Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O homem massificado e o homem atomizado: decadência civilizacional

MINHA-CASA

A observação do modo de ocupação e uso do espaço urbano é capaz de revelar muito do homem contemporâneo: a forma como ele enxerga a si próprio, e como é visto pelo Estado. As imagens a seguir mostram dois tipos muito comuns de urbanização e de moradia das cidades atuais. São duas faces da mesma moeda: a desumanização do homem.

A primeira figura é uma fotografia de um conjunto residencial do “Minha Casa, Minha Vida”, programa de moradias populares do governo federal, prestes a ser entregue aos beneficiários. Primeiramente, salta aos olhos a excessiva uniformidade e monotonia das construções, expressão do igualitarismo. É um conjunto que parece ter sido diretamente transposto da prancheta de burocratas estatais para a realidade. Não possuem nenhum valor estético, mas apenas material. Não se verifica qualquer traço da originalidade própria de um lar verdadeiramente ocupado por uma família de seres humanos. São casas produzidas, ou melhor, fabricadas em série, como se tivessem saído de uma linha de produção – produção em massa, completamente artificial. Daí concluirmos que foram feitas para o homem “massificado”. Sob a perspectiva do Estado, os futuros moradores desse conjunto não possuem identidade, história, alma… não passam de números nas estatísticas oficiais que agora possuem um teto, mas não um lar. Assim, o indivíduo não se distingue da massa, mas é esmagado por ela. E a massa, como ensinou Pio XII, diferentemente do povo, é sempre dirigida, não tem consciência de si e termina por despersonalizar a pessoa. 

cond luxo 5Na segunda imagem, é possível observar algumas casas de um condomínio residencial de alto padrão. Enquanto na ilustração anterior prevalecia a uniformidade, aqui há um ambiente propício para a excentricidade, estímulo a uma “originalidade” desvinculada de qualquer tradição, que serve à vulgaridade do seu ocupante. Vê-se claramente a ruptura e falta de harmonia entre as linhas arquitetônicas dos imóveis, que não seguem nenhum padrão estético, o que denota a ausência de um desenvolvimento orgânico. Por sua vez, a própria dinâmica deste tipo de “ajuntamento” favorece o individualismo. Aí já não se encontra o espírito de fraternidade típico das pessoas que mantêm entre si aquela empatia própria dos que, sob certo aspecto, partilham do mesmo fado, espírito cívico que forjou as grandes civilizações da história.

Uma vez perdido o senso de unidade entre os moradores, característica que dá coesão às verdadeiras sociedades, não se pode nem mesmo falar que exista aí uma autêntica vizinhança. Cada “lote” é minuciosamente planejado para se tornar um cosmos isolado e autônomo, absolutamente independente dos demais. É a moradia típica do burguês (financeiramente) bem sucedido, o sellf made man, o homem atomizado, o que invoca sua plena autonomia e que proclama fazer seu próprio destino. Diferentemente do homem massificado, que teve a sua personalidade dispersa em meio à aglomeração dos indivíduos, o homem atomizado exacerba, isto é, expande a sua personalidade, destacando-a de todo o tipo de tradição, visando afirmá-la a qualquer custo, para, de algum modo, ser notado, transformando a sua “vizinhança” numa competição de bizarrices arquitetônicas. Nessa atmosfera árida, é inviável o florescimento daquele conjunto de valores partilhados pelas comunidades, o qual chamamos de cultura.  Amputado um traço característico do ser humano, a sua sociabilidade, simbolizada pela comunhão do corpo social, encontramos um homem fechado em si mesmo, alheio, um homem mutilado em sua humanidade.

É importante ressaltar que a crítica não é dirigida ao modelo de condomínio residencial em si, mas a dois aspectos que ele deixa transparecer como retratos da nossa decadência civilizacional. Nesse sentido, p. ex., é comum, ao observarmos a constituição urbana de determinado local, imaginarmos como ele se originou, qual o seu pedigree, por qual povo ou cultura foi influenciado etc. Contudo, no contexto em exame, isso já não é possível, pois rompeu-se com toda a tradição, apagou-se a memória e perdeu-se a identidade cultural. E uma civilização sem identidade, sem memória e sem tradição tem como destino o completo esquecimento.

Por Victor Picanço.

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Publicado às 21 21America/Belem janeiro 21America/Belem 2016 por em Arquitetura, Atualidade, Brasil, Civilização, Coletivismo, Estado, Família, Humanidade, Indivíduo, Tradição e marcado , , , , , , , .
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