Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A virtude da ordem

ordemPor Victor Sales Pinheiro.

A virtude da ordem é uma das mais importantes virtudes para a realização do homem, para o desenvolvimento satisfatório de suas aptidões naturais, para sua integração na sociedade e no ambiente de trabalho, para o cumprimento dos seus deveres domésticos, escolares, acadêmicos e profissionais. É essa virtude que lhe permite conhecer-se e superar-se. Mas em que consiste essa virtude capital? Como conquistá-la? O pequeno grande livro de Francisco José de Almeida, “A virtude da ordem” (Ed. Quadrante), sintetiza, com base nos ensinamentos de Josemaria Escrivá, os elementos básicos dessa qualidade imprescindível do caráter humano, cuja conquista merece nossos mais recompensadores esforços.

O homem ordenado é senhor de si, investe no autoconhecimento, no planejamento de sua vida, de seu tempo, de suas atividades, organizando-as segundo critérios sólidos de hierarquia e prioridade. Reconhece a sua vocação, os seus talentos e se aplica a desenvolvê-los ao máximo, renunciando com humildade o que esteja fora do seu alcance, mas sem se privar da magnanimidade de perseguir, de forma realista, grandes ideais. Acima de tudo, preza pela harmonia, pela integração das suas atividades, dispondo-as de modo satisfatório e suficiente, conforme o tempo e a energia que demandam.

Em linhas gerais, delineiam-se cinco campos de atividades a serem ordenadas na vida de cada homem , que correspondem a uma constelação de virtudes relacionadas: a religião (virtude da piedade), a família (virtude do amor e da amizade), o trabalho (virtude da laboriosidade), a sociedade (virtude da solidariedade, colaboração, convivência e amizade) e o descanso, esporte e cultura (virtude da convivência, alegria e inteligência).

Ordenar a vida é priorizar e subordinar essas atividades de modo a entregar-se plenamente a cada uma delas, no seu momento respectivo. Um homem feliz é um homem completo, realizado em todos os aspectos que constituem a natureza humana, o físico, o psíquico e o espiritual. Por isso, o homem que busca a plenitude não negligencia as demandas do seu corpo, como as do sono, alimentação e exercício físico, as solicitações da sua alma, emoções e afetos, e do seu espírito, a atração por Deus, pelo absoluto e pelo sagrado que lhe fornece um sentido global e estável da existência.

O homem ordenado cultiva a sua sociabilidade sem descurar da sua interioridade. Rejeitando o egoísmo, não se fecha em si mesmo, pois sabe que depende da comunidade, da família, dos colegas de trabalho, dos amigos de esporte e cultura. Mas sabe também que precisa de momentos de silêncio, de introspecção e reflexão, para não se massificar na multidão e para entender a sua subjetividade.

A virtude da ordem impede as monomanias e os exclusivismos, como a compulsão ao trabalho ou ao prazer. Da mesma forma, a ordem faz com que o homem esteja inteiro em cada coisa, consciente do dever presente, evitando a evasão temporal da ansiedade, a antecipação exagerada do futuro, e da nostalgia, aprisionamento ao passado. Para tanto, é imprescindível o planejamento sensato do tempo, auxiliado por uma agenda e lista de compromissos. O importante é amadurecer com as experiências e reprogramar sempre que necessário, otimizando e aperfeiçoando cada tarefa, com base no espírito de compromisso e eficiência.

Organizar o tempo nunca é perda de tempo, analisando quais são os projetos a longo prazo e os deveres imediatos para realizá-los, a sequência de atos necessários, a conclusão com excelência de cada compromisso. Podem-se traçar metas diárias, semanais, mensais ou anuais, verificando-se o cumprimento e redimensionando o tempo previsto. A pontualidade demonstra a disciplina do homem ordenado, inclusive a precaução contra imprevistos, ao passo que a concentração o livra de distrações voluntárias, como as da internet e as da imaginação dispersiva.

Da mesma forma, a ordem exterior dos objetos reflete a ordem interior do pensamento. O homem ordenado mantém seus objetos pessoais, domésticos e laborais bem organizados, para não perder tempo os procurando. A ordem do espaço é tão importante quanto ao ordem do tempo.

Sem ordem, o homem se dispersa e se perde numa miríade de distrações inúteis que o impedem de realizar os seus objetivos. A pessoa desordenada tende a ser confusa, volúvel, caprichosa e imprevisível, atrapalhando os que dela dependem e boicotando-se a si mesma, não cumprindo seus prazos, desonrando a sua palavra. Em outros termos, não faz o que quer, tem uma vontade fraca e inconstante, não obedecendo a princípios sólidos formadores de seu caráter.

Por outro lado, sem ordem, a sociedade é injusta e afoga-se no caos da rivalidade dos que querem ocupar o lugar dos outros, dos que desviam a finalidade de suas funções, tergiversam para se beneficiar do que não merecem. Isso é a causa das desavenças e intrigas em geral e do desrespeito das leis morais e jurídicas que regem a vida em sociedade.

Fonte: O Liberal, em 25/09/2016.

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3 comentários em “A virtude da ordem

  1. Leonardo Melanino
    10 10America/Belem outubro 10America/Belem 2016

    Uma ordem excessiva, como qualquer outra virtude excessiva, é uma tirania, assim como um amor excessivo é uma idolatria.

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    • victorpicanco
      20 20America/Belem março 20America/Belem 2017

      Seu pensamento está completamente equivocado. Não existe “ordem excessiva”. Uma “ordem não-excessiva” seria admitir a existência de certa desordem. Mas a desordem significa que algo está fora do devido lugar, significa que existe um defeito, um vício, princípio de desagregação social. Da mesma forma, não existe “amor excessivo”. Entenda: “Amor excessivo” não é amor. Trata-se, pois uma desordem, uma má hierarquização do que deve ser amado, sendo, portanto… um vício! Vício que não existiria se a pessoa soubesse ordenar as coisas.

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      • Leonardo Melanino
        29 29America/Belem maio 29America/Belem 2017

        Senhor PICANÇO, tudo que nos é carencial ou excessivo nos faz mal, pois os extremos são desequilíbrios. Até mesmo as boas obras tem limites, pois seus extremos nos são maléficos. Exemplos de extremismos/extremos: absolutismos/relativismos, anarquias/totalitarismos, bradicardias/taquicardias, eticismos, legalismos ou moralismos/antieticismos, ilegalismos ou imoralismos, feminismos/machismos, globalismos/ultranacionalismos, hipercloremias/hipocloremias, hipercolesterolemias/hipocolesterolemias, hiperglicemias/hipoglicemias, hipermagnesemias/hipomagnesemias, hipernatremias/hiponatremias, hiperpieses ou hipertensões/hipopieses ou hipotensões, hipertrigliceridemias/hipotrigliceridemias, hipervitaminoses/hipovitaminoses, licenciosidades/ultrapuritanismos, sacrilégios/santarronices ou santimônias, ultraconservadorismos/ultraliberalismos e assim sucessivamente. Agradeço-lhe de todo o meu coração! Obrigado!

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Informação

Publicado às 26 26America/Belem setembro 26America/Belem 2016 por em Humanidade, Indivíduo, Victor Sales Pinheiro e marcado , , .
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