Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Os neo-sábios e a defesa da Família: uma jornada em busca de sentido

familiaPor Leonardo Faccioni.

Há certa cena recorrente de tempos para cá no Brasil, cujas repercussões levam-nos a indagar se cabe defender “a família” como instituição (ou sequer como universal abstrato correspondente a alguma forma discernível) quando a doxa imperante parece convencida a derrogá-la em favor da equânime valoração jurídica de toda e qualquer forma de afeição (ou, em sentido contrário, da politização e sucessiva judicialização de todo e qualquer afeto e, como veremos, também de qualquer paixão). É a seguinte:

Diante de uma campanha pública qualquer em defesa de “novos modelos familiares”, “formas de amor”, “políamor”, etc., alguns segmentos sociais se rebelam, também publicamente. Uma dialética que, versasse sobre qualquer outra coisa, seria tomada por natural e intrínseca às democracias liberais – dizíamos, afinal, que ambas as campanhas tecem referência a espaços públicos e, por conseguinte, a leis gerais, não à intimidade ubíqua e perene das coisas humanas. No caso específico, porém, a mera existência de dissenso gera uníssona e imediata fúria midiática e acadêmica. “Como ousam”, indagam estes por estultice ou má-fé, “esses extremistas dogmáticos serem contra o amor?”

Ora, a pergunta é tipicamente contemporânea. Quer dizer, tipicamente errada. Para uma pergunta incorretamente formulada, nenhuma resposta estará adequada. A questão só teria cabimento caso os termos se aclarassem previamente. Há, no mundo real, grupos socialmente relevantes contra o amor? São estes a agir sobre o caso? De que amor estamos a falar?

Eis que muitas, com efeito, são as forma de amor. Se buscarmos sua tradução para o grego, e.g., língua natal do pensamento, descobriremos discrepância radical entre “eros” e “philia”, apenas para começar. O legado latino acrescenta-nos “caritas” e “diligentia”. C.S. Lewis, sozinho, catalogou quatro de suas manifestações: afeição, amizade, eros e caridade, cujas naturezas consumiriam bibliotecas inteiras sem se esgotar.

Não creio que muitas pessoas no mundo se opusessem, em abstrato, a qualquer das formas do amor. Não o suficiente a gerar debates públicos, mesmo em nossa era teleguiada por instintos de manada e engenharias sociais. Aquilo que aterroriza os sábios consagrados da antissabedoria é coisa bem diversa da oposição ao amor: a ideia de que distintas formas de amor correspondam a distintos graus de valor e perfeição, merecendo, pois, distintos graus de reconhecimento e proteção. Os novos candidatos a sábios são, afinal, igualitários por excelência. Qualquer coisa soante a hierarquia os apavora. Alguém poderia pensar em compará-los com os paleossábios (os sábios de outrora), dar-se conta da miséria atual e declará-los (os novos) inferiores. Hierarquia. Um desastre.

Diversa de todas as formas de amor, entretanto, é a paixão, quando tomada na acepção da compulsão. Para a publicidade, nenhuma distinção seria mais catastrófica que esta. Que todos percam as estribeiras: nossa cultura os aplaudirá. Estarão “amando”. Grossa mentira que nos contam. Já Aristóteles lembrava: são as mais altas virtudes a, perdendo justa medida, degenerar nos piores vícios.

Sim, o amor — em todos os seus graus — precisa de defensores. Defensores que se armem da Verdade, inclusive sobre ele próprio.

O arauto pós-moderno dirá, ao final, que nossos esforços em busca do sentido último das coisas constituem uma prisão. Que nos aprisionamos a conceitos, a palavras, a dogmas. E terá razão.

Sim, estamos aprisionados a “conceitos, a palavras, a dogmas”, porque reconhecemos a correspondência destes a elementos objetivos do real que independem de nossa vontade. É dessa noção basilar de realidade objetiva, em si mesma indemonstrável pelo método científico porque maior do que este, que advém o reconhecimento da existência do outro como sujeito, e não meramente como objeto de minha observação. É dizer, sem que o observador se aprisione à correspondência do intelecto à coisa, da palavra ao sentido, do adjetivo ao qualificado, não há razão fundante para reconhecer o Outro como sujeito de direitos equivalentes aos do observador ele-mesmo – tanto a adequação do intelecto às coisas quanto a existência do outro enquanto sujeito autônomo passam a ser elementos volitivos do ego, sem qualquer motivo para obrigarem o eu a conter suas compulsões animais sobre tudo o que lhe for, em origem, alheio.

O apego das palavras aos seus significados, pois, é condição essencial da civilização.

Ademais, não somos inocentes: é auto-evidente que o alargamento irracional de um conceito tem por resultado imediato o esvaziamento de seu significado. Todas as conseqüências do reconhecimento jurídico e social, digamos, à instituição do casamento perdem seu nexo causal no momento em que o casamento for uma irreverência incondicionada. Se tudo pode ser algo a um só tempo, dito algo é indiferente do nada. O ser humano pode afeiçoar-se por qualquer coisa, do inanimado ao animal, mas não há justificativa para movimentar o pesantíssimo aparato sócio-jurídico em defesa da relação entre um homem e uma cabra com a mesma ênfase da relação entre um casal e seus filhos. A vítima desse esvaziamento de significância, por óbvio, não é o bem da cabra, que jamais existiu, mas o bem da família legítima, que resta desamparado.

Infla-se a moeda: a moeda perde valor. Infla-se um conceito, e o conceito torna-se irrelevante. Nada há de esotérico nisso, pois não?

Da mesma forma como o descontrole sobre as máquinas na Casa da Moeda causam revés à moeda sonante esquecida no fundo do bolso de um casaco antigo, o ataque aos critérios basilares ao discernimento de um casal (dualidade de gênero; dualidade de número) infelizmente ameaçam o vigor do casamento enquanto tal e, por derivação, da família que nele aflora. Torná-los dependentes de conceito igualmente vago, como um “princípio de afetividade” de plano indefinível, implicará deixar cada relação humana, em especial no mais alto plano do amor, à mercê da arbitrariedade de um Estado que, nos dias correntes, longe de educar para a vida moral e elevar a politeia ao bem comum, crê-se piamente capaz de inventar e derrogar as leis da vida e do universo segundo fundamento algum para além da “vontade de potência”.

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2 comentários em “Os neo-sábios e a defesa da Família: uma jornada em busca de sentido

  1. fisicowill
    16 16America/Belem setembro 16America/Belem 2015

    Republicou isso em Isto Pode ???.

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  2. Pingback: Os neo-sábios e a defesa da Família: uma jornada em busca de sentido – Leonardo Faccioni | Espaço Conservador

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Publicado às 16 16America/Belem setembro 16America/Belem 2015 por em Atualidade, Brasil, Civilização, Estado, Família, Humanidade, Leonardo Faccioni, Moral, Política e marcado , , .
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