Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

As vias falsas e o verdadeiro caminho para alcançar a felicidade

PCO“É preciso escolher entre a sua autenticidade, ou ser sua própria caricatura. Assim, quem tende para a verdadeira felicidade — para a felicidade possível nesta terra — é o «homem que é», e não o «que sabe», «que pode», «que faz» ou «que tem»”

Por Plínio Corrêa de Oliveira

Quatro pistas enganadoras para conquistar a felicidade

Um homem qualquer murmura para seus botões: «Terei sido um azarado, um errado, um fracassado se não for feliz».

Para muitos, viver uma vida feliz é respirar contentamento. Quanto mais, melhor! Homem bem sucedido na vida seria o que alcança esse contentamento. E quanto mais distante esteja dessa meta, menos feliz.

O candidato a homem feliz fica, então, tentando adivinhar quais são as qualidades requeridas para atingir o que tanto deseja. Evidentemente — pensa — são aquelas pelas quais se vence na vida. Pois o «santo» — ou seja, o homem perfeito da era moderna — é aquele que vence na vida. O que não faz essa escolha é o «torto», o «errado».

Há quatro tipos de «vencedores» que estariam de acordo com esse figurino: o «homem que sabe», o «homem que pode», o «homem que faz», o «homem que tem». Tudo dependendo das inclinações, das capacidades, das preferências, das circunstancias concretas da vida de cada um.

— O «homem que sabe»: o professor, o letrado, o cientista, o pesquisador, o filósofo, etc.
— O «homem que pode»: o político, o líder, etc.
— O «homem que faz»: o empresário, o construtor, o organizador, etc.
— O «homem que tem»: o rico, o milionário, o banqueiro.
Eis aí quatro pistas para a conquista da vitória.

Embalado por um desses quatro mitos, o candidato a homem feliz, na idade das ilusões, se lança na luta pela vida.

Ele vai conquistar a felicidade? — Ninguém se iluda!

— O «homem que tem»

Talvez se possa dizer que o mito do «homem que tem» é hoje em dia o mais possante. Pois muitos imaginam que tendo bastante dinheiro, estaria aberta a possibilidade de transitar por todas as estradas satisfatórias da vida.

Assim sendo, fazem da posse da pecúnia sua grande preocupação. O dinheiro passa a ser o tema que mais lhes agrada, que mais os atrai, que mais os interessa; colocam toda felicidade na esperança de que nunca ficarão pobres e, pelo contrário, tornar-se-ão cada vez mais ricos. Portanto, cada vez mais felizes.

Felizes… A esse propósito vale a pena lembrar, entre muitos outros, o caso de Cristina Onassis, filha do homem possivelmente mais rico do mundo em sua época. Cristina, segundo um jornalista do Le Monde, «poder-se-ia dizer que nasceu com uma colher de ouro na boca». Basta dizer que suas bonecas eram vestidas pelo famoso estilista Christian Dior…

‘O pai vivia à espreita dos caprichos que iam nascer em sua cabeça, de maneira que antes mesmo de ela dizer «papai, quero tal coisa», já o tinha obtido com perfeição’.[1]

Eis o sonho dourado de multidões! Milhões e milhões aspiram ardorosamente a situação que Cristina Onassis teve já ao nascer.

Mas um jornalista escreve: «… uma vida por demais cheia. Infelicidades demais, por demais casamentos, por demais divórcios, por demais quilos, por demais caprichos rapidamente satisfeitos, para, no final das contas, chegar a uma solidão por demais extrema…».

Ela tomava drogas e — se tentava fugir para o sonho — era porque tudo o que tinha não lhe bastava. E assim, ela tomou a overdose fatal, aos 37 anos.

Conclui o jornalista: «Um pai, mesmo onipotente, mesmo arquimiliardário, pode comprar tudo e impedir tudo, exceto a felicidade, exceto o infortúnio».

Na realidade, a preocupação financeira tem de ser colateral, sob pena de se amar mais o que se devia amar menos, e se amar menos o que se devia amar mais.

O resultado é o infortúnio. O «homem que tem» não é feliz automaticamente, apenas por ter.

— O «homem que sabe»

Ao lado dele, coloca-se o «homem que sabe». Sem duvida, saber é mais elevado do que ter. Mas apenas saber satisfaz? Por exemplo, Pico della Mirandola (1463-1494), um verdadeiro Onassis da erudição na era da Renascença. Dele se dizia espirituosamente que conhecia todas as coisas cognoscíveis, et quibusdam alias (e algumas mais). Seria, por causa disso, feliz?

— O «homem que faz»

Há também o «homem que faz». É, como se diz nos Estados Unidos, o workaholic, ou seja, viciado não em álcool, mas no trabalho. Ele procura compensar as misérias da vida pela auto-realização na ação, transformando em uma fonte de prazer intemperante até mesmo coisas penosas como muitas vezes é a labuta; o que o fascina é o trabalho-agitação, o trabalho-realização, o trabalho-embriaguez, independentemente de seu resultado. Não parece que, em princípio, seja um homem feliz.

— O «homem que pode»

Alcançará a felicidade o «homem que pode», ou seja, aquele que tem poder? — É difícil concordar. Pois o grau de felicidade e de infelicidade mede-se pelo grau de tranqüilidade e de intranqüilidade. E o poder geralmente é fonte de intranqüilidade, para citar só um inconveniente.

O igualitarismo não é caminho para a felicidade

Contudo, esses quatro mitos configuram um homem saliente, e hoje nem sempre é bonito sobressair. Eles estão um tanto fora da última moda. Vai entrando uma tendência a se apresentar como igual a todo mundo, pensando como todos e ao nível de todos; sabendo tanto quanto todos sabem, podendo tanto quanto os outros podem, tendo tanto quanto os outros têm e fazendo tanto quanto os outros fazem. Com vergonha de ser menos, com vergonha também de ser mais.

Sem ter querido nada, sem ter encontrado dificuldades, ele consegue — ou pelo menos tenta — vegetar sem paixão nenhuma.

Um homem assim poderia dizer, na hora de morrer: «Nada fiz, nada quis e nada deixo!».

É ainda mais vil do que o dos casos anteriores. Merece o seguinte diagnóstico: ‘monotonia, nervosismo, charco, charneca’, ao que se poderia acrescentar: ‘felicidade suína’…[2]

— Como defender alguém assim?

A abominação do igualitarismo tampouco é um caminho para a felicidade.

Felicidade e senso da finalidade

Portanto, nem o querer ser tudo, nem o querer nada ser, trazem a felicidade. — O quê, então?

Para responder, é necessário nos determos um pouco na relação entre felicidade e finalidade.

No colégio em que estudei, certa vez um padre colocou para os alunos um problema ‘que pega ao vivo a questão’.[3]

Imaginem — dizia — que uma espiga de trigo fosse capaz de pensar. E que alguém dissesse: «Tu foste criada para a alimentação dos homens; agora teu dono vai te comer e, portanto, vai te colher e moer. Teu fim vai realizar-se». A espiga de trigo deveria ter horror ou entusiasmo por estar prestes a cumprir sua finalidade?

Ela sentiria necessariamente a dor da própria imolação. Porém, acima disso, se fosse racional não poderia deixar de sentir a felicidade própria ao ser que atinge seu fim. Essa felicidade é muito maior do que a grande infelicidade que significa não atingir o seu fim, pela falta de imolação.

O sacerdote colocava a alternativa: ou sente a dor, ou sente a infelicidade. Entretanto, não parece que seja bem assim. Dever-se-ia poder conjugar os dois sentimentos. No fundo dever-se-ia amar o fato de atingir seu próprio fim, embora se fizesse na dor.

O homem feliz não é o que vive muito, ou gostosamente. É o que procede segundo sua natureza e segundo seu fim. Este tem o bem-estar de alma, embora possa sofrer muito.

Na vida humana há uma felicidade superior, que cobre de longe as desventuras e os infortúnios da faina de todos os dias.

Assim ele passa a ser «o homem que é», em contraposição ao «homem que sabe, que pode, que faz e que tem».

Ele tem prumo. Ele atingiu o que se pode alcançar de felicidade neste vale de lágrimas.

É claro que a perspectiva da felicidade perene no Céu é a mais cabal solução para o problema, pois a vida terrena não passa de uma sombra em comparação com a vida eterna. Mas ainda que houvesse apenas esta vida, ela só vale a pena de ser vivida assim: todo o resto é uma imensa frustração.

Não se trata de ter, poder, fazer: é preciso «ser»

Nada impede, é evidente, que o homem saiba, possa, faça e tenha, desde que o faça adequadamente.

Mas, sobretudo, é preciso ser. Cada um deve ser autêntico.

É preciso escolher entre a sua autenticidade, ou ser sua própria caricatura. Assim, quem tende para a verdadeira felicidade — para a felicidade possível nesta terra — é o «homem que é», e não o «que sabe», «que pode», «que faz» ou «que tem». Mesmo quando não sabe, não pode, não faz ou não tem, o «homem que é» está no caminho certo da felicidade.

Referências:

[1] 18-1-1989.

[2] 16-6-1973.

[3] Sem data.

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Publicado às 13 13America/Belem julho 13America/Belem 2016 por em Indivíduo, Moral, Plínio Corrêa de Oliveira e marcado , , .
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