Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Filhos da Lua

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“O louco, para Chesterton, é aquele que perdeu tudo menos a razão, e que ao pensar encontrar nela a sua liberdade, restringe-se a um círculo perfeito, porém extremamente limitado. Crer, ou ao menos considerar possível, ele explica, amplia nossos horizontes”.

Por Sophia Vigário.

Como resposta a um desafio, G. K. Chesterton escreve um livro desafiador. Após publicar Heretics, foi questionado sobre sua própria teoria, na qual não precisara se apoiar para criticar muitas outras. Para isso surge Ortodoxia. Não pôde, no entanto, corresponder totalmente ao pedido de que traçasse a “sua filosofia”. Isso porque, ao longo de sua vida intelectual, percebe que o desenvolvimento do pensamento que achava ser um novo continente não passava de tudo aquilo que o cristianismo desbravou e esclareceu.

Descreve, portanto, seu caminho que vai de um romance realista de sua época, tratado como a enfadonha história de um louco em um mundo estúpido, aos contos de fada para os quais retorna, as aventuras do homem são em um mundo louco. É dessa forma que, no mundo atual, Chesterton torna-se essencial para aqueles que querem, com leveza poética e clareza argumentativa, recuperar a sanidade de uma criança- e quiçá conhecer o Reino dos Céus. Faz muito em poucas páginas, e logo saltam aos olhos os enganos contemporâneos que desarranja em seus primeiros capítulos.

Não conhecemos o mundo em que vivemos. Baseamo-nos em centenas de fatos sem confirmá-los, acreditamos em máximas sem questioná-las, construímos dogmas achando desconstruir outros- que já nem sequer são dogmas – quando, na verdade, o que se tem é nosso aprisionamento. O louco, para Chesterton, é aquele que perdeu tudo menos a razão, e que ao pensar encontrar nela a sua liberdade, restringe-se a um círculo perfeito, porém extremamente limitado. Crer, ou ao menos considerar possível, ele explica, amplia nossos horizontes. Posso estudar aquilo que é possível, mas não tenho por que me ater àquilo que excluo desse campo. Dentro de si, as crenças podem fazer sentido, mas vistas externamente são frágeis e fixas. O cético, nesse sentido, pode tornar-se dogmático por simplesmente assumir certas “verdades céticas” – não racionalmente analisadas, como a Verdade cristã- ou tornar-se imóvel, por duvidar de sua própria capacidade. Os que insistem irracionalmente nessa falta de transcendência, explica, são filhos da Lua e portanto lunáticos, vivendo nesse círculo perfeito e inconfundível, porém de rota previsível. Talvez seja necessário que o Sol ilumine-os, que a confusão seja brilhante e esplêndida. Chesterton parece trazer uma pequena amostra de como é tentar viver sob a luz do sol.

A tradição e o antigo, dizem alguns, são opressores. Todavia não percebem que “a tirania é o que 20 anos atrás revelava-se como uma nova liberdade pública”. Na contemporaneidade, por vezes, os que se propõem a romper preconceitos, criam novos. O próprio uso do termo pode ser questionado, aliás- alguns diriam que são essenciais para o desenvolvimento individual. Não se dominam conceitos e as discussões tornam-se confusas. Acompanhar as transformações sociais, mesmo que não tenham sentido, é simples. A dificuldade do modernista, para o autor, consiste em conservar sua personalidade, posto que a heresia e a loucura são igualmente simples de se alcançar.

Explica que o “Revolucionário moderno, sendo infinitamente cético, está constantemente empenhado em minar suas minas”. A imobilidade, portanto, é característica dos que veem a mudança como ideal. A juventude materialista e progressista do mundo moderno é curiosa e ávida por tudo que acredita ser diferente do que se tinha antes, mas fecha-se justamente àquilo que foi mais estudado, criticado, e que, para Chesterton, revela-se como óbvio. O que é óbvio para ele, que teve a vida de um grande intelectual, pode não o ser, é claro, para aqueles que não pretendem buscar a Verdade (e muito menos para aqueles que pressupõem que ela não exista).

Ao demonstrar suas conclusões interligadas ao cristianismo, desmitifica uma série de ideias sustentadas por quem não busca sua comprovação- aqueles que têm “uma fé na dúvida”. Percebe as críticas paradoxais que se faz à Ortodoxia, e o motivo pelo qual se dão dessa forma: a “combinação entre duas posições quase insanas, mas que de alguma forma atingiam a sanidade”. Explica que o progresso, assim como a revolução, é possível para o Ortodoxo, desde que para restaurar valores. Há aí uma grande importância para o contexto atual: o cristianismo não é necessariamente conservador, embora muitos não percebam o que de fato ambos os termos significam. Há, obviamente, critérios para definir o ideal desse progresso e uma abordagem mais profunda das temáticas propostas, mas o que se ressalta aqui é a importância que dá à racionalidade possível nesse tipo de argumentação. A imaginação existe para que não nos percamos na própria razão, mas esta não deixa de ser essencial para a sobrevivência do homem são no mundo louco; para que deixemos de ser lunáticos. Sem essa percepção, é possível que continuemos presos à nossa própria tentativa de libertação e deixemos de lado a grandiosidade das pequenas coisas e de tudo aquilo que podemos buscar, seguindo viciosamente grandiosos como nossos próprios deuses, ou insignificantes partículas perdidas no cosmos.

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Publicado às 14 14America/Belem junho 14America/Belem 2016 por em Cultura, Filosofia, G. K. Chesterton, Religião e marcado , , , .
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