Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Purismo aplicado à política

jean-wyllys-cuspeO circo político brasileiro parece ter descido mais um degrau na escada da dignidade com a substituição dos discursos pela prática de atos asquerosos, que envolvem o lançamento de excrementos e secreções nos adversários. Mas qual a semelhança disso com o movimento artístico do purismo?

No livro A Revolução da Arte Moderna [1], Alfredo Lage traça um delineamento da história e da filosofia da arte, desde o romantismo até a contemporaneidade. Assim, segundo o autor, o movimento da arte pura seria uma revolta contra a concepção romântica, acusada de promover uma falsificação estética.

Desta forma, os puristas defendiam que a verdadeira arte deveria estar livre de todo tipo de mediação não-artística que pudesse desviar a apreensão estética da obra pelo espectador, por isso era necessário despir o objeto de seus elementos pictóricos, plásticos, teutônicos (daí a preferência pela cor branca, pelas linhas retas, pelas formas geométricas etc.)… mantendo-se apenas a obra de arte em si, pura. Assim, uma imagem como a de Nossa Senhora de Nazaré, p. ex., não poderia ser apreciada artisticamente, visto que comoveria o espectador pelos seus elementos figurativos (a forma da Virgem e seus atributos), impedindo-o de apreciar a arte mesma.

O desenvolvimento desta concepção chegará ao ponto de negar o próprio ato criador do artista, visto que ao dar forma ao objeto, estaria contaminando-o com sua subjetividade. Afirma Lage: “a fim de abolir toda e qualquer referência à realidade conhecida, e portanto a simples possibilidade de imitação, a corrente purista foi levada a eliminar do processo factivo toda reflexão, todo juízo, toda deliberação. Só o gesto absolutamente espontâneo pode ser criador” [2]. Isto é, para manter a pureza da obra de arte, a criação não pode ser mediada nem mesmo pela racionalidade do artista, restringindo-se a um ato meramente instintivo: “o gesto não precedido de uma opção, ou que não resulta de nenhum juízo ou concepção, não é um gesto do homem enquanto homem, mas só enquanto agente físico (como o vento ou a chuva)”. Se antes o artista poderia ser comparado ao próprio Deus, pela analogia à criação, agora é rebaixado à condição de simples acidente material, mera engrenagem da máquina artística, instrumento da Natureza.

duchamp

Roda de Bicicleta (Duchamp)

A obra de arte, então, deixa de ser representação para se confundir com a realidade concreta. Ou melhor, a realidade concreta passa a ganhar status de arte. Aqui, o nome proeminente é o de Duchamp, com sua técnica de “objets trouvé”, em que cata qualquer objeto abandonado e o expõe: “‘depois o artista ironiza essa coisa pois, mediante a sua assinatura, declara-a naturalizada no mundo da arte’ (…). A realidade mesma, eis o objeto de arte” [3]

Neste ponto, já deve estar clara ao atento leitor a analogia entre a doutrina da arte pura e o discurso puro encampado por setores da esquerda brasileira, em que a expressão verbal, que representa determinada idéia e torna compreensíveis os conceitos, deve ser afastada para que as idéias em si possam ser expressas materialmente, livres de toda mediação retórica.

Assim como é difícil chamar arte pura de arte (a reta razão de fazer algumas obras [4]), é igualmente difícil reconhecer essas novas modalidades de discurso como exercício da política, aquela ciência do bem comum…

____________

Referências:

[1] A Revolução da Arte Moderna. Autor: Alfredo Lage. Ed. AGIR, 1969.

[2] idem, p. 253.

[3] ibidem, p. 254-255.

[4] Suma Teológica I-II, q. 57, a. 3

 

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Publicado às 5 05America/Belem maio 05America/Belem 2016 por em Arte, Atualidade, Brasil, Cultura, Política e marcado , , , .
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