Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Direitismo: doença infantil do conservadorismo

idade media doençaIntrodução

É inegável o crescimento em escala geométrica de um ideário conservador no Brasil. Essa ascensão tem gerado verdadeiro pânico nas esquerdas, desabrochando reações histéricas dos progressistas, os quais criam ser irremediável a correlação de forças que vigorou desde a redemocratização, com clara preponderância da pauta política esquerdista.

No entanto, esse grande número de pessoas que aderiu a uma postura política de cunho conservador, formado por “conversos” tardios e, principalmente, por jovens que cresceram num ambiente “progressista”, tem expressado certos cacoetes ideológicos, originados, possivelmente, de certa ingenuidade política e/ou da falta de familiaridade com os mecanismos de participação da nossa democracia.

São indivíduos, famílias e grupos que apenas muito recentemente acordaram de um estado de letargia e acomodação. Por muito tempo, não notaram as estratégias de dominação político-cultural das esquerdas, nem partilharam de uma vivência política, seja institucional ou informal, e só agora atentaram para o terreno perdido.

Um autêntico conservadorismo nacional, erigido em bases sólidas, que não seja apenas um mero suspiro, mas que tenha pretensão de encrustar-se no ideário político brasileiro, deve conter em si os elementos que marcaram a formação cultural do país, não se envergonhando de suas raízes, ao mesmo tempo que está disposto a assimilar saudáveis inovações, desde que compatíveis com o espírito nacional. Tais considerações merecem um aprofundamento posterior, não sendo o objetivo deste texto fazê-las.

Assim, não sem alguma audácia, mas com o objetivo precípuo de contribuir modestamente com a formação e lapidação de uma consciência genuinamente conservadora, apresento algumas notas sobre os equívocos mais evidentes nos movimentos que têm sido chamados de “nova direita”. Tratam-se de sete concepções, por vezes contraditórias entre si, manifestadas isoladamente ou em conjunto, de forma coordenada ou não, que dirigem a compreensão política individual de seus membros.

A escolha da denominação “direitismo” se deu pela necessidade de distinção de uma postura meramente reativa e relativa, isto é, caudatária de determinadas orientações políticas e sem substância doutrinária, por isso, “direitista”; de uma perspectiva possuidora de consistência teórica, propositiva e, portanto, capaz de pautar o debate público, a “conservadora”.

Romantismo

A acepção aqui considerada do romantismo é aquela que de algum modo idealiza o passado como um período “áureo”, em que não havia “vícios”, supervalorizando as suas qualidades e desconsiderando seus defeitos. Esse romantismo é marcado por diferentes matizes: alguns, consideram o regime militar (1964-1985)  como o grande momento político do país, no qual não havia corrupção, a administração era eficiente e a economia bem desenvolvida; outros, idealizam o período monárquico/imperial, ocasião em que o povo supostamente seria virtuoso, a religião, publicamente estimada, os governantes, comprometidos com o bem comum etc.

Para além do irrealismo dessas idéias, o que já bastaria para invalidá-las a partir da ótica “conservadora”, delas decorre uma postura mais danosa, marcada pela pura impossibilidade prática: a tentativa de transportar a realidade passada para a configuração social presente, ignorando todas as transformações ocorridas e que, muitas vezes, são irretratáveis.

Se é fato que vivemos numa época de decadência moral, cultural, espiritual etc., é verdade também que cada tempo possui suas mazelas, cabendo discernir aquilo que de positivo e conforme às virtudes foi forjado previamente e incorporado à cultura e ao espírito do povo, impulsionando até hoje o nosso desenvolvimento, daquilo que, embora tolerado (instituições como a escravidão, p. ex.), constituiu uma chaga social.

Reacionarismo

Outro característica facilmente notada é o reacionarismo, entendido como a reação, a priori, contra tudo o que é proveniente de um espectro político antagônico, simplesmente por ser sustentado por ele. É, pois, uma condenação precipitada e irrefletida de uma determinada tese, somente pelo fato de ter sido levantada por um “adversário”.

Ora, nada mais “anticonservador” do que isso. Se, como diz Russell Kirk[1], o conservadorismo se caracteriza pela prudência, pela negação da ideologia, logo, uma tomada de posição, contra ou a favor de qualquer coisa, só deveria ser feita após cuidadosa análise dos fundamentos e das possíveis consequências da proposição. Ao contrário, a condenação ou adesão imediata, com base meramente na tendência política do propositor, é típica da esquerda e de suas “palavras-gatilho”[2].

Vale destacar que uma postura reativa é legítima e necessária, principalmente num tempo em que os aparelhos de Estado, os meios de comunicação de massa etc., influenciados e pautados politicamente por movimentos revolucionários, impõem, à fórceps, transformações abruptas que rompem com a tradicional organização social do país, desde que solidamente fundamentada.

Militarismo

A ansiedade por deter no curto prazo o avanço de certa ideologia revolucionária, por vezes, abre espaço para a defesa da intervenção das Forças Armadas no xadrez político, confiando a elas um poder arbitrário sobre as instituições sociais.

Com efeito, trata-se de um grave engano, por ignorar o legado do regime militar, de passado recente, que, no campo econômico, aprofundou o modelo desenvolvimentista, expandido a atuação estatal na economia; e que, no âmbito político, arruinou as lideranças civis conservadoras, além de ter centralizado excessivamente a administração pública. Se, ainda, a justificativa se der no domínio moral, cabe ressaltar que a chamada “revolução sexual”, que flexibilizou os costumes, avançou sob os governos militares.

Assim, nada mais contrário à inspiração política conservadora do que um movimento político que concentre poder no Estado, preterindo as iniciativas e associações de cidadãos, que buscam atender às demandas e necessidades das suas respectivas comunidades, de forma autônoma.

Antipatriotismo

O antipatriotismo é uma certa tendência de se desprezar tudo o que é nacional e característico do Brasil, exaltando, por outro lado, o que é importado, estrangeiro, naquilo que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira lata”[3]. É, como um chauvinismo às avessas, uma espécie de pessimismo generalizado, expressando um inconformismo com a condição do país e a desesperança no futuro.

Esse comportamento tornou-se mais significativo nos meios conservadores com a escalada política dos movimentos progressistas, que dominaram os aparelhos de Estado e os meios de cultura. Assim, o “direitista” passou a ser o sujeito iracundo, antipático, que só enxerga o lado ruim das coisas, e, descrente do Brasil, passa a condenar inclusive as suas tradições, costumes e até os elementos de formação do caráter nacional: a religiosidade do povo, a valorização da família, a solidariedade e colaboração de classes etc.

Se, enquanto força política, se quer viabilizar o “conservadorismo”, urge evitar essa postura. O conservador acredita nas instituições sociais que passaram no teste do tempo, na iniciativa dos indivíduos, na colaboração dos grupos sociais e, portanto, que aqueles fundamentos que mantiveram a sociedade de pé até hoje continuarão válidos, devendo ser incentivados e valorizados. E, por isso, mantém uma fundada esperança (nunca uma utopia) no futuro. Veja: há esperança não porque será tudo feito diferente, mas porque aqueles elementos que formaram nossa identidade, e que, ao longo dos séculos, se mostraram benéficos, serão mantidos e aperfeiçoados.

Anglofilismo

Como corolário do antipatriotismo, surge o anglofilismo, decorrente de uma hipervalorização de elementos do conservadorismo político de matriz anglo-saxã, em oposição às raízes ibéricas do nosso país e de sua formação cultural.

É uma importação acrítica dos valores anglo-saxônicos, que busca transportar mecanicamente um ambiente cultural completamente estranho às nossas tradições, por visualizar na experiência política britânica um relativo sucesso do modelo conservador, desconsiderando, inclusive, a fundamentação teórica desse movimento (utilitarismo), que é completamente diversa da tradição política brasileira.

Cabe observar, por sua vez, que esse comportamento, paradoxalmente, não é conservador, pois não respeita os princípios identitários e as experiências sociais consolidadas na nossa sociedade. A substituição de costumes típicos de uma comunidade por práticas arraigadas de outras é, antes, uma atitude revolucionária, nunca conservadora.

Naturalmente, deve-se ressalvar uma saudável colaboração e troca de experiências, podendo haver a assimilação de valores alheios, desde que se conformem às especificidades políticas locais. O que se considera um erro é a adesão irrefletida a princípios estranhos à realidade política nacional.

Liberalismo econômico

Inicialmente, é preciso esclarecer que não se pode confundir liberalismo econômico com liberdade econômica, livre iniciativa e livre mercado. Esses últimos devem ser garantidos e fomentados, pois são parte da esfera de autonomia da sociedade.

Nesse sentido, o erro apontado aqui é o do liberalismo econômico, entendido como deificação do mercado, autonomizando a esfera econômica em relação à ética e à moral. Por este significado, o norte moral da economia passa a ser o mercado e não o bem comum, o que implica em diversas distorções. É uma postura mais próxima do libertarianismo (que tem origem no anglofilismo já tratado acima), que chega até a condenar a própria existência do Estado.

Se é verdade que o Estado brasileiro se agigantou e precisa ser reduzido, devendo ser restringida a sua atuação àquilo que lhe é próprio, também é verdade que a dose do remédio proposto é excessiva, podendo matar o doente. O abuso da liberdade econômica, de forma que o mercado não seja subordinado à moral e ao bem comum, é antes uma proposição revolucionária do que conservadora.

Utilitarismo moral

O termo foi escolhido por ser mais específico do que liberalismo moral e para ressaltar a sua origem no conservadorismo anglo-saxão. Assim, o utilitarismo moral, compreendido sucintamente como a concepção que não reconhece a existência de deveres morais absolutos, avaliando a moralidade dos atos conforme os benefícios gerados por eles para a maioria das pessoas, geralmente acompanha a defesa do liberalismo econômico.

Neste caso, o equívoco reside no fato de se flexibilizar e até abolir os princípios ordenadores da sociedade, que são imutáveis, conforme a conjuntura. Ora, o conservador reconhece a existência de uma ordem que transcende os indivíduos, que é válida e universal, que está fora do controle deles, e que determina os deveres gerais da vida em comum, logo é incompatível com a idéia de se manipular esses princípios de acordo com a sua aceitação social.

Como exemplo, temos o posicionamento do primeiro-ministro inglês, David Cameron, do Partido Conservador, a favor do “casamento” entre homossexuais[4], porque isso seria bom para todos, ignorando o fato de que ninguém, muito menos o Estado, tem poder para modificar o conceito de casamento (união indissolúvel entre um homem e uma mulher), uma instituição ordenadora da sociedade que está além da capacidade dos homens de alterar a sua substância.  Ou ainda, para ficar no exemplo inglês, o caso da primeira-ministra Margaret Thatcher, que permitiu a legalização do aborto naquele país[5].

Conclusão

Esses breves apontamentos, que talvez devam ser posteriormente desenvolvidos, buscam incentivar uma autocrítica no nascente movimento conservador brasileiro, de forma que esse lampejo de sensatez política ganhe consciência da sua própria responsabilidade e consiga recuperar a sanidade do ambiente público brasileiro. Destaque-se que não se pretendeu aqui delimitar ou definir rigidamente o que seria o “conservadorismo’, mas tão somente indentificar corpos estranhos que estão a parasitar a florescente primavera conservadora no país.

Por Victor Picanço.

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Referências:

[1]KIRK, Russell. A Política da Prudência. São Paulo: É Realizações, 2013. P. 91.

[2]http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/13133-a-palavra-gatilho.html

[3]http://www.releituras.com/nelsonr_viralatas.asp

[4]http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/03/lei-que-permite-casamento-gay-na-inglaterra-e-em-gales-entra-em-vigor.html

[5]http://revistaepoca.globo.com/ideias/noticia/2012/02/revolucao-do-bom-senso.html

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4 comentários em “Direitismo: doença infantil do conservadorismo

  1. Virgilio Silva
    27 27America/Belem julho 27America/Belem 2015

    Vitor Picanço com certeza é ” funcionário publico”….ou seja nunca empreendeu nada além do mar da tranquilidade …

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  2. Leonardo Melanino
    31 31America/Belem julho 31America/Belem 2015

    Sou totalmente favorável aos toques de recolher para anteoctodécimos e às criminalizações até mesmo das desobediências dos filhos aos pais. Também sou favorável às proibições totais das pipas no Brasil. Também sou favorável às criminalizações dos bullyings. Contudo, eticidades, moralidades e bens comuns (comunidades) em excesso são eticismos, moralismos ou comunismos. Então, nem tudo deve ser estatizado, da mesma forma que nem tudo deve ser privatizado.

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  4. Gloria Brito
    12 12America/Belem janeiro 12America/Belem 2016

    Sou de São Paulo e estou vendo agora umas correntes frouxas que se dizem do nosso lado (de direita) aí no Pará. Não estou entendendo… Não vejo gente assim ganhar força entre os conservadores em SP… Quer dizer, tem paulista no MBL, mas os conservadores daqui, pelo menos pelo o que eu notei até agora, ja recusaram as demagogias deles. Bem, talvez vocês não tenham força nenhuma mesmo aí. Deixa eu dizer… Não sei se seria a favor da intervenção militar agora, mas confio muito mais nos “militaristas” do que nos frouxos.

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Publicado às 10 10America/Belem julho 10America/Belem 2015 por em Atualidade, Brasil, Conservadorismo, Estado, Política e marcado , , , , , , , , .
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