Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

História e tradição do conservadorismo brasileiro

bruno-garshagen“Quantas vezes você já leu ou ouviu o termo “conservador” ser usado como ofensa?”

Por Bruno Garschagen.

Quantas vezes você já leu ou ouviu o termo “conservador” ser usado como ofensa? “Conservador” foi convertido em insulto coringa para ser utilizado ao gosto do freguês e em qualquer circunstância. A razão disso é que o conservadorismo tornou-se uma concepção política negligenciada na cultura brasileira do século 20 e, depois, ridicularizada neste início de século 21. A ignorância, portanto, pauta quem pretende insultar, encontra eco no insultado e reverbera na sociedade que lhes serve de plateia.

Mas antes de apresentar uma definição do conservadorismo, algo que os conservadores tentam evitar para não convertê-lo em uma ideologia, será útil mostrar que tivemos no Brasil uma rica tradição conservadora que ajudou a construir o país e a definir os rumos da nação dois séculos atrás.

Poderosa força intelectual e política durante a segunda metade do século 19, o conservadorismo dividia com o liberalismo o protagonismo no panorama político da nossa monarquia parlamentar constitucional. Tínhamos um imperador, um Gabinete de Ministros (Poder Executivo), um Parlamento (Câmara de Deputados e um Senado, que eram o Poder Legislativo), uma Constituição (de 1824) e eleições (mesmo que precárias).

Os conservadores na época eram conhecidos como “Saquaremas”, uma referência ao município fluminense onde alguns conservadores reuniam-se regularmente. Eles eram influenciados pelos distintos conservadorismos de países como Portugal, Inglaterra, França e Espanha, mas criaram um conservadorismo genuinamente brasileiro. Isso mostra que inexiste um conservadorismo universal. Cada conservadorismo está profundamente vinculado ao seu país de origem, embora possa ter valores, princípios e práticas comuns que são devidamente adaptados às culturas locais.

O nosso Partido Conservador aglutinava diferentes tendências conservadoras, mas seus membros comungavam uma visão de país e de política profundamente influenciada pela herança portuguesa e pelo catolicismo. Em seu livro Os Construtores do Império – Ideais e lutas do Partido Conservador Brasileiro, o historiador João Camilo de Oliveira Torres mostrou que os Saquaremas representaram com grandeza a ideia conservadora no Brasil. “O Partido Conservador (…) soube, com dignidade e seriedade, defender os ideais do conservadorismo na melhor acepção do vocábulo”.

Quando os nossos conservadores importavam ideias e práticas estrangeiras, o faziam adaptando-as ao legado português e católico, e à realidade do país. Evitavam, assim, o equívoco comum de tentar enquadrar a nossa realidade a um corpo de ideias abstratas e alienígenas.

Sob gabinetes conservadores, inclusive, foram operadas grandes mudanças sociais no Brasil, como a abolição da escravatura. Apesar de não ser reacionário, o Partido Conservador, segundo João Camilo, tinha “alas realmente hostis a qualquer forma de progresso, ou então a transformações específicas, como por exemplo a Abolição, combatida, também, por alas declaradamente escravagistas de outros partidos, como o Liberal, isto sem falar na famosa discrição dos republicanos a respeito de um assunto cheio de ressonâncias desagradáveis”. Havia, portanto, abolicionistas e escravocratas nos partidos Conservador, Liberal e Republicano.

José da Silva Lisboa (Visconde de Cairu), Bernardo Pereira de Vasconcelos, Honório Hermeto Carneiro Leão (Marquês do Paraná), Paulino José Soares de Sousa (Visconde do Uruguai), Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias), José Maria da Silva Paranhos (Visconde do Rio Branco), José Bonifácio de Andrada e Silva, José Joaquim Rodrigues Torres (Visconde de Itaboraí), José Antônio Pimenta Bueno (Marquês de São Vicente), João Correia Alfredo de Oliveira (“o conservador que fez a abolição”) e José Joaquim Carneiro de Campos (Marquês de Caravelas) foram alguns dos grandes nomes do conservadorismo político do século 19. Esses homens foram “estadistas autênticos” e “verdadeiros pensadores políticos”, para usar as palavras de João Camilo, cujo livro Os Construtores do Império, publicado em 1968, ganhará nova edição a ser lançada ainda este ano.

Mas o que era, afinal, o conservadorismo brasileiro do século 19? Quais eram as ideias que fundamentavam o Partido Conservador? Tratarei disso na próxima semana.

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Publicado às 25 25America/Belem outubro 25America/Belem 2016 por em Brasil, Bruno Garschagen, Conservadorismo, Estado, Política, Tradição e marcado , , , .
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