Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Medievalidade

carlos“A diferença crucial entre a visão de mundo medieval, anterior a Lutero, e as que ele e Calvino implantaram é que nestas o Estado coloca-se na prática acima da Igreja. A religião passa a estar diretamente subordinada ao governante”.

Por Carlos Ramalhete.

(…)

A primeira coisa a perceber é que a nossa sociedade é uma forma tremendamente decadente e dissolvida da mesma sociedade medieval. No caso do Brasil, a decadência é menor que no caso europeu, e, mais ainda, no pouquíssimo que resta desta civilização nos EUA, que já começaram como anti-medievais; os EUA são a encarnação das forças que demoliram o Medievo. Mas o Medievo, aqui no Brasil, está escondido sob uma fina casca “para inglês ver”, e para nós é menos difícil encontrá-lo. Apelar para “conservadorismos” anglo-saxões, contudo, é ocultar mais ainda essas sobrevivências.

Para chegarmos a uma compreensão do que é efetivamente medieval — logo civilizado — na nossa sociedade e, mais ainda, o que o não é, precisamos ir tirando as camadas de podridão e sujeira que ocultam este cerne civilizacional ainda presente. Não é fácil, mesmo porque hoje em dia vende-se a podridão e a sujeira como se o cerne fossem elas. (…)

Vamos, então, tentar vislumbrar um pouco do que há por baixo de toda essa confusão e imundície de séculos. Os primeiros fenômenos históricos que vou apresentar de maneira absurdamente resumida aqui são os que conduziram a sociedade ocidental para fora do Medievo: o dito “Renascimento” e a dita “Reforma” protestante, seguida pela dita “Contra-Reforma” católica. Vale notar que nós, latino-americanos, bem como os filipinos, somos filhos da Península Ibérica, um território em que a “Reforma” (ao contrário da “Contra-Reforma”) não se criou, o que nos poupou de muitos de seus efeitos deletérios e fez com que hoje possamos dizer que estamos objetivamente melhor, em termos civilizacionais. Não, oitocentas opções de cereal açucarado para o café-da-manhã e iPhones novos a cada temporada não são sinônimo de progresso. Muito pelo contrário, aliás.

A sociedade cristã do Medievo foi construída pela cristianização dos restos mortais do Império Romano, inclusive dos seus territórios periféricos (O semicírculo que hoje é ocupado por Inglaterra, Bélgica, Holanda, Alemanha, Áustria, R. Tcheca, Eslováquia, Hungria e Romênia) e ultraperiféricos (Irlanda, Escócia, Escandinávia e Polônia). Esta cristianização ocorreu na forma fundamental de prática cristã; pode-se mesmo lembrar que os territórios periféricos da atual Alemanha foram primeiro evangelizados por hereges arianos (que diziam que o Cristo seria uma criatura) e só aos poucos vieram plenamente à ortodoxia. A religião cristã substituiu as religiões animistas tradicionais (em muitos aspectos semelhantes ao candomblé ou ao xintoísmo), no mais das vezes reaproveitando o que havia de bom ou mesmo de simplesmente decente nelas. Por exemplo: as árvores cultuadas como deuses, às quais se ofereciam sacrifícios humanos, foram derrubadas; as festas com que comemoravam as estações em torno delas, todavia, foram cristianizadas. A Fé cristã era, corretamente, Fé na Igreja, assim como a confiança de uma criança em sua mãe é confiança no que virá da boca da mãe, não comprovação pela criança de que o que a mãe já disse estava correto.

A cristianização avançou, evidentemente, das cidades para o campo: o termo “pagão” vem do latim “paganus”, que significa simplesmente “camponês”, “habitante dos pagos”. Ela foi feita, contudo, e bem feita, criando-se, assim, uma sociedade cristã — ou, antes, centenas de sociedades, com costumes distintos e línguas distintas; à distância de um dia de caminhada a pé já era comum chegar-se a uma região em que se falasse outra língua, governada por outro governante! O que a todos unia era justamente a prática e a crença religiosa católicas. As festas religiosas marcavam para todos do mesmo modo a passagem do tempo, sacralizando cristãmente o que antes fora marcado no paganismo; mesmo as igrejas, comumente, erigiam-se nos lugares em que haviam estado os locais de culto pagãos.

A sociedade eram, em grandes linhas, dividida em três grandes “estados” (no sentido aproximado em que hoje se tem o “estado civil”: quem se é, não uma unidade geográfica). A imensa maioria era de camponeses, encarregados do cultivo da terra e ligados a ela. Ninguém podia expulsá-los da terra em que viviam. Outro estado era o das armas, ou nobreza, encarregado da defesa da sociedade. Seria o equivalente hoje ao Exército e à Polícia. Ao contrário do que reza a lenda, eles não “exploravam” os camponeses, ao menos não mais que eram “explorados” por estes: cada um tinha, de parte a parte, deveres e direitos para com o outro, contraídos solenemente por juramento. O juramento era a base da coesão social, o que explica o horror que causou a heresia cátara, por exemplo, que negava que juramentos obrigassem em consciência. Finalmente, tanto o filho do camponês quanto o filho do nobre poderiam tornar-se membros do terceiro estado, o de clérigo (monge, padre ou freira). Os clérigos eram os responsáveis pelo ensino fundamental (normalmente feito nas escolas paroquiais) e superior, pelo cuidado dos doentes e, principalmente, pelo culto perfeito e permanente a Deus, objetivo final de toda a sociedade.

Note-se que as funções que hoje são atribuídas ao “Estado” (único) eram divididas entre clero e nobreza. Mais ainda, note-se que se trata de estados de vida, não de organizações. O nobre local era praticamente independente, ligando-se aos demais por um complexo sistema de alianças e juramentos de suserania e vassalagem, sem uma hierarquia clara. Do mesmo modo, as distâncias faziam com que a Santa Sé raramente tivesse como pronunciar-se acerca de questões como nomeação de Bispos ou superiores conventuais. Presumia-se que a escolha feita localmente seria aceita pelo papa, e se não fosse o caso sempre se poderia voltar atrás. A autoridade papal, contudo, era infinitamente menor que é hoje no governo direto da Igreja.

A Fé cristã era percebida como sinônimo da vida cristã, ou melhor, da vida vivida cristãmente no afã de alcançar a salvação. O desempenho das funções sociais de cada um era simplesmente a forma pela qual essa pessoa chegaria ao Céu, o lugar onde ela ao longo da vida era chamada a aceitar a graça de Deus e assim salvar-se. No meio dos clérigos, os padres seculares (das paróquias) eram normalmente camponeses ordenados, muitíssimas vezes sem estudo algum além do fundamental. Isto ocorria porque a Fé era fundamentalmente percebida como algo que se vive, não algo que se estude. Estudava-se-a, claro, e muito; até hoje ninguém conseguiu ir além do que foi estudado nas universidade medievais que nos deram tantos grandes doutores. Mas o estudo era uma coisa, e a vivência da Fé outra, muito mais importante. O estudo era importante fundamentalmente para evitar confusões, com as definições doutrinárias normalmente vindo em resposta a erros novos, e fazia parte da vocação clerical. Era na vida religiosa — da Missa às procissões, passando pelas devoções particulares e festas religiosas em geral, sempre com o fito de reformar-se, de santificar-se na Igreja –, não na biblioteca, que se esperaria encontrar a Deus.

Quando essa sociedade entrou em decadência, começaram a surgir “opções” que antes não havia. Entre os clérigos, tornou-se vergonhosamente comum que cargos eclesiásticos, de dioceses ao curato de capelas, fossem negociados e muitas vezes dados até mesmo a crianças. Bispos, cardeais e abades (ou abadessas) de dez anos de idade, frequentemente acumulando vários cargos, percebidos apenas como fonte de renda, eram algo comum. Entre os descendentes de camponeses, riquezas advindas do comércio frequentemente levaram a um novo modo de vida, centrado no lucro: era a nova classe — oficialmente inexistente — dos “burgueses”, habitantes das cidadezinhas (“burgos”) que se desenvolveram como centros comerciais ao redor dos castelos mais bem situados em termos de rotas comerciais. É importante observar que esta nova classe não tinha qualquer reconhecimento; ela era algo que existia na prática, apenas. A terra continuava sem poder ser comprada ou vendida — na verdade, sem “proprietário”, no sentido atual –, e mesmo uma riqueza extrema não faria com que alguém deixasse de ser percebido como socialmente igual a quem vivesse de uma hortinha de subsistência. Finalmente, no meio da classe guerreira, o mesmo fenômeno de decadência e queda nas tentações da riqueza levou a focar o interesse predominantemente na conquista interna de terras, ou seja, na apropriação de terras já cristãs, pertencentes a outros senhores, para lucrar com os impostos, em detrimento da expansão das fronteiras da Cristandade. Mais tarde, às vésperas da revolta protestante, chegou-se a cercar terras, como se elas fossem propriedade particular da família guerreira que as devia proteger, impedindo que os camponeses nelas plantassem. Seria como se os soldados da PM começassem a construir-se casas nas praças e no meio das ruas! A exceção, neste caso, foi a Ibéria, que livrou-se dos muçulmanos em 1492 e imediatamente depois passou a expandir-se para as Américas. Esta expansão, todavia, foi um pouco prejudicada e modificada, como veremos mais adiante, pelas circunstâncias do Século XVI, de que ora estamos tratando.

É neste contexto decadente que surgiu o dito Renascimento: a redescoberta intelectual do grego clássico e do hebraico, ocorrida no Século XV. Ela foi feita basicamente por clérigos, ainda que aos poucos a nova classe burguesa tenha se interessado e se unido a seu modo, financiando artistas e estudiosos. Ao contrário do que prega a lenda negra, não se tratava de uma revolta contra a Igreja ou contra o Cristianismo. Pelo contrário: o que se fazia era a continuação da obra de cristianização do melhor da sabedoria pagã que séculos antes levara ao “batismo” da filosofia aristotélica por S. Tomás. A invenção da imprensa, que fez com que os livros baixassem tremendamente de custo, também foi um fator importantíssimo na difusão dos novos estudos. (…) Com o surgimento da imprensa, os livros passaram a poder ser feitos de uma maneira que para nós ainda é tremendamente artesanal, montando-se “carimbos” de página inteira com letrinhas de chumbo encaixadas em placas de madeira e carimbando folha por folha. O que custava uma fortuna incomensurável passou a custar apenas um bom dinheiro. Pela primeira vez passou a ser possível a particulares ricos ter livros, e a instituições ter bibliotecas com centenas, ou mesmo milhares, de livros.

Um aspecto interessante, de que pouco se fala, dessa revolução operada pelo surgimento da imprensa (em muito semelhante à operada pela digitalização dos textos no início do nosso século) é que ela tornou possível a uma pessoa dedicada conquistar uma quantidade de conhecimento com que antes não se poderia sonhar. Um intelectual do Renascimento poderia saber muito mais coisas que qualquer seu antecessor, devido à possibilidade de ter ao seu alcance uma quantidade de livros antes impensável. A biblioteca de uma universidade passou a ter livros suficientes para anos de leitura, coisa que antes nunca se veria em um lugar só. O humanismo — nome que se dá ao movimento intelectual do Renascimento, paralelo ao movimento artístico que nos deu a Mona Lisa e a Pietá — era, em grande medida, o fruto dessa nova possibilidade. Os textos gregos e hebraicos da Escritura, bem como comentários judaicos e obras sapienciais pagãs, passaram a estar ao alcance dos estudiosos com relativa facilidade. Muitas edições impressas multilíngues, como o Novo Testamento de Erasmo e a magnífica Bíblia Complutense, facilitavam este estudo. Foi um momento que poderia ter tido consequências maravilhosas para toda a Cristandade, se não houvesse sido tão brutalmente interrompido pelas circunstâncias históricas.

A Fé cristã continuava sendo, como sempre foi, uma Fé a se viver, não uma gnose, um conhecimento esotérico a se obter. Ao mesmo tempo, contudo, o conhecimento dos objetos da Fé aprofundava-se pelo estudo e — principalmente — pela sua rápida difusão impressa, de uma maneira que só poderia ocorrer quando a própria Fé era pressuposta e aceita por toda a sociedade. Até mesmo o diálogo entre a Igreja Católica e os cismáticos orientais havia sido retomado, e um acordo final não foi alcançado por muito pouco no Concílio de Florença (1431–1449). Do mesmo modo, o diálogo inter-religioso com os judeus estava avançando a passos largos, com apoio papal à impressão e preservação de textos judaicos. Até hoje o padrão de paginação do Talmude da Babilônia é o que foi criado no início do Século XVI pelo impressor cristão Bomberg, por encomenda e com apoio formal do Papa Leão X.

Tudo isso foi cortado, todavia, pelas rápidas e sucessivas revoltas político-religiosas a que se convencionou chamar “Reforma protestante”.

Elas surgiram quase que por acaso. Uma campanha em prol da construção da Basílica de São Pedro, em Roma, dava indulgências a quem colaborasse financeiramente com a obra. Na Espanha do Cardeal Ximenes essa campanha fora proibida, assim como na cidade alemã de Wittenberg. Mesmo assim, os nativos desta cidade iam às cidades ao redor para colaborar com a campanha e lucrar indulgências, motivados por uma pregação completamente louca feita pelo pregoeiro autorizado, que não era em absoluto pessoa culta e falava o que quer que lhe parecesse bom para arrecadar mais. O resultado é que muitos deles foram ter com o padre Martinho Lutero, um frade agostiniano que era professor de teologia e de artes na Universidade de Wittenberg, contando-lhe o que haviam ouvido, e ele desafiou o pregador para um debate. Neste e nos subsequentes, Pe. Lutero apelou para um truque que lhe facilitaria tremendamente debater com um leigo ignorante: ele só aceitaria argumentos tirados das Escrituras Sagradas.

Quanto mais debatia, mais ele se enrolava nas próprias palavras, e mais fortemente se colocava contra a própria Igreja. Em um certo ponto, apenas para não perder os debates, passou a pregar abertamente uma nova heresia (tornada possível pela imprensa), baseada no seu truque sujo anterior: só a Escritura seria revelação divina. Era a invenção da doutrina chamada “Sola Scriptura” (“só a Escritura”, em latim). Como a Escritura, apesar de ter tido o seu cânon (lista dos livros) determinado às portas do Século V, não contém nenhum texto posterior ao final do Século I, tornava-se fácil negar a autoridade religiosa, a liturgia (que ele aliás nem se interessava tanto em destruir) e o que mais se quisesse. Na verdade, seria impossível a duas pessoas, quaisquer que fossem, chegar a conclusões iguais lendo as Escrituras em separado, pois elas simplesmente não foram feitas para isso.

Imediatamente a sua heresia inicial se espalhou, fazendo surgir centenas de movimentos religiosos cuja única crença comum era que só a Escritura é revelação divina. Destes movimentos, dois conseguiram patrocínio político-financeiro: o do próprio Lutero, que dominou o norte da Alemanha e a Escandinávia, e o encabeçado pelo advogado João Calvino, que dominou a Suíça. Os demais foram massacrados pelas autoridades políticas, a mando dos próprios Lutero e Calvino em muitos dos casos.

A diferença crucial entre a visão de mundo medieval, anterior a Lutero, e as que ele e Calvino implantaram é que nestas o Estado coloca-se na prática acima da Igreja. A religião passa a estar diretamente subordinada ao governante. Os príncipes luteranos simplesmente apropriaram-se de todos os bens da Igreja em seus territórios, assim como os burgueses calvinistas. O Rei da Inglaterra, Henrique VIII, que brigou com o Papa por outras razões, gostou da ideia e criou também uma “igreja” subordinada apenas a ele, a “igreja anglicana”, e roubou todos os bens de todas as dioceses, abadias, conventos, etc. da Inglaterra.

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2 comentários em “Medievalidade

  1. Thalisson Cunha Mendes
    19 19America/Belem outubro 19America/Belem 2016

    Bom artigo. Parabéns.

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  2. Leonardo Melanino
    31 31America/Belem outubro 31America/Belem 2016

    Existiam dois extremos da Medievalidade, a “Hipomedievalidade” (Baixa Medievalidade) e a “Hipermedievalidade” (Alta Medievalidade). Seus adjetivos são “hipomedieval” e “hipermedieval”.

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Publicado às 19 19America/Belem outubro 19America/Belem 2016 por em Carlos Ramalhete, Estado, História, Religião e marcado , , , , , , , , , , .
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