Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Sete equívocos sobre a educação

maritainPor Jacques Maritain.

Traduzido e publicado por Memória e Identidade.

A tarefa principal da Educação é dirigir o desenvolvimento dinâmico que faz um homem ser homem. O homem não pode progredir, dos pontos de vista intelectual e moral, na vida específica que lhe é própria, se não for auxiliado pela experiência coletiva das gerações procedentes.

Educar para o meio social é o segundo fim.

Os erros:

Primeiro erro – Ignorância dos fins

Educação é arte que pertence ao domínio da moral. A excelência dos meios pode ser perigosa. Sendo os meios tão bons, somos levados a perder de vista os fins.

Segundo erro – Ideias falsas concernentes aos fins

A tarefa da educação é ajudar a guiar a criança à realização humana. Portanto, educação não pode furtar-se ao empreendimento filosófico que pergunta o que é ser homem e qual é o seu fim.

Uma concepção puramente científica da educação ignora o “ser enquanto ser”.

Se propusermos uma educação baseada numa concepção puramente científica do homem, quando tivermos de responder às questões sobre a natureza e o destino do homem, seria preciso extrair da ciência uma espécie de metafísica inteiramente contrária à sua estrutura típica. A educação perde o mistério da significação ontológica do homem e este torna-se um animal adestrado em proveito do Estado.

A concepção integral do homem é filosófica e religiosa. Filosófica, porque tem por objeto a natureza ou essência do homem; religiosa, por causa do modo de existir da natureza humana vocacionada e provocada em relação a Deus. Quando é dito que a pessoa é um todo, um universo em si mesma, dizemos que ela está em relação direta com o reino do ser, da verdade, da bondade e da beleza – isto é, com Deus. Por amor, dedica-se livremente a seres que são para ele como outros “eus”.

Terceiro erro – Pragmatismo

A vida, para ser digna, existe para um fim. A contemplação e a perfeição de si mesmos, nas quais a existência humana aspira a florescer, escapam ao horizonte do espírito pragmático.

Quarto erro – Sociologismo

O acondicionamento social não é a regra suprema da educação. A essência da educação é formar um homem – e por aí, preparar um cidadão. A educação para a comunidade requer a educação para a pessoa. Infeliz é o jovem que não conhece os prazeres do espírito e não se alegra no saber e na beleza. A concepção pragmática e sociológica subordina e escraviza a educação às tendências que se desenvolvem na vida coletiva da sociedade.

Quinto erro – Especialismo intelectual

A suprema realização da educação não é a especialização científica e técnica. Embora exigida pela vida moderna, ela deve ser compensada, sobretudo na juventude, por uma formação geral intensa. O animal é um especialista perfeito. Ele fixa toda a sua capacidade de aprender numa determinada tarefa a ser executada. O programa educacional que visa formar especialistas, incapazes de apreciar outras matérias além de sua competência, tem como resultado a animalização progressiva da mente e da vida humana. Isso prejudica não apenas o tempo profissional dos homens, mas também o tempo livre, cada vez mais ocupado por divertimentos sociais medíocres e, o que é mais grave, por uma religiosidade de sentimentos vagos, sem conteúdo lógico e de realidade.

A vida da comunidade corre riscos graves com o “especialismo”, porque a disposição das atividades humanas em compartimentos especializados torna a atividade política exclusiva aos tecnocratas do Estado que, por sua vez, desconhecem as riquezas espirituais que garantem a consistência do “governo do povo, pelo povo e para o povo”.

A educação, constituída por regras imperativas de algum sistema de orientação profissional, tornar-se-ia um processo de diferenciação de abelhas na colmeia humana. Uma concepção democrática da vida exige educação liberal para todos, porque mesmo para o sucesso das atividades industriais, a educação que libera e alarga a mente é mais importante do que a especialização técnica.

Sexto erro: Voluntarismo

A tendência voluntarista desenvolvida por Shopenhauer submete a inteligência à vontade, recorrendo às virtudes das forças irracionais. O mérito das melhores e mais perfeitas formas de voluntarismo no campo ideológico foi chamar a atenção para a importância essencial dos atos volitivos e para a primazia da moralidade, da virtude e da generosidade na formação do homem. De fato, antes de ser erudito, é importante ser reto. Porém, as realizações pedagógicas do voluntarismo foram decepcionantes do ponto de vista do bem e um sucesso do ponto de vista do mal.

Escolas e organizações da juventude nazista arruinaram senso de verdade nos espíritos, submetendo a inteligência aos desejos do Estado. Por outro lado, nos países democráticos, a pedagogia voluntarista pode ser descrita como esforço para compensar inconveniências do mero intelectualismo por uma educação da vontade, do sentimento, da formação do caráter, etc. Porém, é fácil deformar o caráter dessa forma. O voluntarismo exagera a importância da vontade.

Mortimer Adler diz: “Assim como no domínio da política, a primazia do querer identifica a autoridade com a força, assim também no domínio do pensamento tal primazia reduz todas as coisas a opiniões arbitrárias ou a convenções acadêmicas”. Tudo depende da vontade de crer. Não há verdades primárias, mas apenas postulados e exigências da vontade para que isto ou aquilo seja tido como certo. Assim sendo, todo conhecimento repousa, em certo sentido, sobre os atos da fé, embora o único princípio de tal fé seja nossas preferências pessoais.

Acreditamos que a inteligência, em si, é mais nobre do que a vontade, pois sua vontade é mais imaterial e universal. Porém, é pela vontade, quando ela é boa, que o homem se torna bom e reto, não pela inteligência, por mais perfeita que seja. Assim, a educação completa do homem deve contribuir para que tanto a inteligência como a vontade caminhem para a sua perfeição, mas a formação da vontade é certamente mais importante que a formação do intelecto.

Sétimo erro: Tudo pode ser aprendido

Os sofistas gregos acreditavam que tudo, mesmo a virtude, pode ser adquirida mediante o ensino dos mestres e por meio de explicações científicas. O ensino da moral, no que concerne à sua base intelectual, deve ocupar importante lugar na escola e na universidade. Mas a apreciação exata dos casos práticos, que os antigos denominavam prudentia, é uma capacidade interior e vital de discernimento desenvolvida no espírito e apoiada por uma vontade bem dirigida. Também a experiência, que é um fruto incomunicável do sofrimento e da memória, não pode ser adquirida num curso. Sir Arthur Clutton-Brock diz: “A Educação deveria ensinar-nos como amar e o que deveríamos amar. Os grandes feitos da história foram obras de grandes apaixonados, dos santos, dos homens de ciência, dos artistas. O problema da civilização consiste em dar a cada homem a oportunidade de ser alguém daquelas grandes estirpes”.

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Um comentário em “Sete equívocos sobre a educação

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Publicado às 13 13America/Belem janeiro 13America/Belem 2015 por em Educação, Jacques Maritain e marcado , .
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