Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Arte moderna e conservadorismo criativo

salvador dali“A questão não é se algo é tradicional ou ‘avant garde’, não só porque o tradicional é sempre ‘avant garde’ do mesmo modo que Cristo é sempre radical; a questão é se algo é bom (virtuoso na inspiração e na expressão), verdadeiro (conforme à reta razão, objetivamente compreendida) e belo (refletindo a ordem da Criação)”.

Por Joseph Pearce.

Um amigo meu, visitando Paris com sua esposa, hospedou-se no mesmo quarto do Regent Hotel em que havia ficado dois anos atrás, visando apreciar a linda vista da Torre Eiffel que era proporcionada. Ao colocar o pé no quarto e olhar pela janela, eles ficaram chocados ao ver que a vista da Torre foi ofuscada por uma imensa roda gigante que agora domina o horizonte parisiense. Meu amigo, um tipo pensativo, questionou se a decadência e o declínio da cultura francesa poderia ser simbolicamente vista na transição da piedade escolástica da Catedral de Notre Dame, por meio da pompa secularista da Torre Eiffel para a absurda superficialidade da roda gigante.  Ele ainda meditou sobre o sentido da arte moderna e a atitude que um tipo tradicional poderia ter frente a ela. Qual, p. ex., era a lógica por trás do desprezo de Chesterton pelo impressionismo? Pegando também o exemplo de TS Eliot, por que sua poesia foi considerada de início bizarramente modernista, mas agora é tida como parte do cânon ocidental? Houve uma legítima inovação sobre a qual os conservadores não deveriam essencialmente se opor e como distinguir isso em meio a tanta sandice moderna?

Essas excelentes perguntas me fizeram refletir sobre este tema tão intrigante.

Chesterton via o impressionismo como uma manifestação de relativismo, por causa do seu abandono literal da definição. Seguindo o romantismo que o precedeu, o impressionismo colocou os sentimentos subjetivos e a emoção acima da razão e da virtude, fincando as raízes do relativismo radical que se seguiu ao despertar do romantismo e do impressionismo. Isso foi refletido na maneira pela qual o embaçamento impressionista da definição levou ao abstrato desaparecimento expressionista de qualquer coisa definida, substituindo o concreto e o real pelo mero abstrato.Outras formas de reducionismo caminharam inexoravelmente em direção a “reductio ad absurdum” do cúmulo da falta de sentido, tal como o surrealismo que esteve em voga no Século XX, tanto quanto o impressionismo foi moda durante o Século XIX. O surrealismo suplantou o realismo de uma percepção despertada com a imperceptibilidade inerente ao delírio dos sonhos.

Embora eu pense que Chesterton está certo em sua “exposé” dos fundamentos filosoficamente falhos do impressionismo e das ramificações desastrosas derivadas de seus erros, eu devo confessar que tenho várias pinturas de Monet nas paredes de casa! Ao expor essas imagens eu corro o grande risco de ser visto como um revolucionário radical ou, pelo contrário, podem me acusar de ser inseguro, covarde e até mesmo de sem criatividade. O fato é que o impressionismo foi um dia considerado ousado e revolucionário, mas agora é o suprassumo da respeitabilidade conservadora.

Eu confessaria também que tenho [o quadro] Impressões da África, de Salvador Dali, sobre a minha mesa, no escritório, no qual o auto-retrato do arqui-surrealista fita-me numa eterna perplexidade por trás de sua tela. Isso me faz mais audacioso, redimido pela repreensível tímida escolha das paisagens de Monet para a sala de estar? Na verdade, não. O surrealismo é agora tão conservador e convencional quanto o impressionismo. Quantos cristãos conservadores evitam ter o Cristo de São João da Cruz, de Dali, piedosamente pendurado em suas casas? O curioso é que o “avant garde” logo se torna burguês e aceitável.  Sasson escreveu um poema satírico maravilhoso sobre [o balé] A Sagração da Primavera, de Stravinsky, para ilustrar como ela causou rebuliço em sua estréia, mas foi se tornou prosaica em poucos anos.

Eliot é um outro exemplo. Considerado um “enfant terrible” logo após a publicação de Prufrock e a Terra Desolada, ele foi aclamado pelos niilistas “avant garde” como um iconoclasta e foi demonizado pelos poetas da velha guarda que viram (erroneamente) nele um flagrante desprezo pela tradição. Hoje, quase um século depois, ele é demonizado pelos niilistas “avant garde” pelo seu catolicismo retrógrado, classicismo e regalismo, e louvado pelos tradicionalistas pelas mesmas qualidades!

O que eu acho mais irônico é que o expressionismo abstrato, que um dia foi chamado de inconformismo artístico agressivo, é agora “kitsch” e onipresente nos quartos de hotel. É agora absolutamente convencional e “en vogue” pois suas cores não figurativas são consideradas completamente idôneas e inofensivas!

Se um sujeito tradicional pode confortavelmente abraçar novas idéias no campo da arte, vai depender de quão tradicional a novidade é de fato. Esse elo aparentemente contraditório entre inovação e tradição é o paradoxo da essência da arte em si. Muitas pessoas que fizeram alguma coisa chamada nova na arte se inspiraram profundamente no passado. Os neoclassicistas eram “novos” porque eles se inspiraram na Grécia e Roma clássicas; os neomedievalistas eram “novos” porque escandalizaram o Iluminismo ao se inspirar na Idade Média. [Gerald] Hopkins era “avant garde” porque ressuscitou versos rítmicos do gálico e do inglês clássico e a filosofia escolástica. Eliot era “avant garde” porquer rejeitou a modernidade na própria linguagem da modernidade, enquanto a temperava com pimenta colhida do núcleo da civilização ocidental. A questão não é se algo é tradicional ou “avant garde”, não só porque o tradicional é sempre “avant garde” do mesmo modo que Cristo é sempre radical; a questão é se algo é bom (virtuoso na inspiração e na expressão), verdadeiro (conforme à reta razão, objetivamente compreendida) e belo (refletindo a ordem da Criação).

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Publicado às 11 11America/Belem maio 11America/Belem 2016 por em Arte, Atualidade, Beleza, Conservadorismo, Cultura, G. K. Chesterton, Tradição e marcado , , , .
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