Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Como ajudar os pobres?

james schall“Uma economia próspera, caracterizada pela livre iniciativa, um sistema político responsável, um Estado de Direito e tribunais justos, e o controle da corrupção – pública e privada – são os únicos reais mecanismos de eliminação da pobreza”.

Por padre James V. Schall.

Bernard de Mandeville (1670–1733) ficou conhecido por dizer que a causa da riqueza é o vício. Se todos fossem perfeitos, pensava Mandeville, não haveria demanda. Todos ficariam satisfeitos com pouco. Sem demanda agregada, nenhuma produção surgiria para supri-la. Se ninguém bebe cerveja, não existirá indústria cervejeira. Não havendo indústria cervejeira, não haveria plantações de lúpulo e cevada, consequentemente, também não haveriam fazendeiros, nem mercado para garrafas ou latas, nem transportadores de carga, nem nada refrescante para beber durante as partidas de baseball.

Platão, ao contrário, mostrou que uma sociedade guiada por demandas ilimitadas seria uma “cidade de porcos”. Seria um povo sem interesses mais nobres do que produzir bens cada vez mais sofisticados para consumo. Tal povo, sem defesa militar, seria incapaz de se proteger de suas próprias paixões ou dos desejos de outras nações armadas que cobiçassem o que fora produzido para o seu conforto.

Em certo sentido, então, a economia foi sobrecarregada por um herança ambígua. O crescimento será causado pelo vício e a distribuição pela ganância. A virtude produzirá estagnação. Vemos, ademais, certos governos, pela falta de virtude de seu próprio povo, comprarem desesperadamente a oferta de ópio de papoula de outros países, que o vendem para a produção de heroína, com o fim de não arruinar o negócio “legítimo” dos agricultores de países pobres que plantam a matéria-prima do narcótico visando o lucro. Vemos também que dar ou vender os excedentes de produtos agrícolas por preços baixos no mercado estrangeiro, com propósitos humanitários, geralmente prejudica a produção dos agricultores locais, mais cara. Fazer o bem, em outras palavras, parece promover o mal.

De fato, a relação entre vício e crescimento precisa ser direcionada. Existe um caso que envolva virtude e crescimento?

Uma conhecida interpretação da revolução industrial e de suas consequências sugere que o mecanismo de mercado que permitiu essa riqueza generalizada, em primeiro lugar, terminou por empobrecer as massas. Essa é a base da retórica socialista clássica. No entanto, o fato é que o alerta de Marx, segundo o qual, com o passar dos anos, os ricos se tornariam mais ricos e os pobres, mais pobres, não é verdadeiro. Antes, o que acontece é que todos se tornam mais ricos, desde que entrem no mercado sabendo como ele funciona e tenham vontade de trabalhar. A exploração não explica a pobreza. A teoria da exploração, por si mesma, impede o crescimento econômico, já que não entende o seu funcionamento.

O crescimento econômico a longo prazo não nega que as guerras e rumores de guerras acontecerão, embora não haja dúvida de que a economia é sua causa principal. Tampouco põe em dúvida que muitos indivíduos, acidentalmente ou devido às suas próprias escolhas, caíram no caminho e necessitam de ajuda. A necessidade de algo a mais do que a justiça sempre permanecerá.  A verdade é, contudo, que o mundo tem experimentado um crescimento sustentável da riqueza e da população ao longo de quatro séculos. Esse crescimento sugere que os problemas da pobreza histórica podem ser e estão sendo resolvidos gradualmente na medida em que são aplicados os meios adequados.

Conforme o mundo enriquece em ritmos e circunstâncias diferentes, também cresceu a possibilidade de se usar esta riqueza de forma equivocada. A liberdade significa que não existe uma forma automática para garantir que a riqueza será utilizada da maneira correta, a menos que aqueles que a produzem e a utilizem, o façam virtuosamente. O drama moral não reside na riqueza em si mesma, mas nas almas de quem a produz, distribui e a usa – nos hábitos das pessoas que necessitam dela e que a empregam.

Sempre que bem ordenado – o que não é garantia alguma -, o governo pode, até certo ponto, contribuir com o desenvolvimento e uso adequado da riqueza, porém, nesse assunto, é encorajador o histórico de somente alguns poucos governos. O Estado não é a principal ferramenta para corrigir os desequilíbrios da condição humana.

Os líderes religiosos, políticos e culturais que conhecem as verdades e faces da real pobreza estão geralmente tão perturbados ao vê-los que querem deixar tudo de lado para atender ao que parece ser o problema mais grave do momento. Este é um sentimento louvável, exceto por não distinguir claramente entre caridade e justiça. Alguns dos problemas humanos não podem ser resolvidos apenas pela justiça. Geralmente, a atenção à pobreza extrema promove e conduz à medidas políticas e econômicas que, na verdade, são prejudiciais a qualquer perspectiva real de ajudar os pobres. Elas acabam criando algo pior, por dar mais poder ao Estado para implementar programas que não funcionam, ou que só aumentam a dependência e o poder estatal. A questão não é se os pobres devem receber assistência, como parte do bem comum. Antes, a pergunta é: como se pode alcançar o objetivo de levar os pobres a uma situação em que eles sejam capazes de ajudar a si mesmos?

A principal causa da substancial melhora da condição dos pobres nas últimas décadas não é tanto por termos dado aos pobres o que eles querem ou necessitam. Foi o desenvolvimento dos meios de produção e distribuição que tornou possível aos pobres entrar numa relação mais produtiva com aqueles que já tinham descoberto a maneira de enriquecer.

Uma economia próspera, caracterizada pela livre iniciativa, um sistema político responsável, um Estado de Direito e tribunais justos, e o controle da corrupção – pública e privada – são os únicos reais mecanismos de eliminação da pobreza. Em tempos recentes, a pobreza em grande escala é mais um resultado de escolhas políticas, econômicas e morais equivocadas. Nenhuma outra alternativa ideológica funcionou.

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Publicado às 9 09America/Belem dezembro 09America/Belem 2015 por em Atualidade, Economia, James Schall, Livre Mercado, Moral, Política e marcado , , , , .
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