Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Amor apaixonado

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“O cristianismo não é um mito, um símbolo a ser adaptado e interpretado de acordo com o horizonte de cada época ou local. O realismo estético concerne ao caráter histórico, factual da crucifixão de Cristo. Não há cristianismo sem cruz, sem mortificação, e Gibson rompe com a tendência atual de reduzi-lo a uma ética altruísta, que neutraliza a sua dimensão essencialmente ascética e mística”.

Por Victor Sales Pinheiro.

Das datas centrais do calendário cristão, a Páscoa é cada vez menos compreendida quando comparada ao Natal. Se o sentido do Natal permanece na simbologia da luz, na confraternização e nos presentes, a Páscoa, a celebração da paixão, morte e ressurreição de Cristo, transformou-se num mistério impenetrável para nossa sociedade hedonista, pautada na busca pelo prazer sensível imediato, que considera amor e dor como pólos opostos e inconciliáveis. Nossa cultura utilitarista nega o sofrimento a todo custo, neutralizando-o com analgésicos e antidepressivos, ou mesmo com a antecipação da morte (aborto eugênico e eutanásia), como se a experiência da dor fosse intrinsecamente ruim e dela não pudesse advir nenhuma edificação moral e espiritual. Nesse contexto, contemplar a paixão de Cristo, com sua ignominiosa crueldade da flagelação de chicoteadas e crucifixão, tais como praticadas pelos antigos romanos, não passaria de um sadismo injustificável e de uma loucura escandalosa.

Para tocar nossa sensibilidade moral anestesiada e impermeável ao amor “apaixonado” de Cristo, seria necessário apelar para a mais realista e tecnológica de todas as artes, o cinema. Transcorrida mais de uma década de sua estréia em 2004, o filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, não perdeu seu extraordinário poder evocativo, sendo considerado um dos grandes triunfos da história do cinema. O efeito duradouro do filme é uma autêntica “catarse”, uma purificação pelo terror e compaixão (lembrando a conceituação de Aristóteles, na “Poética”, sobre os efeitos da tragédia grega clássica), que envolve o espectador, identificando-o aos personagens, seja a vítima, os amigos fiéis, os traidores ou os acusadores. Por isso, trata-se de uma experiência exigente e desafiadora, mas certamente compensatória.

Se Bach mobilizou todos os recursos musicais de sua época para compor a sua colossal “Paixão segundo São Mateus”, no século XVIII, Gibson alcançou o cume da arte cinematográfica, unindo, harmonicamente, o realismo radical da forma com a densidade psicológica do conteúdo. Superando seus antecessores cinematográficos, que atenuaram a “paixão” (do grego “pathos”, que significa padecimento), e contando com assessoria científica especializada na reconstituição fidedigna da história, geografia e teologia, a superprodução de Gibson insere o público no universo cultural de Jesus, com o Templo de Jerusalém, a cidade amuralhada, o vestuário da época, e, sobretudo, as línguas antigas, latim e aramaico, que conferem ao filme uma impressionante aura de verossimilhança.

O filme é um relato dos Evangelhos, principalmente o de João. Mas as narrativas evangélicas são breves e sucintas, não se detendo na exploração dos detalhes, porque, na época em que foram escritas, não havia esse recurso literário realista. Como ensina Girard, os Evangelhos são uma das fontes do realismo estético, pela necessidade de os cristãos se identificarem com Cristo mediante a sua contemplação e meditação. Surgem, assim, os autos medievais de encenação da Paixão, como complemento teatral à dramaticidade da Liturgia. Por isso também, o primeiro estágio do método de exercícios espirituais proposto por Santo Inácio de Loyola, fundador da influente Companhia de Jesus, é imaginar, o mais minuciosamente possível, alguma cena da vida de Jesus, extraindo o máximo significado para a própria vida. Ver é, de alguma forma, reviver, sentir. Somos em grande parte o que lemos, assistimos e escutamos, portanto os objetos culturais dos livros, novelas, filmes, e músicas compõem nossa personalidade, integrando o imaginário moral em que se baseiam, mimeticamente, nossos atos e decisões. Ser cristão é ser outro Cristo, aderir aos seus hábitos e palavras, participar de suas dores e agonia. Ora, a catarse da arte cristã relaciona-se à “imitação” da paixão de Cristo, cujo sofrimento é revivido por cada cristão (cf. Mt. 16:24).

Desse adensamento teológico e histórico dos Evangelhos brota a grande arte realista que inspirou o filme, sejam as figurações místicas de Catalina Emmerich, autora de “A dolorosa paixão de nosso Senhor Jesus Cristo”, de 1833, e de María de Ágreda, autora de “Mística cidade de Deus”, de 1670, cujas minúcias de detalhes tornam o leitor uma testemunha ocular daquele momento histórico decisivo, seja a arte pictórica de Mantegna, Bosch, Grunewäld, Caravaggio, El Greco, e as comoventes crucifixões do barroco espanhol. A cena em que Maria acolhe o corpo morto do filho é uma citação da famosa “Pietà” de Michelangelo, por exemplo.

O cristianismo não é um mito, um símbolo a ser adaptado e interpretado de acordo com o horizonte de cada época ou local. O realismo estético concerne ao caráter histórico, factual da crucifixão de Cristo. Não há cristianismo sem cruz, sem mortificação, e Gibson rompe com a tendência atual de reduzi-lo a uma ética altruísta, que neutraliza a sua dimensão essencialmente ascética e mística. Todo o esforço do diretor volta-se, portanto, à apresentação da boa nova aos que perderam o sentido da vida ou aos cristãos nominais, que não meditam a radicalidade do mistério que receberam por tradição. Desde a antiguidade, a crucifixão de Cristo é um escândalo e uma loucura, mas São Paulo não hesitou em pregá-lo, sem reservas e paliativos (cf. 1 Cor 1:13).

Além da exposição documental, o mérito da película é a contemplação da agonia espiritual e da autoridade moral de um homem que não julgou seus traidores e algozes. Raras vezes a grande arte cristã alcançou esse nível de magnanimidade da figura de Cristo, profetizada por Isaias (52-53): o servo sofredor, maltratado e desfigurado, mas silente, como cordeiro levado ao matadouro. Em “Jesucristo en el cine” (ed. Rialp), Alfonso Méndiz esclarece que a contribuição extraordinária de Gibson é revelar a Paixão na perspectiva de Jesus, a partir da técnica diacrônica dos “flash-backs” em que rememora cenas de sua infância com Maria e de sua vida pública. A obra redenção é dramatizada pelos paralelismos das cenas, como a lavagem ritual de mãos de Pilatos e de Cristo, e pelo simbolismo teológico que articula Gênesis e Getsêmani, com a serpente do Diabo e a pomba do Espírito Santo.

“Paixão de Cristo” é um filme pungente e impactante, que merece ser revisto sempre, descortinando uma série rica de interpretações e reflexões (cf. “A paixão de Cristo. Mel Gibson e a filosofia”, org. W. Irwin, ed. Madras). Gibson superou o desafio de traduzir a realidade evangélica da Paixão à complexa linguagem do cinema, sem adaptá-la a padrões de consumo industrial. O diretor produziu a Via-Sacra da era imagética e tecnológica. Assisti-lo é entender o motivo de ainda celebrarmos a Páscoa, dois mil anos depois, contemplando um amor não egoísta, que não se baseia na compensação subjetiva, nem na condição da reciprocidade, mas que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor. 13:7).

Fonte: O Liberal, em 27/03/2016.

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Publicado às 28 28America/Belem março 28America/Belem 2016 por em Arte, Cultura, Entretenimento, Religião, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , , .
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