Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A era das tiranias

espadaAs ideias de List, Marx e Nietzsche anunciavam um mundo novo, liberto dos preconceitos antiquados da “velha Europa”. Essa “libertação” na verdade conduziu — contra todas as expectativas da época — a uma guerra total e à emergência do que Élie Halévy designaria, já em 1929, por “era das tiranias”

Por João Carlos Espada.

AI Guerra Mundial foi um sismo, nas palavras de Élie Halévy, um sismo que destruiu a velha Europa histórica. Agora, ainda mais claramente do que antes, podemos ver a guerra como prelúdio da era totalitária. Esta primeira guerra deixou um legado de violência autorizada; inflamou o nacionalismo; estabeleceu um socialismo de estado baseado na guerra; e exacerbou quase todos os conflitos preexistentes na Europa. (…) Na realidade, a guerra criou as condições para o bolchevismo e o fascismo.”

Estas são as famosas palavras do historiador americano de origem alemã Fritz Stern, sobre a I Guerra Mundial,
escritas em 1955. Foram retomadas na quinta-feira, em Lisboa, por Margaret MacMillan, directora do St. Antony’s
College, Oxford, na palestra anual Alexis de Tocqueville, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica
Portuguesa.

A tragédia europeia da I Guerra é também o tema central da última edição de Nova Cidadania (N.º 55, Primavera de
2015). A revista reproduz o epílogo do livro de Margaret MacMillan, A Guerra Que Acabou com a Paz (Temas & Debates, 2014). Segue-se um trabalho de John Maurer, do Naval War College de Newport (EUA), sobre o esforço de Churchill (então ministro da Marinha) para travar a corrida armamentista entre a Alemanha e a Inglaterra, antes do deflagrar do conflito. Finalmente, um trabalho de Manuel Braga da Cruz analisa as discutíveis motivações que terão conduzido à entrada de Portugal na guerra.

Na palestra de Lisboa, Margaret MacMillan sublinhou a surpresa incrédula com que a Europa mergulhou numa
guerra que pôs fi m a cem anos de paz e crescimento económico ocorridos entre o fim das guerras napoleónicas (1815) e o início da I Guerra (1914) — um período por vezes designado por Pax Britannica. Em vez de procurar os países “culpados” pela I Guerra, argumentou MacMillan, devemos sobretudo recordar as ideias políticas que propiciaram os comportamentos que conduziram à guerra.

Como tenho argumentado neste espaço, julgo que essas ideias exprimiam sobretudo uma reacção contra a atmosfera
moral e cultural que presidira aos anteriores cem anos de paz. Podemos talvez agrupar essas ideias reaccionárias/revolucionárias em três categorias principais: (1) o proteccionismo nacionalista; (2) a ideologia da luta de classes; (3) o niilismo anticristão. Friedrich List (1789-1846), Karl Marx (1818- 1883) e Friedrich Nietzsche (1844-1900) foram alguns dos autores, entre muitos outros, que mais se celebrizaram na defesa dessas ideias.

List, de longe o mais moderado, publicou em 1841 um best-seller europeu que deu pelo nome de O Sistema Nacional de Economia Política. Aí criticou aquilo que designou por “a escola”, referindo-se ao ideário do comércio livre e do governo imparcial, limitado pela lei, que tinha sido defendido por Adam Smith em A Riqueza das Nações (1776). Em alternativa, defendeu que os governos nacionais deviam proteger e incentivar sectores económicos específicos,
promovendo uma espécie de “guerra económica” pela supremacia nacional. Ainda que não intencionalmente, as ideias de List promoveram um nacionalismo agressivo na Europa, onde antes tinham sido dominantes as ideias do comércio livre.

Karl Marx desencadeou um ataque contra o Estado de direito e o sistema parlamentar, acusando-os de servir uma
classe economicamente dominante. Segundo ele, os princípios da igualdade perante a lei, da separação de poderes e do governo que responde ao Parlamento eram pura hipocrisia. No seu lugar, colocou a crua guerra pelo poder nu, absoluto e arbitrário, sem limites legais, em nome dos interesses dos pobres, liderados pelo proletariado e pelo seu partido de vanguarda, o partido comunista. Onde Marx e, em grau muito menor, List tinham instalado o relativismo dos meios ao serviço de fi ns considerados “bons”, Nietzsche instalou o relativismo absoluto — de meios e de fins. Denunciando o “moralismo inglês de lojistas e comerciantes”, pregou uma nova “moralidade”, que devia estar “para
além do bem e do mal”: a chamada “vontade de poder”. O alvo central dos seus ataques foi a mensagem moral cristã — que ao longo dos séculos inspirara a civilização europeia a conter o arbítrio da vontade sem entraves, sob o imperativo moral do sentido de dever, fundado na lei natural, à qual todos os poderes deviam estar submetidos.

As ideias de List, Marx e Nietzsche anunciavam um mundo novo, liberto dos preconceitos antiquados da “velha
Europa”. Essa “libertação” na verdade conduziu — contra todas as expectativas da época — a uma guerra total e à emergência do que Élie Halévy designaria, já em 1929, por “era das tiranias”.

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Publicado às 26 26America/Belem março 26America/Belem 2015 por em Civilização, Coletivismo, Democracia, Internacional, João Carlos Espada, Liberdade, Política e marcado , , , , .
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