Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O “problema social” e a “luta de classes”, segundo o tradicionalismo

maria rosa pastor

“as verdadeiras classes sociais, classes que não estão superpostas, classes que brotam livre e naturalmente de um plano horizontal: o trabalho. Classes que não são inimigas, porque não possuem interesses contrários, mas complementares, não têm ambições que se chocam”.

Por María Rosa Urraca Pastor.

É um fato real, facilmente comprovável por todo aquele que, com desejo de buscar solução, se junta a esse abismo chamado “luta de classes”, que no fundo, nas origens de toda revolução, existe uma injustiça social contra a qual reagem as classes que são vítimas dela.

De onde provém essa injustiça? De uma organização social artificial, sem dúvida… Arriscando dizer umas quantas vulgaridades que, sem dúvida, o leitor conhece, não tenho o que fazer se não remontar às origens da enfermidade e depois propor o remédio. Pois todo médico, antes de receitar, diagnostica e estuda previamente os sintomas e busca as causas.

No século passado [XIX], nossos avós românticos, idealistas sonhadores deram um viva à liberdade e pensaram que nos transmitiam o melhor dos mundos… E, com efeito, a liberdade triunfou. E no campo econômico gerou a livre contratação que converteu o trabalhador em máquina, e o trabalho em mercadoria. Nasceu o individualismo que permitiu a livre exploração e o abuso do fraco pelo forte.

Como uma reação ao individualismo, apareceram, de um lado, os trustes e as sociedades anônimas, os patrões e os empregados, nas quais se adormece a consciência e se cobra o salário sem se preocupar pela sorte daqueles homens que trabalham a serviço da empresa e entre os fatores de produção: capital-natureza e trabalho…, ou seja, o homem é colocado em último lugar, precisamente nessa ordem; e, de outro lado, o marxismo, acolhendo a legítima necessidade de defesa daquelas classes expostas sempre a uma possível exploração. E no ouvido dos trabalhadores uma voz foi dizendo: “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos… Uni-vos para defender vossos interesses comuns, formar resistências, fazer greve geral…”.

Então, os homens se polarizaram em dois grupos: de um lado, aqueles que não possuem mais do que seus braços para o trabalho, é o que chamam de “proletariado”; de outro, os que têm em seu poder todos ou quase todos os meios de produção, é o que chamam de “burguesia”… A ambição natural dos que não têm nada se chocou com a ambição humana dos que têm tudo. E a luta dos interesses em choque, a luta entre o capital e o trabalho, desencadeou uma guerra entre os homens: é o que chamam de “luta de classes”.

Agora bem, se o mal é este, sua cura não pode ser encontrada se não na extirpação de suas causas. Armar a sociedade para essa luta, continuar chamando aos grupos contendores de “defensores” é jogar lenha na fogueira do ódio, cujas primeiras brasas nasceram no calor das injustiças sociais. Ao contrário, há que se alcançar a extinção dessa luta, e, para isso, há que se prescindir da existências desses grupos, dessas classes sociais que nasceram única e exclusivamente como reação à livre contratação, mecanismo de exploração e abuso.

O sentido vertical da sociedade, de superposição de classes, não é nem natural, nem cristão. Não há nenhuma razão de justiça que justifique os privilégios de casta ou de classe pelos quais um homem, sem outros méritos pessoais, esteja situado acima dos outros. Não há, nem deve haver, outras razões de superioridade que não aquelas outorgadas pela bondade, talento e trabalho. E o fruto desses três fatores, convertido em nobreza de estirpe ou em riqueza legítima, pode e deve ser transmitido sob a condição de que quem o receba corresponda com suas próprias virtudes a essa nobreza e riqueza herdada, e com seu próprio trabalho para transformar ambas não em lagos estéreis ou proveitosas apenas para si mesmo, mas em abundantes mananciais que, generosos, transbordem e fecundem toda a sociedade.

Quero dizer que esse sentido vertical de classes que atualmente coloca na parte de baixo todos aqueles homens que possuem somente seus braços, ou seu talento para o trabalho; no meio, como uma aristocracia espiritual, os que vêm de cima ou os que vêm de baixo; e acima, os possuidores da riqueza, é absurdo, injusto e contrário à natureza. Como igualmente o seria a virada de mesa para colocar o proletariado em cima e a burguesia em baixo. Não! Ainda que exista superposição de classes, ainda que haja homens em cima e homens em baixo, haveria classes opressoras e oprimidas, haverá injustiça e, frente a ela, reação, haverá luta, e a paz social será impossível…

Deixemos este sistema “democrático” de organização social e busquemos um mais humano, mais natural, mais racional e mais justo. (…) No campo (…) vemos muitos homens que (…) trabalham a terra e extraem dela os primeiros produtos que posteriormente a indústria utilizará.

Estes homens, que dirigem ou trabalham no cultivo do solo (…) e que se unem por um interesse comum – a terra – são uma classe social, uma digníssima classe social, a dos agricultores (…) nos grandes centros industriais (…) chefes e subordinados, trabalhadores manuais e trabalhadores intelectuais, divididos em associações segundo a sua profissão, formam outra digníssima classe social, vindo a encorpar um setor importantíssimo da vida nacional, são o grande bloco ao qual chamamos “a indústria”. E nela, o trabalhador, o engenheiro, o diretor, todo aquele que contribua de algum modo, estão unidos por um interesse comum, a produção da oficina e da fábrica, os benefícios que dela resultam, que, num sentido de justiça, devem ser repartidos proporcionalmente entre todos aqueles sujeitos que participam da produção.

(…) vemos portos, fábricas, mercados (…). Chamamos “comércio” a esta atividade especial e os homens que põem a seu serviço a agilidade de seu talento ou de seus braços também formam outra digna e poderosa classe social…

E aqui tens – leitor – as verdadeiras classes sociais, classes que não estão superpostas, classes que brotam livre e naturalmente de um plano horizontal: o trabalho. Classes que não são inimigas, porque não possuem interesses contrários, mas complementares, não têm ambições que se chocam. Classes que não lutarão e, assim sendo, desaparece a “luta de classes”, produto (…) da organização social injusta e artificial imposta pelo liberalismo.

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