Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A barbárie da especialização

homem massa“Ora, essa especialização é positiva, porque promove um aprofundamento do conhecimento humano, mas encerra um paradoxo quando se autonomiza e exclui outros saberes: ela barbariza o homem de ciência, alienado no seu saber tanto mais profundo quanto mais fragmentado. É a perda do sentido de totalidade, do conjunto articulado dos saberes humano que evidencia o primitivismo cultural da nossa sociedade científica”.

Por Victor Sales Pinheiro.

Uma das características mais evidentes da crise da cultura ocidental é o que o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em ensaio imprescindível para a compreensão do nosso tempo, “A rebelião das massas” (1929), denominou “a barbárie da especialização”, que acompanha o processo de massificação das nossas democracias liberais. Esse fato inconteste se revela no primado do especialista sobre o leigo, e não há âmbito da vida contemporânea que não tenha sido exaustivamente investigado por uma ciência particular e transformado pela técnica correspondente. Portanto, seria irracional dispensar o “know how” de um especialista, devidamente diplomado com a ciência que legitima sua profissão técnica. Ora, essa especialização é positiva, porque promove um aprofundamento do conhecimento humano, mas encerra um paradoxo quando se autonomiza e exclui outros saberes: ela barbariza o homem de ciência, alienado no seu saber tanto mais profundo quanto mais fragmentado. É a perda do sentido de totalidade,
do conjunto articulado dos saberes humano que evidencia o primitivismo cultural da nossa sociedade científica.

A apoteose moderna da ciência, elevada ao nível de saber hegemônico com a consolidação do projeto político e pedagógico iluminista, neutralizou o alcance cognitivo da Religião e dos saberes humanísticos da Filosofia, História e Artes em geral, as quais, até o século XIX, estruturavam a formação do homem ocidental, fornecendo-lhe um abrangente e articulado mapa da vida em suas múltiplas dimensões. Agora, a formação tecnocientífica tende a substituir a formação religiosa e humanística, privando o homem da “cultura geral”, da “interpretação integral do universo” que, segundo Ortega, é a única merecedora do nome de Ciência, Cultura e Civilização. Isso se dá porque a ciência moderna é fragmentada por princípio: para esgotar uma parte da realidade, renuncia-se ao todo. A divisão hermética da universidade em faculdades autônomas é a prova consumada do processo. Diferente dos projetos universitários originários, tanto o da Academia de Platão na Antiguidade, quanto o da Igreja Católica no Medievo, um universitário moderno não percorre o caminho da universalidade do conhecimento, mas restringe-se às balizas disciplinares de uma única especialidade.

A ciência moderna pressupõe a eleição de um objeto particular de estudo e o seu isolamento do contexto a que pertence. O progresso científico depende, então, da redução da órbita de trabalho para o aprofundamento num número cada vez menor de assuntos. É por isso que há dezenas de especialidades médicas e jurídicas, por exemplo. Quem escolhe a medicina como especialidade, vê-se obrigado a excluir as ciências correlatas da psicologia, biologia, fisioterapia, odontologia, farmácia e biomedicina. Não bastasse isso, deve escolher ainda, no interior das ciências médicas, uma única subespecialidade, a fim de se dedicar integralmente a ela. Quanto mais se reconhece a autoridade do especialista no seu âmbito restrito, tanto mais se desconfia de sua capacidade em outras matérias não aprofundadas. O resultado desse reducionismo intencional é que se aprende quase tudo de quase nada, sabe-se muito de muito pou-
co. Como sintetiza Ortega, “o especialista ‘conhece’ muito bem seu mínimo rincão de universo; mas
ignora radicalmente todo o resto.”

O que aterroriza um humanista como Ortega é que, em todos os outros assuntos, o especialista, seja médico ou advogado, procede como um homem-massa, pensando, julgando e agindo como todos os demais. O seu conhecimento superior restringe-se à parcela ínfima da realidade elegida para a especialização científica, que lhe garante respeito social e sustento econômico. Mas, pelo caráter exclusivista dessa especialidade, o homem de ciência torna-se um “sábio-ignorante”. Até a ascensão dessa nova tipologia de homem, que se gesta numa nova forma de sociedade e de divisão do trabalho intelectual, é possível traçar uma linha clara entre os sábios e os ignorantes, os que têm acesso ao conhecimento científico, filosófico, religioso e cultural e os que dele são privados. O homem-massa, porém, é um “sábio-ignorante”: não pode ser considerado um sábio, porque ignora formalmente tudo o
que não se limita à sua especialidade; entretanto, não é um ignorante, exatamente porque, como
“homem de ciência”, conhece bem seu quinhão minúsculo do universo. Mas, ao invés de reconhecer a autoridade dos demais especialistas nas áreas que ignora, o especialista age com a petulância, segurança e autossuficiência de quem é sábio na sua especialidade. Mesmo assim, em assuntos políticos, religiosos, morais, culturais e de outras ciências, “tomará posições de primitivo, de ignorantíssimo”. A máxima qualificação científica o desqualifica em tudo o que não seja sua especialidade, como o médico Erixímaco,
ironizado no “Banquete” de Platão.

Nessa obra-prima de interpretação da cultura contemporânea que é “Rebelião das massas”, Ortega traça o perfil psicológico do homem de ciência: inculto, massificado e tirânico, incapaz de submeter seu juízo a autoridades intelectuais. Se o primitivo antigo submetia-se às instâncias que reconhece superiores, como a religião, a tradição social e os costumes, o primitivo moderno tem a rebeldia da “criança mimada”, que julga saber tudo e impõe a sua opinião vulgar sobre o que o desconhece. A especialização o tornou hermético e acomodado, subtraindo-o do verdadeiro espírito científico, marcado pela humildade e aventura diante do desconhecido, pela necessidade vital de se superar, de sair de si, de saber-se equivocado, expandindo as fronteiras de sua inteligência pelo cultivo filosófico da dúvida e da investigação, que antes moviam a vida universitária. “Senhorzinho satisfeito”, o especialista é um homem de imponentes certezas e despreza a sabedoria de um Sócrates que ouse questioná-lo. Ortega é um Sócrates do século XX, que desafia nossa percepção estabilizada do mundo, em nome de algo mais vital e decisivo do que a ciência: a cultura no sentido existencial e intelectual, capaz de orientar o homem no mundo, traçando o mapa de uma odisseia irredutível e fascinante.
„
Fonte: O Liberal. 14/02/2016.

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Um comentário em “A barbárie da especialização

  1. Marcos Mathies
    9 09America/Belem março 09America/Belem 2016

    Tenho que comprar esse livro. Lê-lo junto ao ” o Que há de errado com o mundo” do Chesterton é essencial.

    Curtir

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Publicado às 9 09America/Belem março 09America/Belem 2016 por em Atualidade, Ciência, Civilização, Coletivismo, Cultura, Indivíduo, Victor Sales Pinheiro e marcado , , , , .
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