Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A barbárie interior

violencia-no-espirito-santo“a barbárie exterior está ligada à barbárie interior, dos afetos desordenados e da escravidão da personalidade à parte baixa, instintiva da alma. Uma boa análise da sociedade pressupõe uma análise da alma humana, uma psicologia moral”.

Por Victor Sales Pinheiro.

Entre as cenas mais gritantes do nosso tempo, figura o saque de lojas e supermercados, realizado por cidadãos comuns, “aproveitando” a greve da Polícia Militar no Espírito Santo. O que pensar quando a moralidade pública é reduzida ao controle policial? O que dizer quando a normalidade da conduta social depende, exclusivamente, do aparato estatal? Não seria a barbárie social um reflexo de uma crise moral mais aguda?

O que distingue o Direito da Ética é que ele comporta a coerção, como elemento externo de controle dos indivíduos, que se sentem ameaçados pela sanção imposta caso eles descumpram seus deveres legais. De Platão e Agostinho a Kant, os grandes filósofos morais observam que a Ética é a autorregulação do comportamento do homem, que se torna livre não porque não tem regras a obedecer, mas porque as cumpre sem a violência de um censor exterior a coagi-lo, um superego paterno que o infantiliza com a ameaça do castigo. O homem moralizado é aquele que assimilou as razões individuais e sociais de sua conduta e pratica o bem independente do policiamento. Quando a greve da Polícia gera um debacle social do nível do que se assiste no Espírito Santo, revela-se a fragilidade da nossa educação moral e a grave desordem interior de bárbaros sem os domadores por perto.

As crises sociais podem ser reconhecidas como fenômenos de anormalidade ou suportadas indefinidamente. No primeiro caso, são enfrentadas como se fossem doenças, atacando a causa da enfermidade, e não apenas seus efeitos. No segundo caso, elas permanecem invencíveis, “normalizadas” pelo uso e por ocultarem suas causas reais. Enquanto não nos conscientizarmos de que a ação política precisa ser embasada numa educação moral sólida, a qual depende dos pais e professores desde a tenra infância e uma atenção redobrada na adolescência, continuaremos a atribuir à polícia e ao Estado a cura dos nossos males sociais. Quanto menos moralizada for a sociedade, menos livre ela será, pois precisa de mais controle exterior, que se reveste não raro de formas violentas e igualmente bárbaras, fascistas ou comunistas. Por isso, os discursos repressivos aumentam à medida que se evidencia a falência da moralidade pública que desrespeita a vida, a incolumidade física, a propriedade, a honra e a liberdade alheia.

Vivemos num estado de guerra civil sempre iminente. Os inimigos não vêm de fora, mas de dentro da cidade. Vivemos a “Invasão vertical dos bárbaros” (Ed. É Realizações), a que se refere Mário Ferreira dos Santos: uma barbárie interior, cultural e moral, de que o individualismo e o relativismo são a melhor ilustração. Os bárbaros não os “outros”, os “não-civilizados”, mas nós mesmos. O próprio hábito de culpar os outros, de denunciar o cisco nos olhos alheios, denota a barbaridade da falta de autoconhecimento e autoexame. Nada revela mais a derrocada da Ética e da sociabilidade cívica necessária para uma convivência sadia do que a tentativa recorrente de corrupção em todas as instâncias possíveis: a cola na escola, a trapaça no jogo, a mentira no trato social, o atraso e a negligência no trabalho, o adultério no casamento, a sonegação de impostos, o peculato na política, etc. Ou seja, a barbárie exterior está ligada à barbárie interior, dos afetos desordenados e da escravidão da personalidade à parte baixa, instintiva da alma. Uma boa análise da sociedade pressupõe uma análise da alma humana, uma psicologia moral.

Explorando essa intuição básica de Platão nos múltiplos aspectos da história, psicologia, educação, cultura e política, Jean-François Mattéi escreveu uma das melhores obras de filosofia da cultura hoje disponíveis, “A barbárie interior – ensaio sobre o ‘i-mundo’ moderno” (Ed.Unesp), que deve ser lida em complemento à referida obra de Mário Ferreira dos Santos pelos que buscam compreender a complexidade da crise em que nos encontramos.

Inicialmente, entre gregos e romanos, bárbaro era um conceito geográfico e étnico, daquele situado nos confins da civilização, nas brumas glacias do Norte ou nas umidades da Ásia, excluído dos costumes urbanizados da polis e seus limites morais e jurídicos. Oposta à civilização, a barbárie ligava-se à violência, à crueldade e à ferocidade dos que não se comunicam pela razão, que desprezam a resolução pacífica e consensual dos conflitos, com os institutos da Ética e do Direito, que instauram o controle dos instintos mais imediatos, irrefletidos e violentos, que compartilhamos com os animais. A civilização depende da “humanização” do homem pela educação moral, baseada no domínio da parte racional da alma. Sem ordem na alma, é impossível a ordem na polis: esta a lição permanente da “República” de Platão, que assistiu à decadência de Atenas numa guerra civil fratricida e numa democracia tirânica.

Ao lado da dimensão predadora da barbárie, há também a “barbárie da reflexão”, pautada na astúcia, na dissimulação e na fraude, no egoísmo e na avidez por privilégio pessoal, vantagem social e financeira. Isso se reflete no nosso “jeitinho” brasileiro de se dar bem a todo custo, de driblar as normas que não nos favorecem, de nos omitir, por conivência, naquilo que devemos denunciar. A barbárie interior é o cinismo e a dissimulação que revestem de desfaçatez o nosso cotidiano, privado de um sentido mais honrado, amesquinhado pela mediocridade dos que renunciam às exigências irredutíveis da grandeza moral, da edificação cultural e do sentido superior da vida espiritual. Tudo isso depende da ordem interna da alma, do esforço pela retidão de caráter, e não da polícia e das leis. Como explica Mattéi, o esvaziamento niilista do sentido último da vida neutraliza os esforços civilizacionais da educação, “que eleva o homem acima de si mesmo”, da cultura, “que lhe permite entrar no mundo das obras” e da política, “que lhe oferece um espaço público onde sua relação com os outros homens faz ‘sentido’”. Sem educação e cultura, a política continuará sendo uma questão bárbara de polícia.

Fonte: O Liberal, em 12/02/2017.

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Um comentário em “A barbárie interior

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