Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Filosofia ocidental e falsafa muçulmana

jean-sevillaPor Jean Sévillia.

A expansão do islã começa em 634, dois anos após a morte de Maomé. Em pouco mais de dez anos os cavaleiros árabes conquistam a Síria, o Egito e a Pérsia; na década seguinte, a marcha prosseguiu pelo Cáucaso até a Índia. Cerca de 660 começou a dinastia dos Omíadas, que reinou em Damasco até 750. De 660 a 710 se empreende a conquista do Magreb. A invasão da Espanha começa em 711, provocando a queda da monarquia visigótica. Constantinopla foi sitiada pela primeira vez em 717. Em 750 os Omíadas dão lugar aos Abássidas, dinastia que faz de Bagdá a sua capital e há de reinar até o século XIII. Mas o império abássida, vastíssimo, acabará por se desmembrar. A partir de 755, o califado de Córdoba, que abrange a maior parte da Espanha, se torna independente.

No Oriente Próximo, na África e na Espanha, o islã se irradia para regiões evangelizadas nos primeiros séculos da nossa era. As populações cristãs dessas regiões se veem confrontadas com uma destas situações: ou se convertem — voluntariamente ou não — à religião do vencedor, ou se mantêm cristãs sob o estatuto da dhimma — palavra árabe que significa ao mesmo tempo proteção e submissão. Esse estatuto está reservado às pessoas do Livro, i. e., aos cristãos e aos judeus cuja liberdade é tolerada mas limitada: devem eles pagar um tributo especial e respeitar inúmeras restrições sociais que a eles se impõem.

No mundo muçulmano não restam apenas os cripto-cristãos: no Oriente Próximo, por volta do ano 1000, os árabes cristãos e os cristãos arabizados constituem cerca da metade da população. Essas zonas cristãs abrigam bolsões de vida intelectual, que ainda continuam embebidos de cultura antiga.

É o caso de Toledo, capital do reino dos visigodos de 576 a 711; a cidade episcopal acolhe os sábios que lidam com os textos antigos. Mesmo depois que Toledo se torna o principal centro de uma das províncias do califado de Córdoba, a cidade ainda figurava como um centro de tradução: os textos de início traduzidos do grego em árabe são retranscritos ao latim. Os intelectuais que se consagram a este lavor — são os cristãos, mas cristãos dhimmis.

O mito do al-Andalus, que dura até hoje, silencia essa realidade incômoda. A Espanha muçulmana teria sido uma terra onde resplandecia a tolerância e o bom entendimento entre os povos e as religiões, e cuja harmonia teria acabado a partir da Reconquista e do reinado dos reis católicos, artífices do fanatismo e do obscurantismo no século XV. Se é verdade que a discriminação vitimava os não-cristãos na Espanha dos reis católicos, ela será análoga àquela que afetava os não-muçulmanos durante o regime islâmico. A liberdade de consciência ou a liberdade de religião — conceitos modernos — são desconhecidas na Idade Média, em todas as civilizações. Mas é curioso que a queixa anacrônica dirigida à Espanha católica — o desrespeito à liberdade religiosa — já não vale se se fala da Espanha muçulmana.

Na região de Edessa (atualmente Urfa, na Turquia), durante três ou quatro séculos, os árabes cristãos e os cristãos arabizados, na maioria nestorianos, falam o siríaco — que é uma variante aramaica que sobreviveu ao islã e que só desapareceria no século XIII, embora ainda se conserve como língua litúrgica; estes árabes também preservaram o uso do grego, que era a língua cultural e administrativa dos bizantinos. Quem traduz a maioria dos textos helênicos — nos domínios da filosofia, das ciências e da medicina — são os cristãos siríacos. Hunayn ibn Ishaq (809-873), apodado de o mestre dos tradutores, é um cristão nestoriano que percorre a Ásia Menor com o objetivo de recolher manuscritos gregos, os quais traduz ou — sob a sua direção — manda traduzir. Mais de cem livros de filosofia, matemática e medicina — as obras de Platão, Aristóteles e Galeno — foram traduzidos do grego para o árabe aos seus cuidados.

Hunayn ibn Ishaq é o anfitrião da Casa do Saber de Bagdá. Atualmente existe uma legenda sobre essa instituição, descrita ao mesmo tempo como biblioteca, oficina de tradução e lugar de reunião. Símbolo da idade de ouro da ciência árabe, a Casa do Saber talvez não tenha sido um espaço devotado ao livre ensino e ao debate de ideias. Rémi Brague[1] mostra que o estabelecimento, em realidade, era uma oficina de propaganda política e religiosa ao serviço do mutazilismo — uma variante do islã que os califas da época adotaram; quem fosse refratário a ela era vítima de um tratamento acerbo, que se atribui geral — e quase sempre erroneamente — à Inquisição. Mais uma vez o anacronismo espanta, sobretudo quando se demonstra seletivo.

Entre os pensadores do mundo muçulmano que mais devem à cultura grega, avultam-se três nomes: o músico Alfarabi (872-950), filósofo de inspiração platônica e aristotélica, que vivia em Bagdá; o médico Avicena (980-1037), filósofo e místico de origem iraniana, que opera a síntese entre o aristotelismo, o platonismo e o islã; e sobretudo Averróis (1126-1198), cádi de Sevilha e mais tarde de Córdoba, filósofo cuja obra – baseada nos comentários a Aristóteles — é objeto do ensino de Sigério de Brabante na Universidade de Paris, por volta de 1230, e da crítica de São Tomás de Aquino, até que finalmente a Igreja a condena em 1240.

Averróis já atraíra a atenção de Renan, que lhe traçara um retrato de muçulmano bem ao gosto do século XIX: apóstolo da razão e do progresso. Faz alguns anos agora que a personagem voltou à moda. Em 1997 ele aparece como o herói do filme de Youssef Chahine, O Destino. A primeira escola privada muçulmana da França, aberta em Lille em 2003, leva o seu nome. Os homens de hoje o consideram um humanista sábio, prefigurador das Luzes e do diálogo das culturas, cujo exemplo prova que o encontro entre o islã e o Ocidente pode se desenrolar com serenidade.

De novo se trata de um anacronismo. Na França Averróis é conhecido sobretudo pelo Discurso Decisivo, que representa tão-somente uma parte ínfima da sua obra. A partir desse texto é possível descrever o filósofo como uma pessoa de mente aberta e tolerante, mas à custa dum contrassenso: o Discurso Decisivo, explica Rémi Brague[2], é uma consulta jurídica em que o autor, prático de direito muçulmano, acredita que a atividade filosófica tem de ser interdita ao comum dos mortais, com o fito de evitar os erros que poderia cometer. Em todos os casos, segundo ele, a filosofia deve estar de acordo com a religião, no que respeita ao legal e ao ilegal, segundo as definições das normas islâmicas. Em caso de contradição entre a filosofia e o Corão, Averróis julga necessário – conforme demonstrou Dominique Urvoy[3] – recorrer ao sentido secreto do livro sagrado. Como grande cádi de Córdoba, ele é um magistrado religioso, em um tempo em que tudo pertence à seara da religião e em uma sociedade em que a religião é também código civil. A função de Averróis é aplicar a lei islâmica e, se fosse mister, proclamar a guerra santa contra os cristãos, caso os almóadas decidissem levá-la a cabo. Só por anacronismo, repisamo-lo, é possível conferir a ele características (razão, tolerância, progresso e até laicidade) que lhe não podiam pertencer.

Além disso, naquele tempo, Averróis foi denunciado como heterodoxo e condenado, as suas doutrinas foram proibidas e os seus livros queimados. O mundo muçulmano não o aceitou enquanto vivo, e o esqueceu depois da morte. Foram os cristãos e os judeus que lhe estudaram o pensamento e divulgaram as ideias. Ademais, a profissão de filósofo não existia no meio islâmico. No ambiente muçulmano, a filosofia – falsafa – era um assunto privado; na cristandade latina, ao contrário, a filosofia – classificada entre as artes liberais, ensinada nas universidades e obrigatória para os teólogos – gozava de reconhecimento oficial.

Alfarabi era antes de tudo músico, Avicena médico, e Averróis magistrado, o que não depõe contra o gênio filosófico deles. Segundo Rémi Brague, a filosofia árabe dos séculos IX e X é superior à praticada entre cristãos e judeus, mas por motivos não muito claros ela termina com Avicena e Averróis. Teria se cristalizado o pensamento muçulmano? Entretanto, em outras áreas do conhecimento, não se manifesta nos países muçulmanos essa anemia intelectual.

Já no Ocidente, o renascimento jurídico, literário e filosófico do século XII cria uma necessidade de conhecimento que explica a recepção do pensamento de Averróis no século seguinte. Com efeito, foi o século XIII o apogeu da influência que exerceram no Ocidente os filósofos de língua árabe, quer muçulmanos quer judeus. Alberto o Grande, Dietrich de Friburgo ou Mestre Eckhart se nutriram do confronto do pensamento de Avicena, de Maimônides ou de Averróis.

[1] Rémi Brague, Europe, la voie romaine, Gallimard, 1999.

[2] Rémi Brague, Europe, la voie romaine, op. cit.

[3] Sylvain Gouguenheim, Aristote au Mont-Saint-Michel, op. cit.

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Publicado às 8 08America/Belem fevereiro 08America/Belem 2017 por em Civilização, Filosofia, História, Internacional, Religião e marcado , , , , , .
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