Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Finanças e imperativos morais

samuel gregg

“a forte estabilidade da ética cristã ortodoxa reside na sua clara afirmação de que há imperativos morais absolutos: isto é, que há coisas que não podem ser feitas nunca, não importa quanto bem estar elas tragam”.

Por Samuel Gregg.

Desde o começo das primeiras formas de capitalismo no norte da Itália, Flandres, e outras regiões da Europa medieval do Século XI em diante, muitos dos comerciantes engajados em formas cada vez mais sofisticadas de negócios escreviam coisas como “Por Deus e pelo lucro” nos cantos superiores de seus livros de caixa. Outros iniciavam seus contratos de parceria com fórmulas mais ou menos assim: “Em nome de Deus e do lucro”.

Um dos mais especialistas mais talentosos deste período, o historiador belga de economia Raymond de Roover, sustentou que tais slogans não eram “uma expressão de cinismo” nem “um sinal de materialismo”. Ao contrário, essas palavras refletiam a convicção de seus autores de que o sistema bancário e financeiro eram empreendimentos úteis economicamente, e que ao buscar o lucro eles estavam, de alguma forma, dando glória a Deus por participar do desenvolvimento de todo o potencial do universo que Ele criou.

O padre jesuíta Luís Molina e muitos outros cristãos que investigaram esse tema ao longo da história não buscavam maior eficiência de mercado. A preocupação deles era moral. Eles analisavam as decisões financeiras que as pessoas faziam para ver quais ações eram moralmente corretas e quais não cumpriam com as exigências da doutrina cristã.

Como efeitos colaterais significativos, tais estudos ajudaram a identificar características-chave do dinheiro, esclareceram como os juros funcionam como meios de calcular os riscos, e ampliaram o conhecimento sobre a verdadeira natureza do capital, examinando como ele poderia ser usado para gerar riqueza. Não obstante, os cristãos estavam – e assim devem permanecer – interessados primeiramente com a moralidade das diferentes alternativas em matéria financeira.

Tal abordagem difere bastante da realizada pela maioria das pessoas que estudam finanças atualmente. Seu foco reside em buscar entender e criticar as práticas financeiras contemporâneas com vistas a ampliar a capacidade do sistema financeiro de gerar riqueza e alcançar objetivos políticos específicos. Ao fazer isso, estes especialistas descobriram um grande negócio sobre como funciona o sistema financeiro moderno – conhecimento que deveria ser tão útil para os cristão que estudam essas áreas, quanto os resultados de pesquisas científicas que ajudaram os cristãos a se envolver na ética médica.

Onde a abordagem dos fiéis cristãos em relação ao sistema financeiro mais diverge da abordagem secular é no fato de cristãos não poderem aceitar apelos à conveniência ou à maximização da utilidade como critério decisivo para fazer escolhas morais. O autor de um dos poucos estudos financeiros modernos do ponto de vista cristão, o falecido padre Thomas Divine, SJ, sustentou esta perspectiva. O potencial de exploração dos devedores pelos credores, argumentou pe. Divine, foi enormemente reduzido no contexto de um competitivo mercado de capitais, precisamente porque os devedores deixaram de estar a mercê de um ou dois credores. Ainda, Divine não hesitou em afirmar: “se a nascente dos juros estão contaminadas desde a fonte, então nenhum ganho social que esses juros tragam poderá purificá-la”. Divine compreendia – assim como São Paulo, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino e mais recentemente C.S. Lewis – que a forte estabilidade da ética cristã ortodoxa reside na sua clara afirmação de que há imperativos morais absolutos: isto é, que há coisas que não podem ser feitas nunca, não importa quanto bem estar elas tragam.

Isso não significa que cristãos não possam refletir sobre as consequências previsíveis de uma dada ação. Para um cristão, é perfeitamente legítimo notar como a especulação pode aperfeiçoar o mecanismo de fixação de preços, ou ser mais atento aos efeitos da inflação sobre diferentes grupos sociais. Há também muitas instâncias nas quais podemos racionalmente medir as consequências imagináveis e a eficiência das escolhas. Como verificou o filósofo moral John Finnis, tal situação é um mercado para aquelas coisas que podem licitamente ser trocadas, e no qual um denominador comum (i.e., dinheiro) permita a avaliação de custo e benefício.

Os cristãos que estudam finanças não podem, contudo, cair na armadilha de pensar que é aceitável escolher voluntariamente o mal para realizar o bem. Esse tipo de escolha e ação moral foi especificamente condenado por São Paulo (Rm 3,8) e pela Tradição cristã. Ademais, alerta Finnis, fazer a avaliação das estimativas dos principais pontos de referência moral é profundamente irracional, pois quer o impossível: que humanos possam saber e pesar todas as consequências, sabidas e não sabidas, de ações e condutas particulares.

 

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Publicado às 6 06America/Belem julho 06America/Belem 2016 por em Economia, Internacional, Livre Mercado, Moral, Religião, Samuel Gregg e marcado , , , .
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