Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

“O verdadeiro Cristo é Marx”

nelson rodriguesPor Nelson Rodrigues.

De vez em quando, um desses fumantes me diz: — “Marx é maior do que Cristo”. E um outro viciado jurou-me: — “O verdadeiro Cristo é Marx”. Ambos usavam a mesma ênfase alucinatória. Bem os entendo. O Brasil atual é um pouco a Velha China. Sabemos o que foi, historicamente, para o antigo chinês, o papel do ópio. Houve uma espantosa deliqüescência de valores. O vício maravilhoso destruía o sentimento de terra, de nação, de história, de família. Tudo apodrecia no êxtase supremo. (Mas a China não pode viver sem ópio. Hoje o ópio, o sonho, o delírio é Mao Tsé-tung.)

Julgo perceber uma certa semelhança entre o aviltamento da China do ópio e a atitude de certas áreas ideológicas do Brasil. Procurem me entender. Fumamos o ópio marxista. Muito bem. E, na fumaça leve e encantada que sopramos, não aparece a silhueta do Brasil. É cada vez mais cruel a distância entre as esquerdas e o Brasil. De vez em quando, vejo muros pichados com vivas a Cuba. Eis o que me pergunto, gelado de pavor: — “Vivas a Cuba e não ao Brasil?”. Nunca, até hoje, se sujou um muro brasileiro com um honesto e desesperado viva ao Brasil.

Ainda ontem recebi um telefonema patético. Era uma estudante da PUC. Não fez nenhum mistério: — “Sou marxista”. Perguntei, risonhamente: — “Ah, você também gosta de ópio?”. Ela não entendeu. Mas, quando falou em “o jovem”, fui taxativo. Expliquei o meu ponto de vista. Para mim, “o jovem” é tão falso, tão irreal como “o artista”, “o judeu”, “o negro” etc. etc. Mas ela queria falar do Vietnã, de Cuba, da China, da Rússia e, para xingar, dos Estados Unidos.

Com relativa paciência, fiz-lhe ver a sua confusão geográfica. Isto aqui é o Brasil. E repeti: — “Ponha-se no Brasil! Ponha-se no Brasil!”. Finalmente, tomei a palavra e não a larguei mais. Disse-lhe que, no momento, só me interessa um fato: — a solidão do Brasil. Cuidar do Vietnã, de Cuba, da África, é a melhor maneira de não fazer nada, de não sair do Antonio’s, de não deixar a praia. Há todo um Brasil por fazer. E o ópio ideológico justifica e absolve a nossa deslavada ociosidade. Vamos dar vivas a Cuba e ninguém precisa mover uma palha, tirar uma cadeira do lugar. Por fim, eu estava exausto do meu próprio fervor polêmico. Furiosa, a aluna da PUC já me tratava de você. Explodiu: — “Sabe de uma coisa? Você é um velho gagá!”. Bateu com o telefone. Fiquei, por um momento, meio alado, contemplativo. Depois, me levantei. E me sentia realmente uma múmia.

(16/4/1968)

—  “O verdadeiro Cristo é Marx”, de O óbvio ululante.

Fonte: PedroSette.com

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Publicado às 11 11America/Belem dezembro 11America/Belem 2014 por em Brasil, Civilização, Democracia, Nelson Rodrigues, Política e marcado , , , .
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