Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Vaidade das vaidades

vaidade“Com efeito, o tema central desse conto marcante é a descoberta da vida intelectual contemplativa, como fundamento da liberdade interior que redimensiona o sentido da existência”.

Por Victor Sales Pinheiro.

Entre os muitos contos excepcionais de Tchekov, que se destacam pela agilidade e sutileza com que expõem questões humanas cruciais, sobressai “A aposta” (incluído na coletânea “Lendo Tchekov”, ed. Ediouro). Ainda que não alcance a mesma densidade psicológica das melhores novelas da literatura russa, como a “Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói, e “Memórias do subsolo”, de Dostoiévsky, Tchekov escreveu uma pequena obra-prima, que pode ser lida como um convite à vida intelectual e uma crítica ao aburguesamento de quem renuncia a interioridade e a espiritualidade pelo dinheiro, superficialidade e agitação social.

O conto descreve uma “selvagem e insensata” aposta feita por um banqueiro, que propõe dois milhões a um jurista de 25 anos, para que suportasse 15 anos de reclusão, pois o jovem defendia ser a prisão perpétua mais humana do que a pena de morte. O que teria sido apenas “um capricho de homem enfastiado”, “mimado e leviano”, como era o banqueiro, torna-se uma surpreendente descoberta do mundo do espírito, da introspecção e do silêncio, uma espécie de iniciação intelectual em uma cela monástica secular.

Este é um dos argumentos centrais de Santo Agostinho, nas suas influentes “Confissões”, escritas no final do século IV: distante das imposições convencionais, retirando as máscaras que os papeis sociais determinam, a solidão de um retiro nos liberta, nos desprende, nos exercita na arte do desapego e da sinceridade. É um caminho de autoconhecimento e de purificação da vaidade e da vanglória, do que é exterior e apenas representado.

Aprisionado no jardim do banqueiro, sob a mais severa vigilância, o jurista estava voluntariamente impedido de qualquer contato humano direto, mas autorizado a ter contato por escrito e acesso ilimitado a livros, cartas, vinhos, cigarros e um instrumento musical, entre 1870 e 1885. Caso não cumprisse o trato, o jurista renunciaria os dois milhões pelos quais alienou a sua liberdade exterior.

Os quinze anos foram de uma autêntica odisséia intelectual e espiritual. No primeiro ano, o prisioneiro sentiu-se só e entediado, tocando muito piano e consumindo livros de conteúdo leve, romances com intrigas amorosas, contos policiais e fantásticos e comédias. Nesse período, ele dispensou o vinho, que lhe excitaria os desejos e aguçariam sua solidão.

Durante os três anos seguintes, ele se dedicou aos clássicos, imergindo em um silêncio intenso, sem música. No quinto ano, suspendeu a leitura, voltou a tocar piano e se rendeu ao vinho. Passava o tempo deitado na cama, comendo, bebendo e bocejando. Falava consigo mesmo, em tom irado, e escrevia longamente, madrugada a dentro, para depois rasgar os papéis utilizados. Chegou a chorar mais de uma vez nesse ano.

A partir do sexto ano, ele viveu uma verdadeira conversão: dedicou-se com todo afinco ao estudo das Línguas, Filosofia e História, as tradicionais disciplinas humanistas, responsáveis pela expansão do horizonte intelectual do homem e da contextualização do pensamento da cultura histórica a que pertence, a partir da comparação com sua tradição e com outras civilizações. Tamanha era sua avidez e paixão, que ele sorveu cerca de seiscentos volumes em quatro anos, escrevendo a seguinte carta ao banqueiro: “Meu caro carcereiro! Escrevo-lhe estas linhas em seis idiomas… Os gênios de todos os séculos e países falam línguas diversas, mas em todos eles arde a mesma chama. Oh, se soubesse que inefável felicidade experimenta hoje a minha alma porque agora eu os posso compreender!”.

No décimo ano, já assimilada a alta cultura humanista, o prisioneiro permaneceu sentado, imóvel, absorto em um único volume, o Evangelho. Impressionou o banqueiro que aquele homem erudito desperdiçasse tanto tempo com um livro que reputava pequeno e de fácil compreensão. Depois das narrativas canônicas da vida de Cristo, vieram a História das Religiões e a Teologia.

Nos últimos anos de sua reclusão, o encarcerado lia vertiginosamente e sem critério: Ciências naturais, Poesia inglesa, Química, Medicina, Romance, Filosofia ou Teologia. Era como um náufrago que se agarra, convulsivamente, ora a um destroço, ora a outro.

Quando se aproximava o momento em que o prisioneiro venceria a aposta, o pérfido banqueiro decidiu matá-lo, inculpando o seu guarda pelo crime. Desistiu, porém, do seu plano ao chegar na cela e encontrar uma carta, em que se lia: “Em sã consciência e diante de Deus, que me vê, eu vos declaro que desprezo a liberdade, a vida, a saúde, e tudo aquilo que nos seus livros é chamados de bens da vida. Durante quinze anos, estudei atentamente a vida terrena… Os vossos livros deram-me sabedoria… E eu desprezo os vossos livros, desprezo todos os bens terrenos e a sabedoria. Tudo é mesquinho, perecível, espectral e ilusório, como a miragem. Podeis ser orgulhosos, sábios e belos, mas a morte vos apagará da face da terra… Vós enlouquecestes e tomastes o caminho errado. Tomais a mentira pela verdade, e a deformidade pela beleza… vós trocastes o céu pela terra…” Arrependido e sentido desprezo por si mesmo, o banqueiro beijou a cabeça daquele homem superior, e saiu da cela chorando.

Além de uma alusão à Caverna de Platão, que considera ilusório o âmbito sensível da realidade em face da permanência e estabilidade da esfera intelectual da vida, Tchekov remonta ao livro bíblico-sapiencial do “Eclesiastes”, em que se afirma a vaidade e a transitoriedade das coisas humanas diante da morte, desprezando até mesmo a sabedoria e o conhecimento. Com efeito, o tema central desse conto marcante é a descoberta da vida intelectual contemplativa, como fundamento da liberdade interior que redimensiona o sentido da existência.

Fonte: O Liberal, em 31/07/2016.

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Publicado às 1 01America/Belem agosto 01America/Belem 2016 por em Cultura, Filosofia, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , .
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