Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Ascensão e queda da sociedade burguesa

carlos“A burguesia, por sua própria natureza, é desligada do mundo real. Ela vive sob a proteção das muralhas do castelo, mas sem precisar segurar uma espada. Ela come o fruto das fazendas, mas sem precisar acordar cedo para ordenhar uma vaca, plantar ou colher. Ao contrário do que ocorre com os clérigos, todavia, ela não tem outro interesse mais alto: o que lhe interessa é ela mesma”.

Por Carlos Ramalhete.

Ninguém tem como saber o que nos aguarda no futuro. As formas de organização social que as sociedades européias e americanas tomarão nas próximas gerações são tão inimagináveis para nós como a Idade Média seria imprevisível para os romanos. Por estarmos imersos na sociedade atualmente em decadência, todavia, muitas vezes é difícil para nós perceber o que ela tem de particular, caindo no erro de achar que características extremamente peculiares desta sociedade, ou mesmo as próprias características que fizeram com que ela durasse tão pouco, sejam coisas “normais”, encontradiças em qualquer sociedade.

Que sociedade é esta que está chegando a um fim agora? É a sociedade moderna, que tem como característica principal a preponderância da idéia sobre a realidade. Na modernidade, a realidade é considerada a priori plasmável e adaptável a uma idéia de como ela deve ser. Daí vêm os pensamentos utópicos ideológicos que causaram tantas centenas de milhões de mortes no século passado, em suas tentativas frustradas de adequar a realidade a algum devaneio ideológico.

Filosoficamente, esta preponderância vem da filosofia cartesiana, que, ao duvidar de tudo menos da própria existência individual como ser pensante (um fantasma de cuja existência se tem certeza habitando uma máquina — o corpo — de existência duvidosa), colocou a idéia acima da realidade e substituiu a pergunta ontológica clássica da filosofia (“o que é isto?”) pela pergunta epistemológica moderna (“o que me é dado saber?”).

De onde vem, todavia, esta filosofia? Qual é o ambiente que a possibilitou, quais foram os mecanismos sociais que a criaram e que foram por ela amplificados, de modo a gerar toda uma nova sociedade, de tão curta duração e de tão grande efeito? Afinal, é este o maior paradoxo da modernidade: em um curtíssimo espaço de tempo, a modernidade produziu mudanças tão substanciais na maneira de viver que um cidadão moderno seria incapaz de sobreviver no ambiente de qualquer sociedade pré-moderna, por ter perdido talentos essenciais e antes universais (cozinhar, fazer fogo, abrigar-se, caçar, colher frutas, etc.). Ao mesmo tempo, a rapidez do desenvolvimento tecnológico só se equipara à intensidade do morticínio moderno (igualmente tecnologizado, com o advento das armas de destruição em massa e a industrialização do assassinato sob o nazismo e o comunismo) e à curtíssima duração desta sociedade. Algo que ganhou ascendência real no final do Século XVIII, com as Revoluções americana e francesa, atingiu seu auge pouco mais de cem anos depois, no segundo terço do Século XX, entrando depois em decadência tão acelerada que em cerca de meio século passamos pelo equivalente dos últimos quatro séculos de Roma, em termos de sinais da decadência.

Toda sociedade clássica é composta das mesmas classes de habitantes; nem todas, contudo, dão a elas a mesma ordem de importância ou reconhecimento. As três classes principais são as dos lavradores, dos guerreiros e dos clérigos, seguidas pela dos artesãos (ou comerciantes; é uma mesma classe) e pela dos trabalhadores braçais, frequentemente escravizados. Os lavradores são os que se dedicam ao cultivo da terra; nas sociedades mais pacíficas, muita vezes esta é a classe mais importante. Os guerreiros são os que se dedicam à proteção dos demais. Os clérigos são os que se dedicam ao estudo e conhecimento. Em muitas sociedades, competem aos clérigos também funções estritamente sacerdotais de intermediação e propiciação junto à divindade; em outras, estas funções são distribuídas por todas as classes.

Acima dos escravos, a classe universalmente considerada inferior às principais e muitas vezes apontada como parasita delas é a dos artesãos. Os artesãos são protegidos pelos guerreiros, alimentados pelos lavradores e beneficiados pelos estudos dos clérigos, sem nada devolver à sociedade de forma direta. Afinal, os artesãos nada criam e nada preservam: ao contrário, seu ofício é o da transformação, numa espécie de prestidigitação que parece sempre esvaziar os bolsos dos circundantes e encher os seus. O artesão pega o couro da vaca que o lavrador criou e faz dele sapatos, por exemplo, que revende ao lavrador por um preço muitas vezes superior ao de toda a peça de couro. Do mesmo modo, para o artesão faz sentido viver aos pés dos muros do castelo dos guerreiros, para por eles ser protegido em caso de necessidade.

Estas aglomerações de artesãos e comerciantes ao redor dos castelos chamavam-se, no Medievo, “burgos”; seus habitantes eram os “burgueses”. São estes, os burgueses, que tomaram o poder nas Revoluções do final do Século XVIII, e é a eles que pertence a sociedade que ora soçobra. A raridade desta vem de ela ser a primeira sociedade de tão grande monta em que uma classe normalmente percebida como inferior não apenas se tornou a classe superior, mas pôde, por isso, organizar em redor de seus próprios valores (de curto prazo, dadas as próprias condições burguesas, que fazem com que simplesmente não haja interesse pelo longo prazo, que dirá pelo Eterno) todo o edifício social. Já existiram sociedades em que artesãos e comerciantes tiveram grande importância, como as fenícias e cartaginesas, além de algumas sociedades do Extremo Oriente, mas esta posição normalmente vinha acompanhada de uma importância proporcional ou maior dada naquelas aos guerreiros e nestas aos clérigos. Já nas sociedades modernas são os burgueses sozinhos que estão à frente de tudo, o que gerou efeitos no mínimo estranhos na conformação da sociedade e de seus valores.

A burguesia, por sua própria natureza, é desligada do mundo real. Ela vive sob a proteção das muralhas do castelo, mas sem precisar segurar uma espada. Ela come o fruto das fazendas, mas sem precisar acordar cedo para ordenhar uma vaca, plantar ou colher. Ao contrário do que ocorre com os clérigos, todavia, ela não tem outro interesse mais alto: o que lhe interessa é ela mesma. Este ensimesmamento é o que possibilitou culturalmente que se desenvolvesse o solipsismo cartesiano, que na verdade pouco mais é que a afirmação peremptória e definitiva de algo tipicamente burguês. Li, outro dia, numa rede social, uma observação feita à guisa de piada que ilustra perfeitamente esta mentalidade: “o Brasil está horrível; ainda bem que moro no meu quarto”. O autor poderia igualmente dizer “que tempestade medonha lá fora; ainda bem que moro no meu quarto”. O burguês é aquele que “mora no seu quarto”, que vive isolado da sociedade e da natureza em torno, gozando todavia de seus frutos, mas sem se dar conta da fluidez extrema da situação do mundo real que ignora. Sua preocupação é consigo mesmo e com seus pares burgueses, mesmo por não conseguir perceber a necessidade de qualquer preocupação com o mundo real. O mundo burguês é composto não das estações que se sucedem — como o dos agricultores –, da geopolítica sempre fluida — como o dos guerreiros — ou da sabedoria dos antigos que deve ser apreendida e retransmitida — como o dos clérigos. Não; a preocupação do burguês é o dinheiro que ele junta, o dinheiro que seu vizinho — outro burguês — junta, a diferença entre estes valores, a roupa que cada um deles usa, as riquezas aparentes de que podem vangloriar-se.

Foi a ascensão da burguesia como fenômeno social que fez surgir os vários protestantismos. Não podemos esquecer que, em sua origem, os protestantismos eram movimentos revolucionários que viravam de ponta-cabeça a ordem estabelecida das coisas, substituindo o que até então era a base comum de toda a sociedade (a religião cristã, com seu calendário, práticas, moral e crenças) pela ditadura do subjetivismo mais irracional. Lutero, o primeiro protestante, teve como preocupação fundamental a destruição da classe dos clérigos, afirmando — sem base nenhuma que não sua vontade, claro — que os indoutos e ignorantes, ao contrário do que ensinou São Pedro papa, não distorceriam as Escrituras que lessem, mas, ao contrário, as interpretariam em interpretação particular verdadeira. Notemos como é uma jogada de mestre: ao negar liminarmente o valor dos estudos, toda a argumentação clerical foi igualmente negada liminarmente.

Havia já, e continuou havendo, a tendência da burguesia de considerar-se igual à nobreza, mormente em tempos de paz. Por isso eram impostos limites à ação burguesa, proibindo-lhes, por exemplo, a posse de terras ou o uso de roupas engalanadas (a versão burguesa das roupas dos nobres, substituindo as rendas por tecidos retos engomados, é o terno-e-gravata, até hoje a roupa burguesa por excelência). Lutero, numa jogada de mestre, em vez de atacar diretamente a classe armada, negou liminar e irracionalmente — ou mesmo antirracionalmente — o próprio valor e importância da classe intelectual clerical. Foi o golpe-de-Estado da burrice, jogando no lixo toda a sabedoria da Cristandade e substituindo-a pelas imbecilidades dos burgueses, que eram os únicos além dos clérigos a saber ler. Liam, mas não entendiam, por não terem estudado. Sua leitura servia-lhes para cuidar de livros-caixa, não os capacitando para as hermenêuticas exegéticas de que Lutero os teria encarregado.

Negando o valor do norte moral dado pelos clérigos, tornou-se possível cooptar os maus nobres contra a classe clerical, dividindo para reinar e para levar ao poder a subclasse mercantil. Por vezes, como no caso dos Cavaleiros Teutônicos, igualmente guerreiros e clérigos, a ação foi abertamente destruidora. Os monges guerreiros largaram a batina, casaram-se, e simplesmente se apoderaram das terras confiadas à proteção de sua Ordem, traindo todos os seus habitantes. Outros maus nobres simplesmente expeliram a Igreja de seus territórios, passando a dominar com mão de ferro e auxílio da burguesia os lavradores que até então a Igreja deles protegia. Em outros lugares, ainda, como na Genebra burguesa de Calvino, instalou-se diretamente uma “teocracia” burguesa.

Foi dentro da confusão e caos generalizados causados pela dissolução da Cristandade pela revolta protestante que a burguesia passou a dominar mais e mais a sociedade; as sucessivas guerras de religião, em que muitas vezes a religião era apenas a desculpa para a busca de poder pessoal por maus nobres, faziam com que o apoio pecuniário dos burgueses aos guerreiros combatentes se tornasse progressivamente mais importante. A função de defesa da classe guerreira fora substituída, graças às maquinações de Lutero, pela busca de poder próprio e luxo pela classe guerreira, levando-a a decair e tornar-se, ela também, uma outra forma de burguesia, isolada da realidade e entregue a luxos e jogos de prazer e guerra.

Quando, tendo sido retirada primeiro de cena a classe que encarnava a fibra moral e ética da sociedade — a classe dos clérigos, que dava a todos o norte do reto agir — a classe dos guerreiros caiu em aberta decadência, chegou a hora de eliminar os intermediários e passar diretamente à burguesia o “poder” (uma noção que não faria muito sentido quando a sociedade era ainda saudável, por não fazer sentido algum numa sociedade saudável haver direito sem dever tanto maior e mais forte). É o que foi feito, de duas formas acidentalmente diferentes mas essencialmente iguais, nas revoluções que instalaram pela primeira vez a burguesia no poder.

A Revolução americana, fruto direto do protestantismo, fez do burguês individual a medida de todas as coisas, e colocou como objetivos individuais e sociais os objetivos individuais do burguês: o enriquecimento, a transformação (como a feita pelo artesão, mas em escala industrial) que aumenta o valor pecuniário das coisas, e, finalmente, o domínio territorial que sempre fora negado, et pour cause, à burguesia.

Já a Revolução francesa, perversão imanentista da cultura católica remanescente, fez do Estado uma falsa Igreja e colocou como objetivos sociais e individuais os objetivos sociais do burgo: a ausência de confusão, a uniformidade de língua, de hábitos, de trajes, etc., a centralização do controle e da ordem, e todos os demais elementos que em tese permitiriam a vida pacata do burguês, que nada mais busca que não o conforto, a riqueza e o reconhecimento de seus pares.

Vale perceber, destarte, que a diferença é entre priorizar os elementos individuais e os coletivos, mas o objetivo de ambas as formas básicas da modernidade é a mesmíssima mediocridade, substituindo o heroísmo guerreiro, a integração custodial com a Criação do lavrador e o amor à sabedoria do clérigo pela barriga cheia, casa limpinha e boa fama no mercado de que o burguês considera compor-se o mundo.
Todas as sociedades modernas são, em alguma medida, compostas de elementos de ambas as formas de modernidade, de ambas estas formas de percepção do que seja essencial à criação utópica do paraíso burguês na terra. Toda sociedade moderna coloca os valores da subclasse mercantil acima dos valores reais (de coragem, hombridade, sabedoria, responsabilidade pessoal, adequação à natureza criada, etc.), e toma como “progresso” o crescimento material acompanhado da mais devastadora destruição moral.

Isto, todavia, nunca teria como durar. Os efeitos, como vimos no começo do texto, foram fortíssimos em ambos os sentidos: tanto o crescimento material quanto a devastação moral causadas pela ascensão de tal subclasse foram sem precedentes na História. A classe dos guerreiros tornou-se, ela também, aburguesada e escravizada pelos seus novos mestres, abandonando completamente as funções de defesa e passando a agir como predadora. Para perceber claramente este aspecto da destruição social causada pela entrega a mercadores das coleiras dos cães de guerra, basta ver o que ocorreu em ambos os lados do Atlântico: na França revolucionária retornou a antiga forma despótica oriental da conscrição forçada de soldados, e as tropas uniformizadas de “cidadãos” intercambiáveis e sem honra dedicaram-se primeiro a massacrar a própria população resistente às novidades, como na Vendéia, partindo em seguida, sob Napoleão, ao antigo sonho pagão da conquista do mundo. Nos Estados Unidos, as tropas dividiram-se entre a conquista dos territórios a oeste, chacinando seus habitantes, e a a guerra intestina entre duas formas do mesmo pesadelo moderno, uma escravagista e a outra industrial. No auge da modernidade, enormes parcelas do planeta estavam sob controle direto dos governos do Ocidente moderno, como colônias, protetorados, etc.

A sabedoria se perdeu, com os conhecimentos fragmentando-se e dividindo-se ao ponto de hoje não haver praticamente contato algum entre os vários campos do que antes era chamado Filosofia Natural. É extremamente provável que soluções para problemas considerados insolúveis num campo de estudos sejam consideradas evidentes em outro, mas não há comunicação. Isto ocorreu porque, sem uma classe de clérigos, o estudo passou a ser feito como técnica, não como sabedoria. O objetivo primeiro do estudo passou a ser a aplicação “prática”, preferencialmente industrial, do que se venha a descobrir, o que é na verdade não apenas uma negação do próprio valor do estudo (que passaria a ser apenas um meio tolerável para um fim supostamente “maior” de enriquecimento, aumento do controle sobre o ambiente, como se o mundo fosse uma casinha no burgo, etc.) como um erro grave de percepção da realidade, pois a técnica não se desenvolve pelo estudo, sim pela prática. Em outras palavras, os campos isolados de estudos que temos hoje na sociedade moderna seguem atrás, não adiante, dos progressos industriais; são raríssimas as descobertas “científicas” de que se teve uma aplicação industrial, e inumeráveis as descobertas técnicas (por exemplo, militares) que levaram a percepções “científicas” mais aprofundadas, ainda que desconectadas da totalidade do corpus do conhecimento.

A agricultura, do mesmo modo, passou a ser abordada como técnica, perdendo-se a ligação com os ciclos naturais e aumentando-se tremendamente a quantidade (não a qualidade!) de produção por hectare e por agricultor. Os resultados da subordinação do lavrador ao burguês são evidentes na poluição, nas doenças societais causadas pela exposição a venenos empregados na industrialização de alimentos e de água ou decorrentes de processos e mecanismos industriais de pseudo-controle do tempo e espaço (por exemplo, a poluição causada pelo abuso de motores movidos a combustíveis fósseis para transporte, geração de energia, etc.). A sociedade moderna simplesmente perdeu o “pulso” da Criação, de que deveríamos ser os custódios. Quanto mais moderna a sociedade, mais vazio é o campo e menos saudável é a comida das pessoas.

Vimos assim rapidamente como ocorreu esta reviravolta absurda, em que uma subclasse passou a ocupar o lugar das três classes principais, negando-as liminarmente, cooptando-as ou reduzindo-as à condição de escravo.

Façamos então um pequeno excurso para apontar e explicitar o erro marxista, já que em geral quando se ouvem críticas à burguesia na sociedade atual elas vêm de marxistas, que se queixam da burguesia pelas razões mais erradas do mundo: eles queriam que todos se tornassem burgueses (péssima idéia), e não percebem que isso já ocorreu (fato lamentável). Dois erros num só.

Marx discerniu o que era então já mais que óbvio: a substituição da decadente nobreza do Antigo Regime pela burguesia. Iludido pelos delírios gnósticos de Hegel, todavia, ele resolveu, sem que houvesse absolutamente nada que indicasse que isso pudesse ocorrer, que à substituição da nobreza pela burguesia se sucederia outra reviravolta, desta vez colocando no lugar da burguesia o que ele chamou de “proletariado” (a subclasse dos trabalhadores braçais, na Inglaterra de seu tempo enormemente engordada pelo êxodo rural causado pelo ataque dos maus nobres protestantes à classe lavradora após a retirada da classe clerical por Henrique VIII, eliminando o acesso às terras onde desde tempos imemoriais os lavradores mais pobres podiam plantar e criar animais).

A idéia é absurda, porque o que levou a burguesia a tomar o poder não foi uma revolta contra uma suposta “opressão” nem, muito menos, haveria um mecanismo automático de revoltas contra opressões numa “dialética” absurda a repetir a mesma jogada, num xadrez de pesadelo, até o fim do mundo. A burguesia, como vimos anteriormente, conseguiu sabotar a sociedade e tomar para si um “poder” antes inexistente nesta forma em etapas, a partir de um processo de crescimento da própria capacidade de ação e de sabotagem das classes suas superioras. Primeiro foi eliminada liminarmente a classe clerical, que provia o que Marx chamaria de “superestrutura ideológica”; em seguida, já com a sociedade sem rumo, a própria ganância desabrida dos maus nobres foi explorada pela burguesia, jogando-os uns contra os outros e aumentando o próprio poder na medida em que os gastos das guerras tornavam a nobreza dependente do auxílio financeiro burguês. As Revoluções francesa e americana foram apenas o momento da virada final, com a conquista formal de um poder que já estava materialmente nas mãos da burguesia.
Marx, ainda, escreveu antes do auge da sociedade burguesa moderna, e não foi capaz de perceber que o objetivo de uma sociedade burguesa era o emburguesamento de toda a sociedade. A cegueira da burguesia ao mundo exterior ao burgo, e mesmo á importância das classes suas superioras, a impede de ter qualquer objetivo que não o emburguesamento de tudo e todos. Cego por sua fixação com supostas lutas de classe, ele não viu que a ênfase burguesa no enriquecimento da sociedade e na ordem pública levariam o que ele via como “classe proletária” a tornar-se, na verdade, parte da classe burguesa. Não há nada mais burguês que o lar de um operário industrial do terço intermediário do Século XX, o auge desta sociedade. Nada agradaria mais àquele “proletário” que os valores da burguesia. Não se trata de “falsa consciência”, sim de pertencimento real àquela classe, na medida em que a indústria é na verdade apenas uma oficina de artesão em escala gigantesca, e o artesão é, por definição, burguês. O uso da classe de escravos (“proletários”, que só têm de seu a própria prole), bem como o seu próprio aumento quantitativo causado pela exploração dos lavradores pelos maus nobres na Inglaterra de Marx, foi um fenômeno passageiro. Hoje não se pode dizer sequer que haja proletários na Inglaterra; por outro lado, a “classe” que Marx mais desprezava, o lumpemproletariado, composto dos pobres improdutivos (vagabundos, prostitutas, gigolôs, trombadinhas, etc.), só fez aumentar tremendamente, devido justamente à prioridade que a sociedade burguesa dá ao emburguesamento e à ordem social. É preferível na sociedade burguesa pagar seguro-desemprego ao lumpesinato que tê-lo assustando as donas-de-casa, ainda que nem sempre esta técnica funcione.

Quais serão, então, os elementos da ordem social moderna que permanecerão nas por enquanto inimagináveis sociedades futuras?

Alguns deles, por sua extrema artificialidade, considero improvável que permaneçam. Nesta categoria, poderíamos contar com a situação de sujeição burguesa da mulher, trancada dentro de casa a passar paninhos nos móveis. Semelhante escravização de mais de metade da população só se sustentou pela impossibilidade de dar trabalho produtivo, água e comida a milhões de pessoas nos absurdamente inchados burgos (que se tornaram as megalópoles) de hoje. Trancando-se as mulheres dentro de casa e mandando-se os homens trabalhar em algum lugar longe de casa (coisa que também é uma peculiaridade da sociedade burguesa moderna, que separou o ambiente doméstico do de trabalho), torna-se mais simples a logística de distribuição de água e comida e recolhimento de dejetos, eliminando-se ainda a necessidade de ocupar em atividades produtivas que não a criação de filhos mais de metade da população.
Com o fim da modernidade, as insustentáveis megalópoles provavelmente perderão enorme parcela de seus habitantes, pela simples razão de que são inviáveis. O surgimento de movimentos desordenados de subversão do aspecto da modernidade com que lidamos logo acima (feminismo e congêneres) já fez com que o desemprego urbano aumentasse exponencialmente e as cidades se tornassem lugares muito mais perigosos. Com a reversão do êxodo rural da modernidade, é extremamente provável que as mulheres voltem a tomar a frente na classe dos lavradores rediviva, como sempre ocorreu.

As técnicas descobertas e desenvolvidas na era industrial também se tornaram patrimônio comum da humanidade, e devem persistir, de uma forma ou outra, na era pós-industrial. O que, contudo, é provável que aconteça é que as técnicas demasiadamente abstrusas, em que robôs produzem robôs que produzem chipes para produzir computadores que produzem robôs, etc., sejam abandonadas, súbita ou paulatinamente. Do mesmo modo, os mecanismos sociais que dependem de uma rede demasiadamente complexa e centralizada devem sofrer no mínimo fortes abalos. É este o caso da geração e transmissão de energia elétrica na sua forma atual. Já está havendo, contudo, uma tendência à microgeração domiciliar e de bairro, o que pode fazer com que não se perca a ubiquidade de tão interessante tecnologia. É também o caso da produção de combustíveis fósseis, mas o aumento da flexibilidade de combustíveis pode agir na direção contrária, ainda que o excesso de sofisticação eletrônica dos automóveis atuais os torne mais frágeis e menos propícios a permanecer em uso nas próximas centenas de anos.

As formas hipercentralizadas de governo e legislação, típicas da modernidade, também não têm como durar; em seus estertores elas certamente vão fazer ainda muito estrago, mas é extremamente improvável que áreas monstruosamente grandes sejam microgerenciadas por um governo central em menos de três ou quatro gerações.

Os medíocres valores burgueses também devem cada vez mais, desaparecer na lata de lixo da História. Os movimentos de 1968 em diante no Ocidente já os abalaram o suficiente para permitir que em um futuro próximo, com a progressiva destruição ora em curso da ordem burguesa, ressurjam os valores do cavalheirismo guerreiro, da integração custodial lavradora à Criação e do amor clerical à sabedoria.
Que Deus nos ajude a construir um futuro menos ruim que o presente e o passado próximo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 17 17America/Belem agosto 17America/Belem 2016 por em Carlos Ramalhete, Civilização, História, Política e marcado , , .
%d blogueiros gostam disto: