Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Cultos e grossos, civilizados e bárbaros

flavio morgenPor Flávio Morgenstern.

Urge também entender exatamente o que é “cultura”, se se está tão preocupado em proteger a “cultura” brasileira. O Gravataí já explicou um pouco – vale a pena ler sobretudo o fim. Mas como já disse a Letícia Coelho, o pessoal confunde cultura brasileira com erudição em tempo integral.

“Cultura” vem do latim cultus (ignore a etimologia de botequim do Gravz ali em cima), e está plenamente ligada à terra. A cultura é regional até em seu signo – diz respeito ao que é típico daquele povo e de mais nenhum outro. Já a civilização vem do latim civis, e fala do cidadão da urbe, aquele que segue as leis da cidade – e tem as inúmeras vantagens da cidade a protegê-lo (recentemente saiu no Brasil o excepcional livro A Condição Urbana: A cidade na era da globalização, pela Estação Liberdade, em que você perceberá como deve mais á cidade do que jamais sonhou). A diferença que mais salta à vista é como a cultura soa algo quase campestre, e a civilização é urbana por definição. Nem o mais culto fazendeiro tem muito de civilizado a seu redor quanto alguém de classe média numa área urbana, enquanto um cientista, engenheiro ou mesmo filósofo não têm nenhuma imposição ontológica de respeitar tradições e também abrir a porta do carro para suas esposas e amigas.

A cultura é o legado de um povo. Claro que, assim como “arte”, gostamos de usar o próprio valor que o signo tem (afinal, “cultura” e “arte” são coisas admiráveis) para indicar nosso maravilhamento perante coisas grandiosas – e, assim, misturamos “cultura” com “alta cultura”, e “arte” com saber preparar bem cocaína, como se vê em Breaking Bad. Faz parte da cultura brasileira, além de questionar a própria cultura verborragicamente e só lutar de galera e em número maior (do contrário, já teríamos declarado guerra aos EUA), não aceitar críticas, ter um auto-humor entre o zero absoluto e a negatividade do nanismo peniano, ser vingativo e preferir sempre estar na merda e ser estável do que arriscar-se até a ficar rico.

Assim como a cultura árabe é conhecida pela sua hospitalidade, os ingleses por serem reservados, os irlandeses por serem barulhentos e beberrões, não há nada essencialmente árabe em tratar bem um hóspede, essencialmente inglês na reserva, comedimento e desconfiança, nem essencialmente irlandês em encher os cornos e falar alto. No entanto, a civilização, sendo urbana por definição, é claramente universal e cosmopolita. Aliás, é mais fácil encontrar semelhanças entre Berlim e Tokyo, dois grandes centros urbanos, do que entre Wildpoldsried e Kitakyushu, pequenas cidades de cada país famosas por seus modelos de energia verde.

É uma importante distinção trazida por Terry Eagleton, em seu recente O debate sobre Deus, onde relembra esses conceitos quase sempre confundidos quando se tenta discutir religião à luz do legado da religião e da ciência para o mundo. O medo aqui é o mesmo: aparentemente, Michel Teló está sendo um dos “legados” culturais brasileiros à humanidade – e isso ofende qualquer brasileiro que ache Beethoven genial, embora não saiba nem em que século ele viveu. Aliás, a cultura musical brasileira poderia incluir Für Elise, do Beethoven, por ser a famosa “musiquinha do gás”. Mas quando a Liquigas troca porISSO, ninguém reclama.

Ora, cultura, o próprio nome latino diz, é cultivação. Também se cultivam ídolos. Também se cultua asssassinos. Para evitar ter de conhecer um cânone literário e cultural de respeito (e supondo ser ele uma imposição “de cima”, quando é, na verdade, o maior legado democrático encarar a formação de um cânone com obras que qualquer um pode conhecer em livros de bolso que custam às vezes R$10 no metrô, tornando todos os seus leitores mais parecidos), inventam um tal de “multiculturalismo”, bastante pregados por aqueles que reclamam dos valores “machistas, europocêntricos, imperialistas, colonizantes e racistas” do que tradicionalmente se cultua. Terry Eagleton, famoso marxista, dá o tom:

“Para alguns culturalistas é possível justificar os próprios atos porque a cultura os pratica. As próprias culturas são aqui encaradas como moralmente neutras ou positivas, o que é verdade quando se pensa na Islândia, na tribo azande ou na comunidade marítima, mas não quando o que se tem em mente são os Hell’s Angels, os neofascistas ou os cientologistas.”

A cultura brasileira implica tanto Michel Teló quanto Mário Ferreira dos Santos, um dos melhores filósofos da Humanidade (com H maisculíssimo). Cultura, Eagleton mesmo diz, é “pedra bruta”. Não dá pra discutir o que é, apenas aceitá-la. Isso não implica, por exemplo, que não se pode questioná-la e deixar um melhor legado cultural aos nossos filhos e netos em nossa curta passagem por este Vale de Lágrimas: por sinal, novamente citando Roger Kimball, o traço distintivo do que é chamado “cultura ocidental” é a sua auto-crítica. O Ocidente deve mais a Sócrates e seu método irônico de questionamento e dúvida de si próprio do que a Homero e seus mitos. Por sinal, os que se julgam honrados discípulos da ciência e da razão tendem a analisar a própria tradição científica e racional com olhos mitõmanos, encarando-os como verdade absoluta, ou com enfastiado desdém… pela ironia e auto-crítica dos antigos.

Vide este tweet hodierno do Gravz: “Essa PROFUSÃO de máquinas digitais e celulares-com-foto criou a fusão de CAIU NA WEB e CLÃ DA PAREDE PODRE.” O que isso quer dizer? Que o brasileiro tem, como economia emergente, acesso à civilização: à ciência, tecnologia, sistema jurídico etc. Mas, sem cultura, como explicou Leandro Narloch em conversa recente, toda a riqueza nascente no Brasil só produz pobre com carro tunado – o sistema jurídico brasileiro, por mais que copiado dos melhores países, sempre coloca umas poucas linhas de diferença (o ingrediente mágico, a cultura nacional, o “jeitinho brasileiro”) que conseguem desmorar todo o edifício e minar seu funcionamento.

É uma piada constante na Europa dizer que franceses e italianos, com seu Iluminismo e Renascimento, produziram o melhor da civilização – mas ainda não sabem respeitar suas mulheres e manter suas cidades limpas. A Alemanha, que só produziu o etéreo e rupestre Romantismo, não é famosa pelos seus grandes avanços no quesito civilização. Mas, um alemão perguntado sobre isso, sempre responderá: Aber wir haben Kultur!

O Brasil é histérico. A Itália, maníaco-depressiva. A Inglaterra e os EUA, obsessivos-compulsivos. O Japão, esquizóide. Não faz parte da cultura brasileira alguma seqüela de ironia ou auto-crítica, por isso acho bom excluir sumariamente o Brasil do conceito de “Ocidente”. Só que assim como faz parte da cultura americana tanto Thomas Jefferson e Ernest Hemingway como o Tea Party e o N’Sync, faz parte do legado brasileiro tanto Joaquim Nabuco e Hermeto Pascoal quanto Michel Teló.

Quando uma notícia como a da Época engatilha uma chorumela coletiva digna dos norte-coreanos pranteando Kim Jong-il, na verdade, olhando pouco a si próprios, os indignados de plantão com a notícia não percebem que choram pelo pouco contato queeles próprios têm com a alta cultura de seu país para estarem acima das massas – e serem algo muito diferente de ricos americanos cujas filhas dançam Britney Spears e votam em lunáticos criacionistas.

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Publicado às 10 10America/Belem fevereiro 10America/Belem 2015 por em Arte, Atualidade, Brasil, Cultura, Entretenimento, Flavio Morgenstern e marcado , , , .
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