Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O lugar de Jarbas Passarinho

jarbasJarbas Passarinho na visão de um dos seus maiores opositores.

Por Lúcio Flávio Pinto.

Só três paraenses tiveram possibilidade real de ser presidente em quase 130 anos de república no Brasil: Lauro Sodré e Serzedelo Corrêa na primeira república e Jarbas Passarinho na quarta república. Sodré e Passarinho foram os que mais perto chegaram e talvez tenham sido dois dos quatro políticos mais influentes em todo esse período, com Magalhães Barata e Jader Barbalho.

Deles agora resta o senador peemedebista, ainda relativamente jovem, aos 71 anos, mas já na fase descendente de uma carreira que prometia muito e frustrou bastante as expectativas. Aos 96 anos, mas inativo há bastante tempo, Jarbas Gonçalves Passarinho se foi no início da manhã de ontem, em Brasília.

Sua última tentativa de voltar ao poder se deu em 1994, 30 anos depois da sua ascensão à linha de frente da política nacional, quando foi derrotado na disputa pelo governo do Pará por Almir Gabriel.

Parecia naquele momento que Passarinho destruíra sua biografia. O patrono da sua candidatura era aquele que devia ser o seu antagonista, o então governador (no segundo mandato) Jader Barbalho, o principal líder da oposição no Estado ao regime militar.

Já na eleição anterior Jader conquistara seu antigo adversário praticamente carregando-o para a cadeira senatorial. Passarinho estava muito abalado pela doença que levaria à morte a sua mulher, Ruth, sem condições de participar da campanha eleitoral. Ficou então famosa a frase do governador: “senador, cuide da sua esposa que eu cuido da sua eleição”.

Naquele momento, Jader elegeria qualquer um, mas o nome de Passarinho era fácil de carregar. Era mais do que isso: um excelente investimento. Abonaria parte do currículo já manchado do adversário da véspera e lhe daria créditos para o futuro.

Jader cobrou sutil e engenhosamente o débito: o apoio a Passarinho para o governo serviria de aval para a arriscada busca que o governador, já identificado com a corrupção na política, faria por uma vaga no Senado. Jarbas perderia de qualquer maneira, ainda que superasse o opositor, aditivado pelo sucesso do Plano Real do PSDB. Passaria a ser dependente de uma liderança menor do que a sua – e destoante dela.

Soube, no início da campanha, que Passarinho estava depressivo, falando com dificuldade, arrastando os pés, fechado em si mesmo. Fui ter uma conversa com ele no seu gabinete de campanha, numa casa ampla cedida por um amigo.

Fechei a porta com a chave e tive ali a mais densa e íntima das muitas conversas que travamos, eu sempre como um repórter, ele como personagem e fonte. Conversamos como dois velhos opositores, numa relação que se manteve em alto nível, apesar de tantos atritos e turbulências, pelo respeito mútuo – e certa admiração, a minha muito maior.

Relatei-lhe minha interpretação sobre aquela aliança estranha, exótica e mal posta para ele. Associei aquela depressão, verdadeiramente clínica, à consciência que ele tinha de ser um instrumento no jogo de Jader.

Passarinho admitiu, mas disse que não tinha alternativa. Devia o último mandato senatorial ao governador, num dos momentos mais dolorosos para o primeiro governador do regime militar no Pará, ministro de dois governos militares e um civil (por infelicidade, o de Fernando Collor de Mello).

Ruth Castro foi a primeira e única paixão do jovem cadete, com a qual casou e se manteve por tantos anos, até ela morrer. Foi-lhe tão fiel que, na íntimidade, os amigos desdenhavam dessa extrema fidelidade ao compromisso matrimonial. Como quase sempre, Jarbas reagia com bonomia e um sorriso cúmplice. Mas era inabalável como uma rocha na ligação à mulher.

Eu entendia aquele constrangimento, fruto do acatamento a um compromisso político desastroso, mas inevitável, pela dívida pessoal que nele havia. O que havia de ligação enter nós me levou a provocá-lo e incitá-lo a reagir.

Disse-lhe que naquela postura ele já estava derrotado. E sua derrota, em tal condição, não apenas mancharia a sua biografia, mas atingia até mesmo antagonistas, como eu, que o acompanharam criticamente em toda a sua trajetória política.

Portar-se daquela maneira na campanha anularia remissivamente as belas batalhas que travamos, para as quais mobilizávamos nossos exércitos de argumentos, raciocínio, informação, conhecimento e capacidade de luta. Terçar armas com Passarinho fazia bem, adestrava e servia à opinião pública exemplos da capacidade de duelistas de oferecerem não só um espetáculo de destreza, mas de empenho pela verdade e o interesse público. Depressivo como estava, ele empobrecia o que isso significara.

Não voltei a vê-lo durante a campanha. Ele retornou a Brasília como derrotado e seu padrinho subiu como vitorioso. Jader, de uma forma competente e inodora, aposentara o segundo líder do movimento militar que cassara o seu pai, o velho político baratista Laércio Barbalho, que chegara a ser deputado estadual pelo PSD, depois de colocar na rota de queda o seu ex-aliado Alacid Nunes, limpando o caminho para ser o novo coronel da política do Pará, sem dragonas.

Jarbas Passarinho, a partir daí, caminhou para o ostracismo e o exílio. O tempo de solidão e isolamento, se lhe acarretou danos pessoais, funcionou, no entanto, como depurador e afinador da sua biografia, enquanto a de Jader foi sendo corroída por nódoas e manchas.

Jarbas Gonçalves Passarinho, que subiu ao estrelado na caudal de um golpe de Estado, não ficou menor do que Lauro Sodré, que se tornou personagem nacional na passagem do império à república, como um dos seus líderes. Considerando-se essa circunstância, é positivo o legado que Passarinho deixa à história.

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Publicado às 6 06America/Belem junho 06America/Belem 2016 por em Atualidade, Brasil, História, Pará, Política e marcado , , , , .
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