Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A ditadura da infância mais que perfeita

helena matos“Esta ditadura da infância perfeita é das coisas mais assustadoras que me foi dado ver e tudo indica que veio para ficar tanto mais que proliferam os filhos únicos. (E só Deus sabe os trabalhos e complicações que uma mulher em dedicação exclusiva a um ser humano é capaz de inventar!)”.

Por Helena Matos.

(…)

Ter um filho tornou-se uma tarefa imensa. Um saber-ciência algures entre a exactidão das matemáticas e a imprevisibilidade do mundo do oculto em que cada sinal de febre, birra, más notas ou grama a mais é um sinal inequívoco do falhanço dos pais em geral e das mães em particular. Tudo o que as crianças fazem e não fazem, tudo o que não lhes aconteceu e devia ter acontecido (ou vice-versa) é visto, analisado e ponderado como o resultado daquilo que os pais disseram, deram e fizeram. A gravidez tem de ser perfeita, o parto um momento sublime, a amamentação um equivalente da demanda do Santo Graal que nunca se sabe como deve terminar, a introdução dos alimentos uma viagem ao mundo dos produtos sem isto e sem aquilo. Caso isto não se cumpra no seu todo ou em parte lá vêm a perturbação, a disfunção e outras coisas tenebrosas já conhecidas e por conhecer.

Angustia-me pensar o que vai ser destes pobres pais e dos seus filhos no dia em que estes últimos tenham finalmente de sair da escola A onde as crianças só comem legumes biológicos; ou da escola B onde aprendem por um método natural (nas outras, as não naturais enfiam-lhes um capacete e ligam-lhes eléctrodos à cabeça!) e do sítio C onde como actividade extra-curricular se ensina filosofia a crianças que ainda não têm a dentição de leite completa.

Esta ditadura da infância perfeita é das coisas mais assustadoras que me foi dado ver e tudo indica que veio para ficar tanto mais que proliferam os filhos únicos. (E só Deus sabe os trabalhos e complicações que uma mulher em dedicação exclusiva a um ser humano é capaz de inventar!) Para cúmulo os nados e criados nesse espaço-tempo da infância perfeita tendem não só a manter-se como eternas crianças – já viram aqueles matulões compêlos a despontar nas pernas e umas mães ansiosas a puxarem-lhe a mala de rodinhas? – como a acreditar com convicção que todos os outros devem condicionar as suas vidas e atitudes para que eles não se traumatizem.

No Observador até vinha esta semana uma lista daquilo que os pais não devem fazer para não envergonhar os filhos. Supõe uma pessoa que seriam referidos actos como roubar, burlar ou não cuidar da família. Nada disso. No limite creio que até matar não constrangeria muito os inquiridos desde que os progenitores não disparassem sobre leões. (Já agora, o leão Cecil era lindíssimo e não percebo o prazer de disparar sobre leões. Mas ao contrário dos habitantes humanos do Zimbabwe, o leão Cecil teve comparativamente uma vida longa que, acrescente-se, na Natureza terminaria de uma forma não menos cruel.)

Mas voltemos aos pais que envergonham os filhos. Entre outras coisas devem os pais evitar dançar na presença dos filhos ou simplesmente cantar na cozinha. É que face a esses comportamentos os filhos que claro cantam e dançam o que lhes apetece e quando lhes apetece, ficam envergonhados. E logo traumatizados, e logo com problemas afectivos. Só não percebi se os pais podem ousar essas manifestações longe do olhar dos filhos ou se mesmo assim estes ficam consternados porque outros os podem avistar em tais atitudes.

Enfim, tal como no pretérito tempo em que as cegonhas traziam os bebés, um bocadinho de realidade faz muita falta. E já agora uma boa dose de bom senso ajudaria à demografia muito mais que as políticas ditas de natalidade.

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Publicado às 14 14America/Belem setembro 14America/Belem 2016 por em Atualidade, Civilização, Família, Helena Matos e marcado , , , .
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