Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A eterna adolescência

boyhood

“Renunciar à educação moral e intelectual dos jovens implica deformá-los, rebaixando o seu horizonte humano e estreitando sua liberdade. Ou seja, abandonar as crianças e os adolescentes a si mesmos, às suas próprias inclinações, ou ao influxo da moda do dia, saturada na indústria cultural da televisão, rádio, internet e literatura, é sinal evidente de decadência das culturas”

Por Victor Sales Pinheiro.

Nada revela mais o nível de maturidade de uma pessoa e de uma civilização quanto o seu interesse e dedicação na formação de novas gerações. Como explica Platão em “O Banquete”, o desejo de gerar virtudes morais e intelectuais nos jovens é uma forma elevada de amor, não só ao educando mas à sociedade toda e à própria humanidade, que se beneficia com a excelência do caráter de cada membro, renovada em cada geração histórica. A Ética clássica, grega e cristã, considera um homem como um projeto, uma potência a ser atualizada mediante o cultivo consciente de suas faculdades, desenvolvidas pela assimilação do sentido das experiências fundamentais do amor, da morte, da verdade, da bondade e da beleza no contexto geral da vida humana. Renunciar à educação moral e intelectual dos jovens implica deformá-los, rebaixando o seu horizonte humano e estreitando sua liberdade. Ou seja, abandonar as crianças e os adolescentes a si mesmos, às suas próprias inclinações, ou ao influxo da moda do dia, saturada na indústria cultural da televisão, rádio, internet e literatura, é sinal evidente de decadência das culturas que demitem os ideais pedagógicos que estruturam a vida moral e intelectual do homem e, por conseguinte, a vida da sociedade.

O premiado filme “Boyhood – da infância à juventude”, do diretor Richard Linklater, é um retrato contundente e fidedigno da crise da adolescência norte-americana atual, nascida de pais criados no clima da revolução juvenil dos anos 1960. O drama do jovem Mason, protagonista do filme, começa com a sensação de solidão e desamparo pela ausência do pai, que, divorciado da mãe, o leva a passear esporadicamente, juntamente com a irmã, com quem jamais enceta uma amizade genuína. A experiência de desenraizamento existencial, a ausência de pertença a algo anterior e superior a ele, agudiza-se com as mudanças de cidade e de marido da mãe, que jamais ocupam o vazio deixado pelo pai.

O estado afetivo predominante do protagonista é de apatia. Ao crescer, ele se torna blasé, entediado e pessimista. No geral, as suas experiências se equivalem entre si, não havendo uma hierarquia sólida de prioridades ou um plano perseverante de vida. Monossilábico, pronunciando palavras ambíguas e vazias de indiferença, como “pode ser”, “tanto faz”, “qualquer coisa”, Mason encarna o típico colegial das sociedades de consumo, materialmente saciado, plenamente secularizado e confortavelmente infeliz. Ele até tenta questionar a sua realidade alienada, pré-moldada e massificada, mas carece por completo de imaginário moral e horizonte intelectual para começar a luta pelo autoconhecimento e a superação da mediocridade da sua geração. Suas reflexões sobre a robotização do homem na era da tecnologia e sobre o intervalo comunicacional gerado pela hiperconectividade que separa as pessoas presentes é motivo de riso para sua namorada, que admira, acriticamente, o poder extraordinário da internet.

Logo, o cotidiano de álcool, drogas e sexo preenchem o vazio que poderia lhe servir de motivação para o questionamento filosófico-existencial, fruto da coragem e sinceridade. O sexo, que na geração dos seus pais foi fetichizado pela transgressão de um tabu, já não o anima suficientemente. Libertado do amor, o sexo não é fruto de intimidade emocional e afetiva. O esforço por firmar uma interlocução franca de abertura com a sua namorada é frustrado; primeiro, porque ela considera esquisitice simplesmente não pensar como os demais; segundo, porque o relacionamento se rompe na distância que a leva a procurar um parceiro sexual substituto.

A crise de Mason deriva da crise dos seus pais, de cuja união provisória ele nasceu. Num ato de indelicada sinceridade na sua festa de formatura, seu tio lhe revela que sua irmã mais velha, Samantha, é fruto de uma aventura irresponsável de seus pais, que não desejaram formar uma família, mas apenas fruir os prazeres do sexo livre. Começando a trabalhar, Mason percebe que a diferença moral entre ele e seus pais é apenas a responsabilidade financeira de pagar as contas da casa. A frase mais cortante do filme é a afirmação à sua mãe de que eles, no fundo, são iguais, padecem da mesma miséria, lembrando os conhecidos versos de Renato Russo, em “Pais e Filhos”.

A despeito do afeto, tão sincero quanto imaturo e pouco educativo, os seus pais acabam por lhe legar instabilidade emocional e incerteza moral, uma sensação de que a vida é uma tentativa. Elucidada por James Stenson, em “Enquanto ainda é tempo… A formação moral e religiosa dos filhos” (ed. Quadrante), a substituição da diferença moral entre o certo e o errado para uma diferença etária – como se, conquistada a maioridade, tudo fosse permitido – anula a autoridade dos pais, que parecem apenas privilegiados por serem mais velhos e, por isso, mais livres, reprimindo os adolescentes dos legítimos desejos dos adultos.

Não há tomada de consciência e revisão de vida nessa obra realista e comovente. O filme alcança grande verossimilhança por ter sido filmado ao longo de 12 anos, com os mesmos personagens e uma câmera naturalista, documental, que acompanha o crescimento do ator, dos 6 aos 18 anos. O caráter trágico da película é que esse crescimento físico não é acompanhado de amadurecimento moral, apenas por adaptação psicológica a um mundo hedonista e efêmero. Ao fim, Mason adere a uma forma peculiar de epicurismo, invertendo a máxima de “colher o momento” pela entrega à passividade de “ser colhido pelo momento”. No fundo, um ato de renúncia de viver, deixando ser vivido e consumido por uma droga alucinógena, o paraíso artificial que lhe resta num mundo superficial de eterna adolescência.

Fonte: O Liberal, em 24/04/2016.

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Publicado às 25 25America/Belem abril 25America/Belem 2016 por em Arte, Atualidade, Cultura, Família, Moral, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , , .
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