Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O universo dos clássicos

classicos

“No âmbito cultural, o clássico é a criação que abre um universo novo ao leitor, expandindo e aprofundando o seu horizonte de compreensão da realidade”.

Por Victor Sales Pinheiro.

No âmbito cultural, o clássico é a criação que abre um universo novo ao leitor, expandindo e aprofundando o seu horizonte de compreensão da realidade. São obras de arte que permitem o autoconhecimento do homem, tanto do ponto de vista subjetivo quanto social e histórico. Ao serem selecionados por uma tradição, os clássicos se tornam os modelos referenciais das formas intelectuais e dos estilos expressivos de uma época, da qual despontam como representantes privilegiados.

O que mais caracteriza essas obras é que elas não são apenas documentos que registram a magnitude alcançada por um autor e pela sociedade a que ele pertence. Inesgotável, o clássico supera seu tempo e se torna compreensível pelas gerações sucessivas, por ter alcançado um elemento humano universal, identificável por outros homens, em outros lugares e outras épocas. Com isso, o clássico instaura um padrão de excelência moral e estética, compondo o foco especial de atenção da formação humanista, motivada em aprofundar o mistério da existência humana a partir do diálogo com os grandes homens de espírito.

Essa universalidade dos clássicos, porém, não é abstrata, mas historicamente situada, exigindo um esforço suplementar das disciplinas humanistas, como a História, a Literatura e a Filosofia: a contextualização da obra e do autor, assim como da recepção, tradução e interpretação que os transmitem ao leitor. Pautada invariavelmente em um campo de pré-conceitos, a interpretação é sempre uma autointerpretação, a partir da fusão de horizontes de intérprete e autor, intermediados por uma tradição dinâmica que também participa desse processo de transposição de sentido. Segundo Gadamer, em “Verdade e método” (ed. Vozes), o erro fundamental do cientificismo é a projeção do método de conhecimento objetivista das ciências naturais às ciências humanas. A formação científica correspondente a esse positivismo é de natureza técnica, pragmática e utilitária, reduzindo os clássicos a uma questão subjetiva de “gosto”, divorciado de um sentido comum, compartilhado e hierarquizado por uma tradição.

Outro fator que torna as obras clássicas praticamente inacessíveis é a simplificação da linguagem midiática, predominantemente imagética e de imediata assimilação. Complexos e refinados, os clássicos exigem paciência, um processo lento de decifração e descoberta. Na ausência de cursos de humanidades nas Escolas e Universidades, os que queiram escalar esses montes, os quais franqueiam mirantes únicos de contemplação do mundo, precisam de uma rota inicial para se situarem. Ora, esse mapa é fornecido por humanistas como Erich Auerbach (“Mimesis”, ed. Perspectiva), René Girard (“Mentira romântica e verdade romanesca”, ed. É Realizações), Harold Bloom (“O Canône Ocidental, ed. Objetiva), Otto Maria Carpeaux (“Ensaios reunidos”, ed. Topbooks) e Benedito Nunes (“A clave do poético”, ed. Cia das Letras). Além disso, o leitor precisa cultivar o autodidatismo, recorrendo a um bom dicionário e boas traduções das obras estrangeiras, com introduções e notas de comentadores eruditos.

Pode-se começar, por exemplo, com “Antígona” (ed. Topbooks), de Sófocles, do século V a.C. Sem a reflexão do Teatro Grego, não haveria Filosofia. Os alicerces do pensamento ocidental, Platão e Aristóteles, são impensáveis sem os poetas épicos e trágicos. Sófocles expõe os confrontos essenciais entre mulher e homem, família e cidade, religião e política, razão e poder, que, posteriormente, tomará a forma do debate ético e jurídico de direito natural e direito positivo.

Em seguida, convém saborear as famosas e influentes “Confissões”, de Santo Agostinho, no século IV, que estabeleceu a autobiografia como mergulho no seu passado a partir do marco de sua conversão católica. Agostinho é consideravelmente atual, pois vive num mundo em transição, plural e incerto. Nessa obra, ele registra o seu percurso de vida espiritual, os erros intelectuais que legitimavam sua desorientação moral, sua busca inócua pelo prazer carnal, sua vaidade inflada pelo talento retórico e o seu decisivo encontro com Deus.

Para entender o mundo moderno nascente, os “Ensaios” (ed. Martins Fontes), de Montaigne, no século XVI, inauguram um novo tipo de intelectualidade, cética e irônica, atenta à subjetividade e à relatividade das interpretações do mundo. Esse notável autor francês nos ensina a pensar, principalmente pelo diálogo com a sabedoria grega e latina. Ensina também a rir, o que é imprescindível. Quem ignora o riso, não está apto a pensar. Como Aristófanes e Machado de Assis também comprovam, ser espirituoso é uma sutileza da inteligência.

A mesma atmosfera moderna de crítica e incerteza singulariza a obra extraordinária de Dostoievsky, “Os irmãos Karamazóv” (ed. 34), do século XIX, que promove o confronto, no seio de uma família, de formas de vida opostas, desde o monge piedoso, Aliocha, até o ateu inescrupuloso, Ivan, tocando as questões humanas mais desafiadoras, como liberdade, Deus e amor.

Por fim, há um clássico brasileiro que merece destaque, pela extensão dos assuntos e pela linguagem inventiva, com uma profusão de imagens, alegorias e símbolos: “Grande Sertão, Veredas” (ed. Nova Fronteira), de Guimarães Rosa, no século XX. Retomando o tema homérico e dantesco da viagem, o ficcionista mineiro dialoga com as grandes narrativas literárias, filosóficas e religiosas acerca do sentido de mal, guerra e morte, questionando, como o Fausto de Goethe, a existência do diabo, que ameaça a travessia do homem no mundo, cuja metonímia é o sertão, com seus rincões labirínticos e surpreendentes.

Fonte: O Liberal, em 10/07/2016.

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Publicado às 11 11America/Belem julho 11America/Belem 2016 por em Arte, Civilização, Cultura, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , , .
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