Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Carnaval de hoje – há 50 anos já se podia prever

História do CarnavalPor Plínio Corrêa de Oliveira.

FANADAS, as flores que ornavam o salão carnavalesco caíram no chão. Pelo chão, também, rolavam algumas máscaras amarrotadas. Alguns botões de fantasia, desgarrados das “vestes” que ornamentavam. Um salto de sapato que se descolara, e pouco mais além dois “tênis” que o uso, bruto e contínuo do carnaval tornara prematuramente velhos. Garrafas, vazias umas, semivazias outras. Cacos de alguns copos, lixo das mais variadas espécies, cores e mal cheiros. Era esse o quadro apresentado pelo salão onde, na véspera ainda, se “pulara” o carnaval orgíaco.

Qual é este-salão? Onde se localizava? Qual o nível econômico-social dos que nele haviam “pulado”? É um salão qualquer, situado num ponto qualquer das continentais vastidões do Brasil, onde haviam “pulado” carnavalescos de um nível social ou econômico qualquer, que tanto poderia ter sido do maior luxo quanto da mais vulgar gafieira. Porque tudo está homogeneizado, reduzido ao mais baixo padrão que as circunstâncias hoje em dia comportem. Em suma, tudo está nivelado sob o rolo compressor do inflexível igualitarismo moderno.

Para simplificar, bastaria mencionar o mais importante dos níveis que neste artigo mantive em silêncio até aqui: é o nível moral, que a televisão vem reduzindo gradualmente à última expressão, tanto nas favelas ou nos tugúrios, quanto nas casas e nos apartamentos do maior luxo… ressalva feita às “raras e honrosas exceções” de estilo.

Se o carnaval terminou na quarta-feira de cinzas, dia 8 de fevereiro, por que só hoje, quando tudo que a ele se refere saiu inteiramente da crista da atualidade, publico algumas reflexões sobre o assunto? Do salão-tipo acima descrito, todos os entulhos já foram varridos, e toda a varredura já foi queimada. Acabou-se o que alguns ainda teimam em chamar de feeria carnavalesca, a qual se transforma em pesadelo à medida que o carnaval vai chegando ao fim. Já não é, pois, hora de pensar e de escrever sobre o carnaval. E é este o momento que escolho para tratar dele? Sim. Precisamente sim. Muito precisamente sim. Pois o carnaval é um grande ato de loucura coletiva. E com ela se passa o mesmo do que com as loucuras individuais: é só quando cessam, e depois delas intercorre um lapso de tempo, que sobre tais loucuras podem refletir idoneamente os loucos.

Pensará algum leitor que, daqui por diante, não farei outra coisa senão alinhar alguns lugares comuns sobre a loucura carnavalesca, tão envelhecidos quanto o lixo carnavalesco de cada quarta-feira de cinzas.

Engana-se, entretanto, o leitor. Desejo pôr em realce, neste artigo, precisamente um aspecto lúcido e até “profético”, no sentido amplo (até o exagero que se dá hoje ao termo), do carnaval. Sim, este último tem qualquer coisa de sério. E até de terrivelmente sério. É seu aspecto de antevisão do futuro. Momo, ou o rei-momo (do qual se fala cada vez menos, nesta época intolerante para com os reis: talvez fosse melhor dizer-se “o presidente momo”, por várias razões, inclusive porque o número de momos não cessa de crescer entre os Presidentes), analisado com o recuo histórico dos anos, vai assumindo cada vez mais o aspecto de seguro previsor do futuro: cada carnaval aparece como uma “loucura” quando comparada com a normalidade da vida no ano em que é festejado. Mas, ao mesmo tempo, é uma antevisão do que será a normalidade no ano em que esta última tenha caído ao nível do que há dez ou há vinte anos se tinha por carnaval e loucura.

Um amigo, lúcido e penetrante observador das coisas de ontem como das de hoje, me deu a ler, há dias, um recorte publicado no ano de 1944 e referente ao carnaval de então. Eis alguns tópicos dele:

carnival“Cada vez mais a invasão torrencial das idéias ditas modernas destruía princípios, aluía hábitos, deformava sentimentos e desorientava as mentalidades. Cada ano representava um degrau que se descia na escala da moralidade. E, por isso, cada carnaval seguinte trazia consigo sintomas mais característicos de decadência moral. Todos os instintos, todos os atrevimentos, todas as imprudências, todas as facilidades e desregramentos, cada vez mais acesos e mais mal contidos no correr do ano, explodiam durante o carnaval com intensidade maior. Os três dias de carnaval passaram a ser a válvula por onde passava a chama de um incêndio que crescia sob a aparente normalidade da vida cotidiana. 0 carnaval perdeu assim sua nota familiar. Ao lado do corso, outras festas apareceram. Mais “decididas”, mais “radicais”. Por que lembrar tudo isto? Chegamos por fim a este resultado: antigamente o carnaval era um desabafo. Mas desabafo supõe abafamento. A vida se transformou em um carnaval: o carnaval perdeu sua razão de viver. (…)

“Todo o mundo, nestes dias, foge para as praias e para os campos. Para quê? Para descansar? Sim. Só para isto? Talvez não. Com efeito, chegados às praias, aos campos, o que fazem os excursionistas? Outro desabafo. Desabafam-se da civilização. Despem tudo quanto podem despir. Falemos só dos homens: peitos peludos à mostra, braços felpudos cobertos apenas pelos poucos centímetros de uma manguinha infantil, camisão de tecido poroso e cores de lingerie de crianças de sete, usado todo ele indecentemente de fora e às vezes de calça curta e meia curta, ei-los em pleno desabafo, rubicundos e pletóricos meninões de todas as idades – 20, 30, 50 anos – e de todas as profissões, desde o banqueiro, o industrial ou o comerciante até o modesto funcionário, passando pela classe intermediária dos doutores e professores. Tudo se desabafa, tudo se despe, tudo toma roupas com corte de traje proletário ou de mendigo (mas com que fazendas exorbitantemente caras!), tudo toma ares de poviléu, quebram-se as últimas cerimônias, desfazem-se os últimos recatos, dissolvem-se as últimas dignidades, e, terminados os dias de excursão, todo mundo volta para a vida de todos os dias um pouco mais inimigo da roupa, da linha, da cerimônia, do que fôra. É o fruto deste outro gênero de desabafo. Outrora, o carnaval era um desabafo da imoralidade. Agora, as excursões marítimas e silvestres servem para desabafar as regras mais elementares do bom tom. Daqui a 30 anos, é provável que o desabafo consista em usar só uma tanga, não limpar mais os ouvidos nem o nariz, nem as unhas, cuspir no chão, dançar samba descalço nos matos. Haverá tabas luxuosas, com diárias de 700 a 800 cruzeiros. Cada pena de tanga custará 100 cruzeiros, o que não será mal porque as tangas não terão muitas penas. Uma tanga modelo cuja originalidade consistirá em ser de penas de pássaro de vários países, custará alguns dez mil cruzeiros.

“Exagero, dir-se-á. Há 30 anos, havia uns catões que prediziam em que charco haveríamos de parar. E havia também uns toleirões que respondiam ‘exagero’. Os exageros não estavam nos profetas, mas nos acontecimentos que superaram as profecias”.

Tudo isto foi previsto e publicado em 1944. Há cerca de meio século, pois.

0 jornal que publicou – “0 Legionário” – era um simples semanário, pouco conhecido do grande público, se bem que gozando de grande notoriedade nos amplos, bem coordenados e poderosos meios católicos: “quantum mutatus ab illo” (quão mudados de então para cá – Virgílio, Eneida, Livro II, 274). 0 trecho transcrito era um tópico da seção “7 Dias em Revista”. E seu autor era… eu. Eu, sim, que deste artigo me esquecera completamente.

Assim é que cada carnaval, bem analisado, isto é, quando passado inteiramente o vento de loucura que nele soprou, se manifesta uma previsão de como será a decadência moral e global – pois as decadências morais contêm em germe todas as outras decadências – que ocorrerá nos anos vindouros. A tal ponto que a loucura de hoje seria senso comum, bom senso, normalidade de amanhã.

Recolhemos pois alguns traços do carnaval de 1989.

“‘Marginais do mundo inteiro, uni-vos’. Este poderia ter sido o grito de guerra da Beija-Flor, na manhã de terça-feira, quando o carnavalesco Joãozinho Trinta trouxe para o Sambódromo o clima que antecedeu a Revolução Francesa há 200 anos” (0 Estado de São Paulo, 9-2-89).

“Com o enredo ‘Ratos e urubus larguem a minha fantasia’, a escola de Joãozinho Trinta trouxe para a pista hordas de mendigos, prostitutas, bêbados e loucos, trouxe fantasias coloridas, carros feitos de ferro-velho e restos de lixo, uma empolgação contagiante dos passistas (…). Sem idéias não se vence um carnaval. (…) Foi assim que o lixo virou luxo na escola de Nilópolis, e bichos feios como ratos e urubus viraram mais uma página da história do carnaval” (Jornal do Brasil, 8-2-89).

“A cena final do desfile da Beija-Flor. (…) Um tipo de deusa pagã saída do mato e dos morros, nua e crua. Descalça. Sem plumas (…). E aquela pagã abre os braços como o Cristo sobre a Guanabara. E lança beijos pra multidão” (Folha de S. Paulo, 8-2-89).

“A Mocidade Independente de Padre Miguel levou para a Marquês de Sapucaí (Rio de janeiro) mulheres nuas com os corpos pintados por artistas plásticos. Mas a União da Ilha ousou mais: com o enredo ‘Festa Profana’, apresentou a escultora (Fulana de Tal), de 36 anos, totalmente nua, representando Afrodite, a deusa do Amor” (0 Globo, 7-2-89).

“Em tempo: a nudez dos homens nos desfiles está substituindo a das mulheres” (0 Globo, 7-2-89).

“A característica do bloco (das Piranhas, Rio de janeiro) é a irreverência e malícia dos seus componentes – homens travestidos de mulher – que utilizam roupas caricatas, perucas e muita maquilagem feminina” (O Globo, 5-2-89).

Em Santo André, no desfile da Banda da Baixaria, “os travestis, com os grossos lábios pintados de baton, beijaram a testa de todo homem calvo que aparecia pelo caminho” (Diário do Grande ABC, 5-2-89).

“Apesar do nome, as ‘Virgens’ (de Olinda, Pernambuco) não admitem a presença de mulheres entre os seus cordões. Ao todo são 200 figurantes, formados por homens solteiros, pais de família e até avós. Eles desfilam vestidos de mulheres” (Jornal da Tarde, 31-1-89).

“Serpentinas e confetes jogados do primeiro andar, a orquestra do Bloco da Saudade tocando frevo no pátio externo enquanto no térreo a comunhão era dada a cerca de dois mil fiéis. Esta combinação de sacro e profano ocorreu ontem, durante missa celebrada na igreja das Fronteiras, em Recife, em comemoração aos 80 anos de Dom Helder Câmara, Arcebispo Emérito de Olinda e Recife (…). Dom Helder, que chorou de emoção, misturou-se aos integrantes do bloco carnavalesco logo que a orquestra tocou o frevo ‘Valores do Passado”‘ (“O Globo”, 8-2-89).

No dia em que tudo isto for normalidade e bom senso, em que abismos terá caído o mundo? E o carnaval destes dias, que outros horrores pressagiará?

Ou esta marcha para o abismo será cortada pelo castigo prenunciado por Nossa Senhora em Fátima para a humanidade decadente: “Deus (…) vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja (…). A Rússia (…) espalhará seus erros pelo mundo (…); várias nações serão aniquiladas”?

E, em um mundo regenerado, haverá “novos céus e novas terras”.

Ou, enfim, se pode esperar uma solução intermediária, com a hipótese de que um Clero estuante de fé e de amor de Deus, austero e desapegado, pregue ao mundo a regeneração moral que evitará o castigo previsto? Quanto desejáramos que esta fosse a hipótese vitoriosa! Mas forçoso é reconhecer que não é neste sentido que os acontecimentos parecem correr. A julgar pelas aparências, se Nossa Senhora de Fátima não intervier nos acontecimentos do mundo, a caminhada para o futuro não parece indicada por esses sacerdotes exímios, mas por esses D. Helder, revestido dos paramentos da Missa que celebrara, circundado pelos figurantes do cordão Bloco da Saudade, e com os braços levantados para exprimir sua alegre e eufórica consonância, enquanto se ouvia o frevo “Valores do Passado”…

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Publicado às 17 17America/Belem fevereiro 17America/Belem 2015 por em Brasil, Civilização, Moral, Plínio Corrêa de Oliveira e marcado , , .
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