Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O espírito olímpico e o legado dos gregos

rio 2016Por Victor Sales Pinheiro.

A cultura ocidental tem duas matrizes fundamentais: a greco-romana e a judaico-cristã. Se, dos romanos, herdamos a lógica do direito privado, com a conceituação de institutos jurídicos como bens, contratos e pessoas; e se, da tradição judaica e cristã, herdamos a noção de dignidade da pessoa humana, livre e responsável pelos seus atos, o cuidado com as vítimas e a ética da fraternidade universal; dos gregos, herdamos a poesia épica, lírica, trágica e cômica, a retórica, a historiografia, a democracia, a filosofia e a ciência especulativa (cf. Philippe Nemo, “O que é o Ocidente?”, ed. Martins). Sem negligenciar a contribuição de outras civilizações, com que interagimos ao longo da história, aprendendo e ensinando, dominando e padecendo, a nossa sociedade atual seria simplesmente impensável sem essas contribuições da cultura grega, e o espírito olímpico a reflete de modo emblemático. Na sua versão moderna, as Olimpíadas revelam a nossa origem grega, por superarmos, momentaneamente, as discórdias políticas pela união esportiva, que valoriza os campeões, os quais estabelecem admiráveis padrões de excelência a serem conservados e emulados por todos.

Um dos textos essenciais da identidade helênica é “Os trabalhos e os dias”, de Hesíodo, que viveu no século VII a.C. e é, ao lado de Homero, o mais importante poeta épico grego. Nessa obra clássica e incrivelmente atual, reconhecem-se duas espécies de lutas: uma má, outra boa. A primeira espécie de luta é fautora de discórdia e guerra, baseada na rivalidade e na inveja, visando à destruição do inimigo irreconciliável, de quem nada se aprende. A segunda espécie, porém, é benfazeja, estimula a competição saudável, a emulação e o aumento do nível de excelência geral pela tentativa constante de superação, expandindo a capacidade humana no interior de uma prática específica.

Essa competição, mimética e positiva, permeia todas as instâncias da vida grega do período clássico, nas assembléias e fóruns da democracia, com o contraditório e a persuasão retórica de teses contrapostas, no concurso de tragédias e comédias e, por fim, na argumentação filosófica em forma de diálogo. A própria investigação científica é uma peleja da verdade contra as opiniões que a distorcem e falseiam. Assim, a filosofia nasce do embate intelectual e da refutação, como bem percebeu, em “A disputa em Homero” (“Cinco prefácios para cinco livros não escritos”, ed. 7 Letras), aquele que renovou o espírito agônico e polemista de Platão, Nietzsche.

Essa índole rivalitária é o fundamento do esporte olímpico. A partir de 776 a.C., os combates entre as cidades-estado eram suspensos por uma trégua, a cada quatro anos, durante os jogos. Se o conflito militar destrói e afasta as comunidades, o esporte as edifica e reúne em um espírito comemorativo, integrando os homens em torno de virtudes atléticas que se aperfeiçoam reciprocamente. Nesse sentido, o esporte insere-se num ideal de excelência moral mais amplo, baseado, sobretudo, nas virtudes da temperança e fortaleza. Para vencer a disputa, o competidor deve, primeiro, vencer-se a si mesmo: controlar seus apetites, dedicar-se constantemente aos treinos, manter uma dieta equilibrada, preservar as horas de sono, manter a concentração e equilibrar suas emoções. O autocontrole depende do autoconhecimento, da superação gradativa das limitações identificadas, de uma ascese física de alcance moral. Por isso, toda a comunidade política se organiza em torno do culto à excelência do atleta e do guerreiro, que são imortalizados pelo louvor dos poetas e escultores, como atesta, por exemplo, a bela poesia de Píndaro.

Refletindo sobre a crise da nossa cultura, pela demissão de um ideal de excelência moral, Werner Jaeger, em “Paidéia – a formação do homem grego” (ed. Martins Fontes), demonstra que a educação grega clássica é uma busca constante pela virtude e excelência, superação e autossuperação, que visam à formação de um tipo elevado de homem. Esse ideal confere um dinamismo ímpar à sociedade e à cultura, e move o espírito humano adiante, ao longo das gerações sucessivas. É uma educação aristocrática, no sentido cultural, porque os melhores (“aristoi”) são conservados na memória pedagógica do povo, registrando os altos níveis alcançados pelos homens superiores.

Do mesmo modo, o esporte é sempre aristocrático, porque celebra e premia os vitoriosos. Os arquivos dos campões dos jogos atléticos, por exemplo, eram guardados em Olímpia, um santuário de Zeus. Em nosso tempo, academias universitárias, literárias e esportivas, conservatórios, museus e bibliotecas, assim como outras instituições congêneres, perpetuam essa tradição pedagógica grega de reconhecer a autoridade dos melhores, que se tornam referências canônicas, modelos a serem imitados e emulados. Aprendemos filosofia com Aristóteles, poesia com Shakespeare, música com Bach, espiritualidade com São Paulo, e assim por diante. Se reconhecemos com clareza e objetividade a excelência de Pelé no futebol, de Jordan no basquete e de Phelps na natação, como negar e relativizar a qualidade elevada dos “heróis” de outras práticas humanas?

Criticando o relativismo que neutraliza o ideal pedagógico das atividades humanas, nivelando mérito e demérito, virtude e vício, como expressões subjetivas de gosto, MacIntyre, em “Depois da virtude” (ed.USC), explica que toda prática “implica padrões de excelência e obediência a normas, bem como a aquisição de bens. Ingressar numa prática é aceitar a autoridade desses padrões e a inadequação do próprio desempenho ao ser julgado por eles. É sujeitar as próprias atitudes, opções, preferências e gostos aos padrões que atual e parcialmente definem a prática. As práticas, naturalmente têm uma história; jogos, ciências e artes, todas têm histórias. Assim, os padrões propriamente ditos não são imunes à crítica, porém, não podemos nos iniciar numa prática sem aceitar a autoridade dos melhores padrões até o momento alcançados. (…) No terreno das práticas, a autoridade dos bens e dos padrões funciona de forma a excluir todas as análises subjetivistas e emotivistas do juízo. ‘De gustibus est disputandum’.” Gosto se discute, se forma e se refina por razões intelectuais, técnicas, morais e pedagógicas, para o aumento da excelência humana, que é um bem e uma vitória de todos.

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Publicado às 29 29America/Belem agosto 29America/Belem 2016 por em Atualidade, Civilização, Cultura, História, Internacional, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , .
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