Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O mundo na curva do seu destino

20060303 - CITTA' DEL VATICANO - CRO  -  +++PAPA: RADIO DA' VOCE A S.SEDE E DIALOGA CON IL MONDO+++  Una foto di archivio del 1947  della visita di Papa  Pio XII alla radio Vaticana. ARCHIVIO ANSA/DEF

Tendo chegado as coisas a tal ponto, é verdadeiramente chegado o tempo, em que cada qual, que tem como cara e sagrada a herança humana e espiritual de seus pais, desterre o sono de suas pálpebras e se arme de fé e coragem para preservar a Urbe, mãe da civilização, de cair numa condição religiosa, moral, social, que tornaria, com Nosso vivo pesar, bem difíceis as solenes celebrações do próximo Ano Santo, desejado pelos católicos do mundo inteiro.

Por Papa Pio XII.

A festividade do Natal e o Ano Novo já próximo anunciam-se com sinais advertidores, índices do futuro. Os votos tradicionais, que se permutam nesta data e ascendem ao céu entre nuvens de incenso e de orações, não podem nem querem, apesar da íntima sinceridade do amor que os dita, fazer perder de vista as condições da hora presente, nas quais se encontram, numa curva do seu destino, a Europa e o mundo inteiro, cuja gravidade é indubitável, cuja evolução para o bem ou para o mal é incalculável e cujas conseqüências são imprevisíveis.

Ainda no ano passado, nesta mesma ocasião, Nós endereçamos a Nossa Mensagem de Natal a todos os católicos, e ao mesmo tempo a todos os homens de bom-senso e de boa vontade. Quem jamais teria bastante ânimo para pressagiar à humanidade, esgotada de guerra e faminta de paz, isto que é hoje uma dura e inegável realidade?

2. Os sinos de Natal continuarão a bimbalhar festivamente, como há séculos; mas para muitos corações fechados, amargurados, turbados, eles soarão num deserto, onde não mais despertarão qualquer eco vivo.

Transcorrido mais um ano do após-guerra, cheio de misérias e de sofrimentos, de desilusões e de privações, cada qual que tenha olhos para ver e ouvidos para ouvir, deve deter-se à vista deste fato doloroso e humilhante: a Europa e o mundo — até à remota e martirizada China — estão hoje mais do que nunca longe da verdadeira paz, de uma completa e perfeita cura de seus males, do estabelecimento de uma nova ordem na harmonia, no equilíbrio e na justiça.

3. Os fautores da negação e da discórdia, com toda a sorte de aproveitadores que rastejam em seu seguimento, rejubilam-se com o pensamento ou a ilusão de que a sua hora se aproxima. Os amigos da paz, os promotores de uma reconciliação estável entre os povos, ao contrário, sentem o coração confranger-se de ânsia, diante do contraste entre a riqueza moral e social da boa nova de Belém e a miséria de um mundo que se afastou de Cristo.

4. Mas os verdadeiros cristãos, para os quais toda a vida, sua luz e seu mérito consiste no sentire cum Ecclesia, conhecem e compreendem, melhor que qualquer outro, o sentido e o valor de épocas como a nossa, épocas de trevas densas e, ao mesmo tempo, de fulgurante luz, quando o inimigo de Cristo recolhe tragicamente larga messe de almas, mas quando também muitos bons se tornam melhores; quando os corações generosos se elevam aos cimos do heroísmo vitorioso, e quando, igualmente muitos tépidos e pusilânimes, escravos do respeito humano, receosos do sacrifício, tombam na mediocridade, degeneram na vileza, semelhantes àqueles “que não foram rebeldes—nem foram fiéis a Deus, mas viveram para si” (Dante, Inferno, 3, 38-39).

5. Na luta titânica entre os dois espíritos opostos, que se disputam o mundo, se é o ódio suficiente para agrupar em torno do espírito do mal homens que tudo pareceria dever dividir uns dos outros, o que não poderá fazer o amor para reunir numa liga, vasta como o mundo, todos quantos, pela elevação de vistas, pela nobreza de sentimentos, pela comunhão de sofrimentos, uniram-se por vínculos bem mais fortes e apertados que as diferenças ou divergências que os poderiam separar?

6. Aos milhões de homens dispostos a aderir a essa liga mundial, cuja lei fundamental é a mensagem de Belém e cujo Chefe invisível é o Rei pacífico nascido no presépio, endereçamos nesta hora a Nossa fervorosa exortação.

I. Causa da decadência de nosso tempo: a “insinceridade”

7. O estigma que marca a fronte do nosso tempo e é causa de desagregação e de decadência, é a tendência cada vez mais manifesta à “insinceridade”. Ausência de veracidade, que não é somente um expediente ocasional, um recurso para fugir a um impasse em momento de imprevistas dificuldades ou de obstáculos inesperados. Não! Ela se nos depara atualmente como que erigida em sistema, elevada ao grau de uma espécie de estratégia na qual a mentira, o falseamento das palavras e dos fatos, o engano, tornaram-se armas clássicas de ofensiva, que alguns manejam com mestria, orgulhosos de sua habilidade; tanto o olvido de todo senso moral é, aos seus olhos, parte integrante da moderna técnica na arte de formar a opinião pública, de dirigi-la e de submetê-la ao serviço de sua política, resolvidos que estão a triunfar a toda custa, nas lutas de interesses e de opiniões, de doutrinas e de hegemonias.

8. Não temos o propósito de descrever aqui especificadamente as ruínas produzidas por este torneio de “insinceridade” na vida pública; temos, porém, o dever de abrir os olhos aos católicos de todo o mundo — e também a quantos têm comum conosco a fé em Cristo e num Deus transcendente — acerca dos perigos que este predomínio da falsidade faz correr a Igreja, a civilização cristã, todo o patrimônio religioso e também o simplesmente humano, que há dois milênios vem proporcionando aos povos a substância de sua vida espiritual e de sua real grandeza.

9. Como outrora Herodes, ansioso de fazer assassinar o Menino de Belém, dissimulou sob a máscara da devoção o seu propósito, procurando transformar os Magos, de coração reto, em espiões inconscientes, assim os modernos imitadores dele empregam todos os esforços para ocultar às populações os seus verdadeiros desígnios e torná-las ignaros instrumentos de seus fins. Mas, uma vez conquistado o poder, apenas se sentem senhores absolutos das rédeas, deixam pouco a pouco cair a máscara e passam progressivamente da opressão da dignidade e da liberdade humana à supressão de toda sã e independente atividade religiosa.

10. Ora, perguntamos Nós a todas as pessoas honestas: Como é possível à humanidade curar-se; como pode surgir, dos erros e agitações da torva hora presente, uma “nova ordem”, digna deste nome, se os limites entre amigo e inimigo, entre o sim e o não, entre a fé e a incredulidade estão cancelados e deslocados?

11. A Igreja, repleta sempre de caridade e de bondade para com as pessoas dos transviados, fiel no entanto à palavra de seu Divino Fundador, que declarou: “Quem não está comigo, é contra mim” (Mt 12, 30), não pode fugir ao dever de denunciar o erro, de arrancar a máscara dos “fabricantes de mentiras” (Job 13, 4), que se apresentam, lobos vestidos em peles de cordeiros (Mt 7, 15), como precursores e iniciadores de uma nova época de felicidade, e de advertir os fiéis que se não deixem desviar do caminho reto nem iludir por falazes promessas.

12. A Nossa posição, em frente aos dois campos, é despida de qualquer preconceito, de qualquer preferência para com este ou aquele povo, por qualquer bloco de nações, como está alheia a qualquer consideração de ordem temporal. Estar com Cristo ou contra Cristo: eis a questão.

13. Vós compreendereis facilmente, portanto, quanto Nos é doloroso o ver uma propaganda hostil desnaturar os Nossos pensamentos e palavras, exacerbar os espíritos, impedir as pacíficas trocas de ideias e aprofundar o abismo que de Nós separa tantas almas, remidas pelo sangue e pelo amor do mesmo divino Salvador. Reconhece-se, no fundo de tudo isto, sempre a mesma duplicidade, desejada e friamente utilizada como a mais penetrante arma contra a justiça e a verdade, para impedir a reaproximação, a reconciliação e a paz.

14. A inevitável consequência deste estado de coisas é a cisão da humanidade em grupos poderosos e adversários, cuja suprema lei de vida e de ação é uma desconfiança fundamental e invencível, que é ao mesmo tempo o trágico paradoxo e a maldição do nosso tempo.

15. Cada qual das partes contrárias se julga obrigada a manter essa desconfiança como uma necessidade de elementar cautela. E eis que, por este mesmo fato, ergue-se uma gigantesca muralha a tornar vão todo o esforço para restituir à assolada família humana os benefícios de uma paz verdadeira.

16. E não pudemos, acaso, ainda no curso das últimas semanas, palpar com a mão os efeitos dessa recíproca desconfiança, ao ver uma tão importante Conferência das Grandes Potências atingir o término sem que conseguisse qualquer progresso essencial e definitivo no caminho da paz, que ansiosamente dela se esperavam?

17. Para sair destas estreitezas, a que o culto da “insinceridade” conduziu o mundo, só uma senda é possível: o retorno ao espírito e à prática de uma veracidade retilínea.

18. Ninguém, hoje — seja qual for o campo ou partido social ou político a que pertença — que pretenda fazer valer, na balança do destino dos povos, no presente ou no futuro, o peso de suas convicções e de seus atos, tem o direito de mascarar seu rosto, de querer aparecer como não é, de recorrer à estratégia da mentira, da constrição, da ameaça, para restringir os honestos cidadãos de todos os países no exercício de sua justa liberdade e de seus direitos civis.

19. Nós vos dizemos, portanto, diletos filhos e filhas: Amanhã celebraremos a Natividade d’Aquele de cuja boca saiu um dia o grito: “Veritas liberabit vos” (Jo 8, 32): a verdade (que é a sua doutrina) vos fará livres! Mas talvez este grito jamais tenha ressoado tão forte como o será hoje, num mundo faminto de paz, que sente pesar sobre si o jugo da mentira.

20. E a Ele, que se encarnou para servir a todos de “caminho, verdade e vida”, responda a suplicante oração de toda a Cristandade, para que a verdade reencontre o caminho dos corações dos dirigentes dos povos, dos quais um sim ou um não pode determinar a sorte do mundo; e com a verdade refulja sobre a terra, não uma enganadora miragem, mas a estrela luminosa da divina paz de Belém.

II. Para ganhar a paz, devemos estar preparados para todos os sacrifícios

21. Aqueles que absolutamente desejavam ganhar a guerra mostraram-se prontos a todos os sacrifícios, mesmo ao da vida. Quem deseja sinceramente ganhar a paz, deve estar pronto a sacrifícios não menos generosos, porque nada custa mais, a uma humanidade batida, amargurada, que renunciar a represálias e a rancores implacáveis.

22. As injustiças e crueldades, cometidas por aqueles que desencadearam a segunda guerra mundial, levantaram ondas de justa indignação, mas ao mesmo tempo fizeram amadurecer infelizmente os germes de uma instintiva inclinação à vingança.

23. A fração mais sã da humanidade — mesmo nos países maiormente empenhados no conflito — reprovava unanimemente os excessos e atrocidades que uma política tombada no niilismo moral não só praticava na guerra por ela provocada, mas até se atrevia a justificar teoricamente. Os fatos e documentos em seguida vindos a lume puderam somente confirmar que os autores e executores dessa política são os principais responsáveis pela miséria que o mundo hoje sofre.

24. Os homens do após-guerra teriam podido facilmente opor a essa decadência a própria superioridade moral; mas desventuradamente em não poucos casos deixaram escapar-se-lhes uma tão oportuna ocasião. É preciso reconhecer que a história da humanidade durante os dias, semanas e meses que se sucederam ao fim da guerra, está bem longe de ser gloriosa em tudo.

25. Os merecidos castigos, infligidos aos grandes culpados, teriam podido inspirar cenas infernais à pena de Dante; mas o sumo Poeta teria recuado diante das represálias exercidas contra inocentes.

26. As deportações forçadas, o assujeitamento a trabalhos pesados, apareceram nesta altura como uma repulsa aos mais elementares princípios de humanidade, à letra e ao espírito do direito das gentes. E então, quem se poderia admirar de que a mesma consciência, que se indignara justamente ao ver tais atos perpetrados por uns, haja reagido com igual veemência, ao vê-los cometidos por outros?

27. Quem poderá avaliar que novas misérias morais, familiares, sociais, que danos ao equilíbrio cultural e econômico da Europa, e não somente dela, poderão ocasionar as forçadas e indiscriminadas transferências de povos? Que tristeza para o presente! Que angústias para o futuro! Somente uma maior largueza de vistas, uma mais sábia e avisada política por parte dos Homens que em suas mãos detêm o destino do mundo, poderão alcançar uma solução tolerável a um problema insolúvel por qualquer outro meio!

28. Honra, portanto, àqueles que, em todas as Nações, não se poupam a nenhuma privação ou fadiga para atingir a consecução de tão nobre escopo! Que eles não se deixem turbar pelas contradições e resistências que lhes não poderão faltar, e que precisamente nestes dias parece crescerem de intensidade para suscitar uma nova guerra de nervos, para atiçar a discórdia, para arrasar os esforços dos campeões da união e da pacificação! Aguardem eles que esteja próxima a hora, na qual — como Nós confiamos e impetramos em Nossas orações — o Rei da paz concederá a vitória àqueles que com intenção pura e com armas pacíficas combatem pela sua causa.

III. Remédio dos grandes males de nossa época: a fraternidade

29. A humanidade, portanto, não poderá sair da crise e da desolação presente, e se encaminhar para um futuro harmônico, se não frear e dominar as forças da divisão e da discórdia, graças a um sincero espírito de fraternidade que estreite num mesmo amor todas as classes, todas as estirpes e todas as nações.

30. Se hoje, na vigília do Natal, Nós lançamos tal convite ao mundo inteiro, é porque vemos este espírito de fraternidade em risco de extinguir-se e de morrer; vemos as paixões egoísticas adiantarem-se à sã razão; os duros procedimentos de desmando e de violência, à compreensão leal e à reciprocidade de vistas; a desdenhosa incúria com os males que daí derivam, à assídua gestão do bem público.

A Igreja, cujo maternal coração abraça com igual solicitude todos os povos, observa com angústia essa evolução nos conflitos nacionais e internacionais.

31. Quando a fé em Deus, Pai de todos os homens, começa a esvair-se, também o espírito de união fraternal perde sua base moral e sua força de coesão; e quando o senso de comunidade desejada por Deus e que inclui recíprocos direitos e deveres, regulados por determinadas normas, começa a desfalecer, o seu lugar passa a ser ocupado por uma mórbida hipersensibilidade por tudo quanto divide, uma instintiva inclinação à exagerada afirmação dos direitos próprios, verdadeiros ou supostos, uma negligência, às vezes inconcebível mas não menos perniciosa por isso, das necessidades vitais dos outros.

Inicia-se então a luta de todos contra todos, luta que não admite senão o direito do mais forte.

O nosso tempo tem nos oferecido dolorosos exemplos de guerras fratricidas, saídas com lógica implacável do esmorecimento do espírito de fraternidade.

32. Finalmente, a terra que ouviu o canto dos Anjos, anunciando a paz aos homens, que viu resplender a estrela do Salvador, a terra onde o Redentor divino morreu crucificado para a nossa salvação, aquela terra santa, com as suas recordações e seus santuários sumamente caros a todo coração cristão, agora dividida, tornou-se teatro de sanguinolentos conflitos. E não é hoje, porventura, a própria Europa, centro de toda a grande família católica, uma advertência e uma prova da situação a que o desaparecimento do espírito fraternal pôde reduzir uma parte do mundo, outrora tão bela e florescente? Ela carrega consigo, não cicatrizadas ainda, as feridas que lhe infligiu a última guerra, e começa já a relampejar a luz sinistra de novos dissídios.

33. Ah! se todas as pessoas honestas se unissem estreitamente, como estaria próxima a vitória da fraternidade humana, e com ela a cura do mundo! Representam elas hoje uma parte considerável da opinião pública e dão provas de um senso verdadeiramente humano e de sabedoria inclusive política. Mas outras, ao contrário, não menos numerosas, e cujo sim ou não tem notável peso para acelerar ou retardar a pacificação da Europa, primeira condição para os outros passos rumo à pacificação universal, seguem rumo oposto. Temem estas, pois, que uma Europa restaurada, revigorada, novamente consciente de sua missão, cristãmente inspirada, queira expelir de seu organismo os germes deletérios do ateísmo e da revolta, viver vida própria e livre de malsãos influxos estranhos?

34. É claro, realmente, que uma Europa, abalada pelos calafrios febris das dificuldades econômicas e das turbulências sociais, se deixaria mais facilmente seduzir pela ilusão de um impraticável Estado ideal, que uma Europa sã e clarividente não admitiria.

35. Os propugnadores de tão falazes propósitos esforçam-se no entanto, por angariar prosélitos entre os exaltados e os ingênuos, por impelir também seus povos para o abismo da ruína, em que outros já mergulharam, menos por sua livre escolha que sob a sistemática opressão das liberdades civis e religiosas.

36. E já não temos Nós visto, neste mesmo solo sagrado da Cidade em que a vontade divina estabeleceu a Cátedra de Pedro, os mensageiros de uma concepção do mundo e da sociedade humana assente sobre a incredulidade e a violência tornarem-se semeadores de cizânia na boa terra de Roma e esforçarem-se por persuadir os seus filhos de que eles idealizaram e realizaram uma nova cultura mais digna do homem que a antiga e eternamente jovem civilização cristã?

37. Tendo chegado as coisas a tal ponto, é verdadeiramente chegado o tempo, em que cada qual, que tem como cara e sagrada a herança humana e espiritual de seus pais, desterre o sono de suas pálpebras e se arme de fé e coragem para preservar a Urbe, mãe da civilização, de cair numa condição religiosa, moral, social, que tornaria, com Nosso vivo pesar, bem difíceis as solenes celebrações do próximo Ano Santo, desejado pelos católicos do mundo inteiro.

38. De resto, se nas atuais circunstâncias as Nossas claras palavras ultrapassam fronteiras, elas não visam senão as doutrinas negadoras da fé em Deus e em Cristo, e não, de certo, os povos ou os grupos de povos que delas são vítimas. Por estes, nutre sempre a Igreja imutável amor, e com tanto maior ternura, quanto mais eles sofrem. Nos dias de provações, mais do que nas horas serenas, devem os homens de todas as nações sentir-se irmãos, com aquela fraternidade da qual ninguém tem mais exaltado nem melhor exaltará o profundo sentido, a elevada missão e a capacidade de reconciliação, com tanto calor como “o primogênito entre muitos irmãos” (Rom 8, 29), que de Belém ao Gólgota pregou, com o seu exemplo mais do que com as suas palavras, a grande e universal fraternidade.

39. Sobre o Natal de hoje adensa-se escura nuvem. Enquanto nos povos se torna cada vez mais ansioso o anelo de paz, em grau não menor se patenteia nos seus dirigentes a impossibilidade de satisfazê-los pelos meios puramente humanos.

Os esforços honestos de uns para a consecução de uma paz equânime e o sistemático propósito de outros por impedir-lhe o advento, não Nos sugerem a imagem de um perigoso jogo de azar, do qual dependerá a fortuna ou a ruína?

Nas assembleias humanas insinua-se solertemente o espírito do mal, “o anjo do abismo” (Apoc 9, 11), inimigo da verdade, fomentador de ódios, negador e destruidor de todo sentimento fraternal. Crendo próxima a sua hora, tudo empreende para apressá-la.

Conclusão: exortação à esperança, à fé e à confiança

40. Não obstante isso, Nós queremos encerrar a Nossa Mensagem de Natal com uma veemente exortação à esperança e à confiança. Se a fé no divino Redentor move os cristãos a considerar cada coisa à luz da verdade, sempre antiga e sempre nova, das palavras que o velho Simeão pronunciou acerca do Menino Jesus apresentado no templo: “Eis que este foi posto para a ruína e a ressurreição de muitos… e como sinal de contradição” (Lc 2, 34); sabemos que o número daqueles que não se afastam de Cristo pela incredulidade, que a Ele aderem, que estão prontos a dar por Ele a própria vida, que n’Ele e na ressurreição depositam a sua inabalável esperança; sabemos que este número é grande, que cresce e se fortifica, vemos que eles irradiam a sua energia e o seu benéfico influxo em todos os campos da vida, e que outros homens de boa vontade a eles se vêm unir.

A vós todos, portanto, diletos filhos e filhas, Nós dizemos: A vossa hora chegou!

41. Às assembleias dos Homens de Estado preside, como Senhor Soberano, um outro Espírito invisível, aquele Deus onipotente, a cujos olhos nada escapa e que em suas mãos tem os pensamentos e os corações, para incliná-los a seu bel-prazer e na hora da sua escolha, aquele Deus, cujos imperscrutáveis desígnios são todos ditados pelo seu amor paternal. Mas, para realizá-los, Ele quer valer-se da vossa cooperação. Nos dias de luta, vosso posto é na primeira linha, na frente de batalha. Os tímidos e os refratários estão bem próximo de tornar-se desertores e traidores.

Desertor e traidor seria todo aquele que quisesse prestar a sua colaboração material, os seus serviços, a sua capacidade, a sua ajuda, o seu voto a partidos e a poderes que negam a Deus, que sobrepõem a força ao direito, a ameaça e o terror à liberdade, que fazem da mentira, das oposições, da sublevação das massas, outras tantas armas da sua política, tornando impossível a paz interna e externa.

42. Reportemo-nos a três séculos atrás. À Europa convulsionada pelos horrores da guerra dos Trinta Anos, trouxe finalmente o ano de 1648 a mensagem de paz, aurora da restauração.

Rogai e trabalhai por obter de Deus que o ano de 1948 seja para a Europa ferida, para os povos divididos pelas discórdias, o ano do renascimento e da paz, e que, expulso o espírito das trevas, o anjo do abismo, erga-se sobre o mundo o Sol da justiça, Jesus Cristo, Senhor Nosso, ao qual sejam dados honra e glória no tempo e na eternidade.

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Publicado às 21 21America/Belem dezembro 21America/Belem 2016 por em Civilização, Guerra, Papa Pio XII, Política, Religião e marcado , .
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