Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Mediocrólogos

plinio correa de oliveiraPor Plínio Corrêa de Oliveira.

“Ao medíocre agradam os escritores que não dizem sim nem não sobre qualquer assunto, que nada afirmam, e que tratam com respeito todas as opiniões contraditórias.

“Toda afirmação parece-lhe insolente, pois exclui a proposição contrária. Mas se alguém é um pouco amigo e um pouco inimigo de todas as coisas, o medíocre o considerará sábio e reservado, lhe admirará a delicadeza de pensamento e lhe gabará o talento das transições e dos matizes.

“Para escapar à censura de intolerante, feita pelo medíocre a todos os que pensam fortemente, seria preciso refugiar-se na dúvida absoluta; e mesmo em tal caso, seria preciso não chamar a dúvida pelo seu nome. É necessário formulá-la em termos de opinião modesta, que reserva os direitos da opinião oposta, toma ares de dizer qualquer coisa e não diz coisa alguma. É preciso acrescentar a cada frase uma perífrase açucarada: “parece que”, “eu ousaria dizer que”, “se é lícito exprimir-se assim”.

“Resta ao ativista da mediocridade, quando age, uma preocupação: é o medo de se comprometer. Assim, ele exprime alguns pensamentos roubados ao Conselheiro Acácio (1), com a reserva, a timidez, a prudência de um homem receoso de que suas palavras, por demais ousadas, abalem o mundo.

“Ao julgar um livro, a primeira palavra de um homem medíocre se refere sempre a um pormenor de estilo. “É bem escrito”, diz ele, quando o estilo é corrente, tépido, incolor, tímido. “Está mal escrito”, afirma ele, quando a vida circula em uma obra, quando o autor vai criando para si uma linguagem à medida que fala, quando exprime seus pensamentos com esse desembaraço ousado que é a franqueza do escritor. O medíocre detesta os livros que obrigam a refletir. Agradam-lhe os livros parecidos a todos os outros, os que se ajustam a seus hábitos, que não fazem estalar seu molde, que cabem no ambiente dele, que se conhecem de cor antes de se ter lido, porque tais livros se parecem com todos os outros que se leu desde que se aprendeu a ler”.

* * *

“O homem medíocre diz que há algo de bom e de mau em todas as coisas, que é preciso não ser absoluto em seus julgamento etc.”

* * *

“Se alguém afirma fortemente a verdade, o medíocre o acusará de excesso de confiança em si. Ele, que tem tanto orgulho, não sabe o que o orgulho é. Ele é modesto e orgulhoso, dócil em face de Marx (2) e revoltado contra a Igreja. Seu lema é o grito de Joab: ‘Sou audacioso só contra Deus’.”

* * *

“O medíocre, em seu temor das coisas superiores, afirma prezar antes de tudo o bom senso; mas ele não sabe o que seja o bom senso. Pois por essas palavras ele entende a negação de tudo quanto é grande”.

* * *

“O homem inteligente eleva a fronte para admirar e para adorar; o homem medíocre eleva a fronte para caçoar; parece-lhe ridículo tudo que está acima dele, e o infinito lhe parece o vazio”.

* * *

Para sentir todo o sabor destas frases, seria preciso lê-las no original francês. Escreveu-as um dos heróis do catolicismo militante na França, Ernest Hello (1828-1885).

Ao percorrer essas observações sobre o medíocre, o leitor terá talvez sorrido maliciosamente, mais de uma vez, por sentir quanto esta ou aquela se aplica a tais ou tais outros personagens da vida privada, e muito especialmente da vida pública do Brasil contemporâneo.

Fala-se tanto em conscientização. Tem o nosso povo consciência inteira da mediocridade de tantos de nossos “astros”?

Ora, isto me parece uma obra de salvação nacional. Explico-me.

Tendo viajado bastante, afirmo, sem qualquer ufanismo idiota, que nosso povo é dos mais inteligentes da Terra. Entretanto, vejo-o a cambalear indeciso, em meio ao terrível cipoal de seus problemas atuais. Quase tudo parece ir afundando gradualmente. E muitas coisas ali e acolá ameaçam seriamente desabar de um momento para outro.

Falta na vida pública do País o número suficiente de homens capacitados para resolver tal situação. E, sobretudo, os que há, vejo-os esparsos, desarticulados, aturdidos. Em suma, homens, cujo consenso ainda poderia salvar tudo, aí estão sem salvar nada.

E por que são eles assim? Porque os legítimos anseios de paz experimentados pelos homens quando do último pós-guerra começaram a ser desviados, já por ocasião de Yalta, para o pantanal de um pacifismo invertebrado e utópico. Pacifismo esse que teve na política exterior de Carter, como em múltiplas modalidades de “détente”, de “Ostpolitik” e de ecumenismo, a sua expressão mais exata.

Nada afirmar, nada negar, por quase nenhum direito reclamar, contra nenhuma obscenidade protestar, enfim arvorar a moderação como regra suprema do pensar, condição forçosa do querer, do sentir e do agir; tudo isto atirou o Ocidente no pantanal da mediocridade. E, com o Ocidente, o povo brasileiro, que por isto tateia lamentavelmente em plena crise, sem embargo da esplêndida inteligência que Deus lhe deu.

Enquanto isto, os dirigentes da outra parte do mundo se riem dessa nossa imensa miséria, que também dentro e fora do Brasil progride sem cessar um instante.

Sua sede é o Kremlin…

Tenho lido acerca de especialistas em Kremlin: kremlinólogos. Quando bem orientados, são de uma indiscutível utilidade.

Mas falta-nos uma outra categoria de especialistas: os mediocrólogos. O que de definitivo se pode obter combatendo o Kremlin, reduzindo-lhe de alguns centímetros ou de alguns metros a orgulhosa torre de comando, se o adversário dele, o Ocidente, timbra em se mediocrizar cada vez mais? Nessa caminhada para baixo, não é verdade que chegaremos muitíssimo antes do que o Kremlin, ao ponto zero?

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Publicado às 16 16America/Belem abril 16America/Belem 2015 por em Brasil, Cultura, Plínio Corrêa de Oliveira e marcado , , , .
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