da ética clássica, a articulação definitiva entre prudência e justiça ficará a cargo dos maiores herdeiros de Platão: Aristóteles e Tomás de Aquino.

A partir desse esquema básico de compreensão do homem, em que consiste a barbárie da sensibilidade? A resposta é simples: na animalização do homem, na supervalorização dos seus sentidos físicos, na exaltação da força bruta, na alimentação tornada objeto de propaganda e no sexo convertido em objeto de consumo descartável. O elemento mais evidente da barbarização da sensibilidade é o culto ao corpo, hoje perceptível na proliferação de academias de ginástica, no exibicionismo generalizado da moda do apelo sexual (“sex appeal”), na vulgaridade da música, televisão e cinema: “O homem de músculos de aço já não é um exemplar curioso, é o ‘herói popular’, algo que representa o idealtypus das multidões bárbaras”, constata Mário Ferreira dos Santos, nesta obra escrita cinquenta anos atrás.

A máxima clássica “mente sã num corpo são” é radicalmente invertida numa sociedade que considera a sanidade da mente dependente, de modo quase exclusivo, da saúde do corpo. O exercício da intelectualidade e da espiritualidade, que promovem as faculdades superiores da alma, é francamente subestimado pelos bárbaros ou fica num segundo plano insignificante. O hábito da leitura silenciosa, seja de poesia, que exercita a imaginação, seja de filosofia ou ciência, que estimula a abstração, assim como a prática da oração e da piedade religiosa, que vivificam a espiritualidade, diminuem em proporção direta ao aumento da ginástica, do esporte, da televisão e do cinema, atividades que excitam os sentidos corpóreos.

A superexcitação dionisíaca do corpo, provocada pela música eletrônica da rave e das boates em geral, assim como a obsessão dietética com a magreza, são traços característicos da nossa época hedonista. Somos “os últimos homens”, ironizados pelo Zaratustra de Nietzsche, com nossos pequenos prazeres de dia e de noite, mas sempre preocupados com a saúde (do corpo). As terapias da alma não raro prescrevem atividades físicas e exercícios sexuais para resolução dos dramas existenciais, que são reduzidos a questões de libido reprimida por mecanismos psíquicos de sublimação. A solução da alma está no corpo, nisso reside o barbarismo da sensibilidade, que se volta contra a elevação da ascese espiritual tradicional, considerada arcaísmo obscurantista, e o esforço da inteligência para aceder à alta cultura, tachada de elitismo ou classicismo obsoletado pelas vanguardas estéticas, hoje saturada pela “pop art” e pelo culto do primitivismo artístico. A superficialidade emocional e o embotamento intelectual são sintomas eloquentes de homens dominados pela corporeidade e pela dimensão tátil e visual.

Nesse contexto, desponta também a supervalorização da intuição romântica e dos sentimentos imediatos em detrimento da razão. A filosofia subjacente ao sentimentalismo contemporâneo é a de que “a sensação é mais rica do que a razão. Esta é estéril, apenas classificadora de estruturas despojadas de vida. (….) A vida supera a razão – As razões da vida são superiores às da razão”. Desse romantismo, decorre o irracionalismo, o ateísmo, o niilismo, como afirmações do sem-sentido último da vida, e o consequente relativismo cultural, como indiferença e negação da hierarquia das formas de vida e religião, em nome de um liberalismo moral, que exalta a liberdade, entendida como livre vasão dos desejos, sobre a verdade e a virtude, acorrentando o homem nos seus instintos mais baixos e o privando dos saltos de inteligência e espiritualidade de que é capaz e a que foi destinado.

Fonte: O Liberal, em 19/02/2017.

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