Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A dissolução de toda comunidade humana

rafael-gambra“Ninguém nega a existência de Deus, senão aquele a quem convém que Ele não exista” (Santo Agostinho).

Por Rafael Gambra.

A democracia liberal vem a ser, ao cabo, a consagração oficial do exílio como forma permanente de governo e ideal humano: a negação de uma fundação estável para a sociedade, a extirpação das raízes, a supressão dos objetivos finais e da transcendência, a negação a priori da sociedade como comunhão de uma fé de uma esperança, a eliminação de todo ponto de referência na vida dos homens.

Na democracia moderna, as convicções se convertem em opiniões, o direito é meramente positivo e circunstancial, e a autoridade em governo provisório. O único direito que não figura na Declaração de Direitos Humanos é o de sustentar uma verdade objetiva e edificar sobre ela uma comunidade humana. Em uma conferência sobre a Constituição espanhola, o professor Sánchez Agesta dizia que toda constituição democrática parte de uma afirmação (ou constatação)  primeira: que os cidadãos desse país não estão de acordo entre si, e que, por isso, é necessário organizar este desacordo mediante leis “pluralistas”; isto é, estabelecer normas práticas para acordos circunstanciais que permitam a convivência. A comunidade nacional, segundo essa premissa, é definida por sua limitação (não pelo que é, mas pelo que lhe falta), sacrificando ante esse postulado a finalidade e a coerência de que toda e qualquer legislação precisa, necessária a todos, inclusive aos dissidentes. A comunidade nacional se define, desse modo, como “não-comunidade”, razão pela qual se justifica desde o início todo movimento desagregador e “contestador”.

No entanto, uma verdadeira sociedade histórica, enquanto sua essência, não é mera convivência nem organização de meios. É, antes de tudo, profunda comunhão de fé, de anseios e de emoções. Comunhão também de um passado, em uma história. Hoje, se pensa muitas vezes que, embora os técnicos entendam da gestão e administração dos meios, é a eles a que se confia o governo dos povos.  Seria como delegar a um computador ou a uma máquina a direção de uma empresa. As técnicas, como a inspiração dos artistas, nascem no seio de uma civilização, porém se dependesse apenas de técnicos e artistas, jamais a civilização teria despontado no curso da história, nem desempenhado um protagonismo histórico.

A sociedade liberal, neutra e tecnocrática, vive do que resta nas consciências e nas famílias de fé e unidade autêntica, e se extinguirá, ou será absorvida por outra, se chegarem a secar inteiramente essas raízes profundas. Já que, como escreveu Thibon, é “possível lançar-se ao abismo, mas não é possível lançar-se do abismo”.

 

 

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Publicado às 6 06America/Belem abril 06America/Belem 2016 por em Civilização, Conservadorismo, Política, Rafael Gambra, Tradição e marcado , , , , .
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