Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Interpretando o botão “curtir” do Facebook

nero_thumb2“O horizonte de atuação do modelo mediador na sociabilidade virtual revela-se na função mais inventiva e rentável do Facebook, o botão “curtir”, que multiplica e retroalimenta, indefinidamente, as suas atividades, enredando os usuários numa teia de comunicação autorreferente, algo próximo do que Platão expressou com a famosa alegoria de Caverna”.

Por Victor Sales Pinheiro.

O Facebook revela, de modo claro, um dado elementar da sociabilidade humana: o desejo mimético, o fato de imitarmos e “seguirmos” os outros na eleição dos nossos objetos de interesses. Nosso desejo não é jamais independente de modelos, mais ou menos conscientes, que tornam esses alvos atraentes.

Essa característica gregária do homem explica os fenômenos de massa como a moda, o consumo e as eleições políticas, em que nossas ações vinculam-se diretamente aos outros, às pesquisas de opinião e aos padrões sociais cristalizados em atitudes típicas. Os modelos midiáticos da música, televisão, cinema e esporte conferem aura sagrada aos produtos de consumo, aos candidatos eleitorais, assim como os intelectuais que prefaciam ou resenham um livro o revestem de dignidade científica e validade cultural imediata.

Mesmo quando queremos reforçar nossa identidade e a validade do que reputamos digno, procuramos confirmação social em pessoas identificadas com essa forma de vida, comportamento, consumo ou pensamento. Esse fato constitui a cada um a sua identidade coletiva, hostilizando também o inimigo comum, a “tribo” antagonista à dele. As redes sociais são, portanto, um local privilegiado para se experimentar não só o debate intrínseco às democracias liberais pluralistas, que ritualizam juridicamente o conflito social, mas também a escalada de violência do linchamento coletivo, franqueado pelo contágio mimético de elogio ou execração. Portanto, o conceito de “desejo mimético” de René Girard contribui para a compreensão do eficiente e hoje irrenunciável pandemônio digital das redes sociais, novo ágora da discussão pública.

Precisamos saber como os outros pensam, falam, compram, votam, divertem-se, e assim por diante. E queremos participar dessa vitrine e desse leilão generalizado, em que todos se avaliam e são avaliados, simultaneamente imitando e sendo imitados por outros. Tornamo-nos intermediários de notícias, de propaganda, de informação e de opiniões, de cujas fontes ideológicas não suspeitamos. Temos todas as informações fragmentadas, mas frequentemente carecemos da formação intelectual necessária para articulá-las aos contextos mais amplos da sociedade e da história. Por isso, nossos pareceres costumam ser precipitados e emitidos ao calor da hora, ao sabor das emoções miméticas e das reações em cadeia. No âmbito do imediatismo digital, não há tempo para um juízo ponderado e refletido, pois se deve posicionar “a favor” (“like”) ou “contra” (“dislike”) cada fato presente, o que significa aderir aos que já se posicionaram desta ou daquela forma antes.

As redes sociais dinamizam, em potência virtualmente infinita, a tendência mimética que René Girard tomou como intuição fundamental de sua teoria antropológica, psicológica, sociológica e literária, uma dos mais importantes concepções transdisciplinares das atuais ciências humanas. Com efeito, um dos alunos de Girard na Universidade de Stanford, Peter Thiels, foi o primeiro investidor externo do Facebook, em 2005, com “apenas” U$500.000, montante que o tornou bilionário em 2012. Considerado um “executivo-filósofo” e um dos principais nomes em mídia digital do mundo, fundador do PayPal e ainda dirigente do Facebook, Thiels afirma que o conceito de rede social é explicado pela teoria mimética, que relaciona o desejo humano, seja ele qual for, com o mediador mimético que o deflagra. Desejar um objeto é, de algum modo, querer ser aquele que o almeja ou possui. Essa mediação pode ser externa, quando o mediador está num nível espiritual ou social distinto e é emulado sem rivalidade, ou interna, quando o mediador se torna um obstáculo para o objeto desejado, convertendo-se num concorrente. As patologias do desejo ocasionadas por esse fenômeno são facilmente percebidas e sentidas: inveja, ciúme, ressentimento, voyeurismo, narcisismo, carência de reconhecimento e anorexia, para referir aos vícios miméticos mais evidentes entre os estudados por Laise Araújo, na sua Tese de Doutorado em História Social da Cultura, na PUC-RJ, intitulada “Desejo, violência e cristianismo – gênese de uma história apocalíptica em René Girard”.

O horizonte de atuação do modelo mediador na sociabilidade virtual revela-se na função mais inventiva e rentável do Facebook, o botão “curtir”, que multiplica e retroalimenta, indefinidamente, as suas atividades, enredando os usuários numa teia de comunicação autorreferente, algo próximo do que Platão expressou com a famosa alegoria de Caverna. Explorando a morfologia da palavra inglesa “like”, percebe-se que ela significa, como verbo, “gostar” e, como preposição, “parecido”. Desdobrando a semântica deste termo a partir da teoria mimética de Girard, pode-se dizer que gostamos de um objeto por ou para sermos parecidos com o modelo que nos motivou a desejá-lo. Platão “gosta” de Filosofia para ser “como” seu modelo Sócrates. Ou seja, nunca se “gosta” diretamente de um objeto, gosta-se dele “como” o modelo o aprecia, gosta-se de algo, gostando de quem o tornou desejável. Essa ambigüidade constitutiva do desejo mimético exprime-se na frase: “I always ‘like’ something ‘like’ somebody else does.” Assim, curte-se o objeto curtindo quem o tornou atraente e interessante.

O Facebook, porém, é fruto de uma sociedade democrática, acentuadamente horizontal, em que as hierarquias tradicionais da família, política, religião e ciência são neutralizadas. Nesse tipo de sociedade, que se erige, fundamentalmente, sobre direitos subjetivos e economia de mercado, todos podem opinar sobre tudo numa feira babélica, dispersiva e centrífuga. Por isso as mídias digitais se tornam cada vez mais o centro do mimetismo social, assim como da canalização da violência epidêmica que a mediação interna do desejo suscita. A cultura do espetáculo midiático, a política do polemismo opiniático, a arte do gosto subjetivo, o amor do prazer efêmero e a religião da tranqüilidade psicológica, tudo isso se reflete de modo didático na “curtição” endêmica do Facebook. Marcado pela ambivalência de toda tecnologia, essa rede social poderosa reúne e congrega as pessoas, ao mesmo tempo em que as hostiliza e opõe entre si. A personalidade virtual depende da identificação com um grupo, que se estabelece pela condenação comum de um bode expiatório, o qual os membros desse grupo estão dispostos a linchar, a partir da primeira pedra lançada. A leitura da obra-prima de Girard, “Mentira romântica e verdade romanesca” (ed. É Realizações), torna-se imprescindível em nosso tempo em que a imitação parece liberdade.

Fonte: O Liberal, em 11/12/2016.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 12 12America/Belem dezembro 12America/Belem 2016 por em Atualidade, Brasil, Democracia, Entretenimento, Filosofia, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , , , .
%d blogueiros gostam disto: