Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Cultura de direita e conservadorismo

11880251_10153488509549820_1168638040_n“Uma direita comprometida apenas com questões técnicas, administrativas e econômicas é uma direita desorientada e perdida. Uma sensibilidade e uma estética de direita, necessariamente conservadora e tradicionalista, é algo que está muito além de uma confusa e redutora exaltação do egoísmo narcisista e de uma apologética apaixonada e obsessiva em torno das supostas delícias da economia de mercado e das excelsas virtudes do sistema capitalista liberal”.

Por César Ranquetat Júnior*

Introdução

A direita até que enfim despertou de seu sono letárgico. É salutar a revitalização do conservadorismo em terras brasileiras, ingrediente novo no tedioso e monocórdio cenário político nacional. A nova onda direitista pode ser explicada, parcialmente, como uma reação diante da hegemonia política e cultural da esquerda progressista e, além disso, como uma rejeição a corrupta e decadente classe política dominante.

Contudo, tenho notado certa confusão e desorientação histórica, conceitual e doutrinária entre os analistas deste novo fenômeno e mesmo nas fileiras direitistas. Essa desorientação se deve em parte ao próprio caráter multifacetado e ambíguo das categorias direita e conservadorismo. Em realidade, não há a Direita, mas múltiplas e diversas direitas, assim como não há o Conservadorismo, mas distintivos e variados conservadorismos. Direita e conservadorismo não são conceitos unívocos. Ademais, são fenômenos históricos e sociais mutáveis e variáveis temporalmente e culturalmente. Muito desta confusão conceitual também deriva do trabalho malicioso de deturpação da linguagem levado a cabo pelos agentes da subversão. Esquerdistas e liberais conferiram propositadamente um sentido depreciativo e pejorativa a estes termos. O significado mais profundo e original destas noções foi intencionalmente deformado.

Mas, em que pese a complexidade e a ambiguidade destas categorias e realidades históricas, é possível sim captar a essência destes fenômenos e caracterizar os traços comuns e constantes que configuram o que pode ser definido como espírito conservador e atitude de direita. Para além das diversidades correntes de direita há uma forma própria e um modo específico de perceber a realidade social e a natureza humana que pode definida como cultura de direita ou mesmo de sensibilidade conservadora- tradicionalista, a qual se caracteriza principalmente por ser diametralmente oposta a visão de mundo progressista e igualitária hoje dominante na civilização ocidental. A direita, nesse sentido, deve ser concebida axiologicamente e, em termos ideias, como uma postura diante do real, assim como uma orientação existencial, conforme a brilhante explicação do escritor romeno Vintilă Horia:

“A Direita não é uma ideologia, é um estilo de vida que coincide com os valores fundamentais e dentro desses valores, em primeiro lugar, como cúpula de todos eles, estão os valores cristãos. A Direita é um estilo de vida permanente dentro do qual está o amor, a família, a propriedade privada, a fé religiosa, a moral, o heroísmo na guerra como na paz, esses são os valores fundamentais que sempre caracterizaram as Direitas porque contra eles sempre se manifestaram os de Esquerda (…). Eles inventaram uma ideologia, uma filosofia para poder atacar estes valores que não necessitam de nenhuma ideologia (…). A Direita representa a vida e a Esquerda a morbidez (…). A Direita é pelo amor normal ou natural, contra o aborto, em defesa da família, contra a droga, e não em vão, porque isto significa defender a vida. Do outro campo, do campo das ideologias, que são sempre de Esquerda, vêm sempre os ataques contra a vida, defendendo sempre atitudes contra-natura”.

Nesse sentido, é inescusável o desenvolvimento e o fortalecimento de um imaginário conservador e tradicional, de um particular estado de de espírito e de um conjunto de convicções e sentimentos específicos. É indispensável afirmar e encorajar o florescimento de uma cultura de direita que, sobretudo, tenha suas próprias referências literárias, artísticas, filosóficas, históricas, antropológicas e sociológicas. Uma cultura de direita que tenha a ousadia de opor-se aos mitos igualitários e progressistas.

Equívocos e confusões

Muitos analistas apressados relacionam equivocadamente o pensamento conservador com o autoritarismo, o fanatismo e a obtusidade mental. Os conservadores não defendem o autoritarismo, mas o princípio da autoridade. Autocracia, totalitarismo e militarismo não são características exclusivas de determinado tipo de direita – a direita bonapartista de tendências populistas e fascistóides, conforme definição do historiador René Remond – mas também da esquerda radical. Associar o conservadorismo político com a violência, a irracionalidade e o anacronismo é, no mínimo, uma demonstração de incultura histórica. Grandes estadistas europeus como Metternich, Otto Von Bismarck e Disraeli foram lideranças políticas conservadores sem laivos de truculência e obscurantismo. Bismarck inaugura as políticas de assistência social às classes trabalhadoras na Alemanha do século XIX. É ele o pai – pasmem – do Estado do bem-estar social tão defendido pelas esquerdas contemporâneas. Em nosso país, no período imperial, também tivemos lideranças conservadoras de peso como José Bonifácio de Andrada e Silva, José da Silva Lisboa (mais conhecido como Visconde de Cairu) e Joaquim Nabuco. Ressalto que Nabuco foi um dos líderes da campanha abolicionista. Conservadorismo, caros amigos, não é sinônimo de obscurantismo e brutalidade.

Outro equívoco analítico e prático lamentável é vincular o conservadorismo com posturas passadistas e retrógadas de fobia pelo novo, como se ele fosse marcado por uma espécie de aversão epidérmica às mudanças sociais e históricas. Conservadorismo não é imobilismo. Não é muito menos uma aceitação passiva do status quo reinante. Nem tudo merece ser conservado. O que realmente necessita ser conservado são apenas os valores e as instituições essenciais à existência de uma comunidade humana ordenada e relativamente equilibrada. Trata-se, assim, de manter e preservar todas as realidades fundamentais e basilares que estão conforme o ser do homem e a natureza das coisas. Conservar o essencial e reformar de maneira prudente, gradual e sensata o acessório e circunstancial eis o cerne da atitude conservadora.

O espírito tradicional, inerente à mentalidade conservadora, é sem dúvida alguma veementemente contrário à avidez de novidades e ao frenesi ativista próprio da mentalidade revolucionária. O homem conservador cultua o passado, respeita de maneira piedosa e com humildade reverente seus predecessores, vela pela continuidade das tradições culturais, espirituais e morais de sua comunidade.

Há ainda leigos no assunto que acreditam que os conservadores representam o centro do espectro político, pois se caracterizariam por posições comedidas e moderadas. Porém esta afirmação precisa ser matizada. O espírito conservador não é caracterizado pela moderação e a cautela excessiva, por uma razão muito simples: não se pode ser moderado com as atitudes imoderadas e radicas da esquerda progressista. O que realmente distingue a mentalidade conservadora é a reação e a resistência contra a desordem moral e cultural. Reação corajosa e firme contra as forças da subversão e resistência obstinada aos processos de dissolução da ordem espiritual de uma comunidade. Logo, defesa de uma política prudencial e realista em face dos esquemas utópicos, dogmáticos e abstratos da política ideológica dos radicais e da esquerda conforme assevera Russel Kirk.

Um conservadorismo político e axiológico que não se alicerce na defesa das comunidades concretas (famílias, municípios, províncias e pátria,) e que não procure o fortalecimento das virtudes da solidariedade e da caridade é uma contrafação de conservadorismo. Um conservadorismo “para inglês ver”, tímido e condescendente com as potências mundialistas e plutocráticas que intentam enfraquecer e aniquilar as identidades e vínculos orgânicos.

Penso que um dos pontos doutrinais que precisa ser desenvolvido e aprofundado com mais cuidado e atenção pelos “novos conservadores brasileiros” é o que diz respeito à relação entre conservadorismo e modernidade. Vários autores conservadores apontam para o caráter essencialmente problemático e critico da modernidade. Desse modo, o autêntico conservador de orientação teórica tradicional olha com certa desconfiança e ceticismo para a moderna civilização tecno-econômica. Não se deixa seduzir facilmente pelos encantos e benefícios da sociedade de consumo e do bem-estar material. Rechaça o critério meramente econômico da eficácia e da utilidade em nome de um critério mais alto: o critério ético do sacrífico e do dever. Dos deveres morais da pessoa singular – de carne e osso – para com Deus, para consigo mesma e para com sua comunidade. A direita conservadora busca transcender tanto o progressismo desvairado da esquerda como o mercantilismo mesquinho e vulgar de uma pseudodireita libertária.

Mais do que um partido ou movimento político de direita necessitamos, em primeiro lugar, restaurar uma cultura de direita, uma visão de mundo e do homem que gravite em torno de princípios permanentes e imutáveis como a ordem, a autoridade, a hierarquia, a justiça, a religião, a tradição, a família, a pátria, as liberdades concretas, a responsabilidade individual e social. Uma direita comprometida apenas com questões técnicas, administrativas e econômicas é uma direita desorientada e perdida. Uma sensibilidade e uma estética de direita, necessariamente conservadora e tradicionalista, é algo que está muito além de uma confusa e redutora exaltação do egoísmo narcisista e de uma apologética apaixonada e obsessiva em torno das supostas delícias da economia de mercado e das excelsas virtudes do sistema capitalista liberal. A cultura de direita é bem mais do que isso. Reduzir o ideário de direita a mera exaltação do liberalismo econômico é, fatalmente, extraviá-la.

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*Doutor em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor universitário.

 

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6 comentários em “Cultura de direita e conservadorismo

  1. AntimidiaBlog
    12 12America/Belem agosto 12America/Belem 2015

    Tenho certa resistência em aceitar algo que fale em “instituições essenciais”, “família” ou “pátria”…..tendo a me colocar contra, ou no mínimo, com os dois pés, joelhos, braços, tronco e cabeça, atrás quando escuto algum destes termos……..valores morais, com ênfase aos ligados a comportamento, sejam de direita ou esquerda, não me parece o melhor horizonte para um desenvolvimento social e humano que se espera da sociedade e do indivíduo……quando penso em “instituições essenciais”, “família” ou “pátria” o que me vem a mente são crimes, opressão e brutalidade/repressão, conceituada em pura hipocrisia.

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    • victorpicanco
      12 12America/Belem agosto 12America/Belem 2015

      São essas instituições que possibilitam o pleno desenvolvimento humano do indivíduo, é nelas que o homem se realiza enquanto pessoa, e , principalmente a família, com sua organicidade, é a principal defesa do indivíduo contra o poderio estatal, a brutalidade/repressão e a opressão.

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      • AntimidiaBlog
        13 13America/Belem agosto 13America/Belem 2015

        Não, não vejo, e nem sinto, a coisa dessa forma…..me parece papo barato de moralista……e tudo ideologia barata……sabe como é…..igual quando alguém chega do seu lado e começa a falar em revolução e estatização……em ambos os casos é sempre bom manter os dois pés, joelhos, braços, tronco e cabeça atrás…..

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  2. victorpicanco
    13 13America/Belem agosto 13America/Belem 2015

    Você parece defender a atomização do indivíduo, o afogamento dele no próprio ego. Isso sim é ideologia barata (o conservadorismo, como diz Kirk, é a não-ideologia), revolucionária e que leva à estatização.

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  3. Elifas Lira
    25 25America/Belem setembro 25America/Belem 2015

    Peço uma pequena explicação:
    Pela minha compreensão do texto, não é possível unir essas duas concepções, liberal e conservador. São distintas?
    O que dizer dos sujeitos que se autoafirmam, liberais-conservadores?

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Publicado às 12 12America/Belem agosto 12America/Belem 2015 por em Atualidade, César Ranquetat Júnior, Conservadorismo, Cultura, Política e marcado , , , .
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