Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A digna pobreza de nossos avós…

familiabrasileira

“A ruptura com a moral tradicional se tornou uma tragédia, porque abriu portas para uma liberdade irresponsável, destrutiva e deixou um vazio estrutural de moralidade”.

Por Conde Louppex de Villanueva.

Ainda me recordo o tipo de educação familiar que foi dada a meus avós e suas declarações sobre a época em que viviam. Minha avó, que nasceu numa pobreza horrenda, teve uma formação moral acima da média para nossos tempos. Na Belém dos idos de 1930, ela se deparou com uma situação familiar muito difícil: filha de retirantes nordestinos, sua mãe morreu quando era ainda criança. Seu pai, um humilde pedreiro, trabalhava o dia inteiro e não podia dar a devida atenção a filha. No entanto, ela vivia em um bairro de periferia onde toda a vizinhança era muito caridosa. Todas as famílias se conheciam e todas as meninas da rua eram amigas. Em épocas mais complicadas, minha avó, ainda menina, almoçava na casa dessas colegas, e era amparada por outras famílias.

Anos depois, com muito esforço e trabalho, uma boa parte dessas jovens melhorou de vida. Minha avó conseguiu prosperar e ter uma vida digna, sem as penúrias do passado. Impressiona-me o grau de lealdade dessas pessoas: até hoje minha avó guarda essas amizades de infância e antes de suas complicações de saúde, ela ajudava em donativos suas amigas pobres. Assisto a muitas visitas de suas amigas idosas, sempre preocupadas com a saúde dela. Infelizmente, algumas dessas amizades de sua infância já se foram. Percebo na minha avó, uma espécie de melancolia, de uma época que não volta mais.

Esse grau de irmandade só é visível quando um pouco de valores cristãos comunitários são ainda existentes no coração do povo. Minha avó sempre foi uma mulher religiosa: a idéia mesma de fé e transcendência sempre fizera parte de sua vida. Como eram religiosos, alguns católicos, outros espíritas, seus amigos e conhecidos. E havia neles uma dignidade moral raramente encontrada. A pobreza nunca serviu de justificativa para a maledicência. Entre eles, sempre existiu a idéia clara, cristalina, do que era certo e errado. Não comungavam com bandidagem, criminalidade, nada. Isso era totalmente desconhecido, senão alheio. Na pior das hipóteses, ter um filho bandido ou criminoso, era motivo de deserdar da família.

Havia um certo ar de inocência nas relações entre eles. A malícia exacerbada que se conhece nos dias de hoje, era totalmente estranha, fora do seu cotidiano. As mulheres tinham um certo ar de pureza; mães solteiras eram relativamente desconhecidas ou se existiam, eram mal vistas. Relações sexuais fora do casamento causavam escândalo. Paradoxalmente, nas famílias pobres, havia o concubinato, apesar de que a tendência era de completa recriminação social a este tipo de relacionamento e a consagração clara do casamento religioso. Da família mais pobre até as classes altas, a ética familiar era a mesma: com exceções raríssimas, as mulheres se casavam na Igreja e homens deviam se comportar com as mulheres, sob pena de uns açoites dos pais das moças. Os namoros eram policiados e os encontros entre namorados eram um tormento. Até as festas de carnaval da periferia tinham suas noções de moralidade rigorosa. Dizia-se que os incautos, os maliciosos e os baderneiros eram expulsos a pontapés nessas festas. Tirar graça com as moças das festas dava expulsão. Quase tudo era muito sutil, muito formal. E as fantasias carnavalescas, muito bem recatadas. . .

A honra era um elemento profundo na sociedade brasileira. Curiosamente, uma boa parte dos crimes era passional, relacionada à família. Casos de adultério ou mesmo ofensas morais a alguém era algo passível de morte. Neste aspecto, os códigos de conduta pareciam medievais: era quase um duelo. Entretanto, os crimes eram raríssimos. Uma história famosa na sociedade paraense, que ocorreu muito antes do nascimento da minha avó, reflete a moralidade daqueles tempos: no ano de 1900, uma senhorita humilde de 19 anos, grávida de sete meses, chamada Severa Romana, foi brutalmente assassinada a golpes de navalhada. A história é uma trama tipicamente familiar: Severa era esposa de um soldado do exército e seu marido tinha abrigado um cabo, um amigo da mesma corporação, para que se hospedasse em sua casa. Todavia, o cabo ingrato começou a assediar a esposa do soldado e recusando-se às suas investidas, a mulher foi relatar o caso ao marido. Na noite do dia 02 de julho de 1900, o cabo encontrou a esposa sozinha na casa e munido de uma navalha, tentou estuprá-la. Depois de resistir ao ataque, a mulher foi degolada com a arma branca. O crime chocou de tal maneira a sonolenta sociedade paraense, que a jovem foi elevada a uma espécie popular de “mártir da honra” católica da mulher fiel. Muitos crédulos elevaram-na como “santa”. A mulher, que não tinha onde cair morta, teve direito até a lápide perpétua com os custos pagos pela prefeitura. Porém, a pobre mulher mui provavelmente nem era batizada e não constava nenhum atributo em vida de santidade da moça. . . Recordo-me ainda dos autos do processo do crime, arquivados no Tribunal de Justiça aqui em minha cidade.

Outro caso curioso ocorreu em 1915. Um homem da alta sociedade contratou uma moça do interior para trabalhar em sua casa. O sujeito acabou por se envolver com a pequena, e, tendo um caso amoroso, prometeu se casar com ela. Entretanto, o homem começou a rejeitá-la, já que estava prometido a uma mulher da classe alta, como ele. A moça, furiosa, desonrada, pegou uma arma, disparou no amante e depois se matou. O homem acabou por sobreviver. Curiosamente, algumas mulheres da alta sociedade paraense começaram a publicar cartas em jornais, indignadas com o sujeito, porque deflorou a jovem sem assumi-la, dando razão para à própria moça! Um ataque feminista assolou a conservadora sociedade paraense e o homem acabou tendo sua má reputação exposta ao público. As relações criminosas eram familiares, quase em parentesco. Um senhor que vivia nos velhos tempos me relatava o que ele achava de um homem que deflorava uma “mulher de família” e espalhava a história para todo mundo: “Ele devia ser morto!”. O caso mais comum era o do marido que matava a esposa pela honra! O argumento da esposa adúltera assassinada pelo marido, por violar a honra do casamento, era, inclusive, uma tese aceita para absolvição nos tribunais. O tempora, O Mores!

Havia um outro detalhe que minha avó cultivava: os estudos. Quando ela era jovem, deixou de estudar porque o pai, muito rigoroso e ciumento, a tinha proibido. Anos depois, quando ela melhorou de vida, começou a estudar. Ou seja, na casa dos trinta anos de idade. Depois disso, iniciou seus estudos em inglês, a grande paixão da vida dela. Minha avó causava admiração dos alunos mais jovens, quando viam o esforço dela, uma mulher sexagenária, em aprender uma língua estrangeira numa sala de aula. Seu jeito simples cativava a todos. Os estudos, para ela, tinham valor. Aliás, para os pobres de sua época, conhecimento era um atributo respeitável, decente. Não era somente ornamento ou forma de ascensão social, mas, simplesmente prazer. Ser culto fazia distinção para as pessoas, como sinônimo de grandeza intelectual, em suma, de liderança. Incultura, analfabetismo, ignorância, comuns naquele tempo, eram vistos com desdém, desprezo. Nenhum homem inculto, por ser do povo, se destacava entre os pobres, precisamente porque os pobres não viam seus iguais como liderança. Naquela época, os pobres valorizavam justamente àqueles que se destacavam moral e intelectualmente, como referência de valor. Conceitos elitistas saudáveis como estudo, perseverança, honestidade e valores morais, eram notórios entre a gente pobre brasileira de cinqüenta anos atrás.

A sociedade brasileira católica, cristã, cultora da família e dos bons costumes, era ordeira, pacífica, não-violenta. Patriarcal, e, em parte, severa, contudo, era profundamente solidária e acolhedora. As famílias eram numerosas. Casais pobres formavam verdadeiros clãs de mais de dez filhos. Porém, raramente saia alguém desonesto ou ímprobo. Os pais educavam diretamente os filhos e a disciplina era rígida. Os mais velhos eram profundamente respeitados, à beira da sacralidade. As escolas, algumas católicas, os padres tinham apreço na comunidade. E os professores, quando entravam na sala de aula, os alunos se levantavam de suas mesas, em sinal de respeito e reverência. Isso porque as escolas de meninos e meninas eram divididas: em Belém, o Colégio Nazaré, dos padres franceses maristas, era exclusivamente de homens; e as mulheres estudavam no Colégio Santa Catarina, junto com as freiras.

Era uma sociedade muito mais pobre, sofrida e bem mais desigual: ainda escuto dos antigos, relatos sobre a morte, que era comum, de crianças. O povo, muito devoto, rezava o terço por esses inocentes, tal como se fossem vítimas do Rei Herodes. Em particular, a sociedade paraense guardava com fervor as tradições marianistas do Círio de Nazaré. Até hoje ainda observo senhoras levando a santinha em procissão, de casa em casa, apesar de que essa prática foi ainda mais forte no passado!

Minha avó passava fome e nunca se prostituiu; mal tinha família e, no entanto, tinha uma conduta moral exemplar. E a pobreza nunca foi justificativa para chorar seu destino; lutou e conseguiu ter uma velhice digna, como muitos de seus contemporâneos. Na verdade, toda uma classe média é vinda precisamente dessas pessoas pobres e perseverantes, que lutaram para ter melhoras de vida, justamente com essa formação moral.

Às vezes medito o que ganhamos e o que perdemos com a radical transformação cultural da sociedade, como a liberdade sexual e a modificação da família e da moral. Na atualidade, os jovens são muito mais livres do que nossos avós. Vivem muito melhor do que eles. Aliás, até os pobres têm regalias que até então, os pobres de cinqüenta anos atrás nem sonhariam. As mulheres estão numa posição social privilegiada. A educação e a informação são muito mais acessíveis, as facilidades são maiores, e, no entanto, a nossa sociedade é mais violenta, mais desunida e muito mais perversa. E, muitas vezes, mais ignorante. Será que temos algo a ensinar a nossos antepassados? Será que a perda total dos valores tradicionais da família e da honestidade pública foi alguma espécie de ganho?

Os pobres são induzidos a invejar os ricos e se tornam desonestos, ladrões, gatunos e rancorosos daquilo que não possuem. Muitos não alimentam uma ética de trabalho, pelo contrário, querem saquear os mais prósperos. A desunião se dissemina entre eles e o vizinho é capaz de agredir e matar o outro por migalhas. Os filhos odeiam os pais e os pais rejeitam os filhos; e a liberdade sexual levou uma boa parte dos jovens à promiscuidade pura e simples. Os jovens, que eram protegidos de muitas temeridades, estão expostos a toda sorte de abusos e doenças. O caos das mães solteiras e dos filhos indesejados é o preço da exaltação da liberdade sexual irrestrita, sem as responsabilidades e limites morais inerentes ao sexo. Isto porque a delinqüência brutal e a violência assombrosa nas cidades se devem, justamente, à quebra total da moralidade familiar. Pais irresponsáveis e levianos, filhos desamparados, indivíduos sem consciência moral.

Os jovens de épocas passadas eram disciplinados pela autoridade dos mais velhos. E a velhice e madureza eram sinônimas de autoridade e sapiência. O que se vê hoje é o culto do jovem irresponsável, mimado, que elevado nas alturas da bajulação indevida e isento de responsabilidades, descamba para a perversão moral, para a criminalidade e para o banditismo. Com tantas regalias, tantos mimos, eles se tornam assassinos, violentos, cruéis, desumanos, estupradores, salteadores e canalhas! Daí as causas da violência, que estão mais no espírito de dissenso ético e moral da população do que necessariamente em seus bolsos. Até porque a relação entre pobreza e criminalidade não somente é falsa, como preconceituosa.

É claro que a sociedade patriarcal, sob muitos aspectos, não deixa muita saudade. A moralidade sufocante, draconiana, demasiado sectária, não corresponde mais aos anseios de nossa realidade atual. A visão austera da moral de nossos avós era por vezes surda com relação aos conflitos individuais mais complexos. Os conflitos familiares mais profundos eram ocultados sob o véu da moralidade. E o comportamento individual, no âmbito moral e sexual, era duramente restrito nas escolhas. As pessoas tinham pouca liberdade individual e se sentiam frustradas, quando suas necessidades e aflições não coadunavam com a moral vigente. E o autoritarismo do pai ou do marido podava os filhos e as esposas. Sem contar outros aspectos odiosos, comuns àqueles tempos.

No entanto, a sociedade tradicional tinha valores, que do ponto de vista ético, eram nobres, elevados, corretos, e que superam, em muitos detalhes, a moral de nossa sociedade atual. Na prática, os velhíssimos valores cristãos da família são o fundamento basilar de nossa civilização e sociedade política. Por mais que seus critérios aparentes sejam modificáveis, a essência da unidade familiar é a mesma. A família serve de acolhimento ao indivíduo e resguarda seus sentimentos e relações mais autênticas. Ela protege o indivíduo do desamparo, criando-lhe as referências morais para a vida adulta. É perfeitamente possível conciliar a moral tradicional com as liberdades individuais conquistadas, até porque os valores morais herdados da tradição são positivos e servem de sustentáculo para muitas liberdades que desfrutamos. Os profundos laços familiares, a honradez, a honestidade, a solidariedade, as amizades leais entre amigos, o valor do conhecimento e da busca da prosperidade pelo trabalho, são valores necessários que se perderam em nossa sociedade. As gerações de nossos avós, neste quesito ético, são superiores a nossa geração.

O paradoxo da liberdade atual é que saímos de uma sociedade autoritária e repressiva para uma sociedade libertina. A liberdade que os indivíduos possuem hoje, em si mesma, não é ruim. Em muitos aspectos melhorou as oportunidades e as buscas da felicidade individual, sem as coibições da moralidade tradicional. Em compensação, a carência de uma base moral que possa fundamentar essa liberdade é o preço que se paga pela tragédia do caos social. A ruptura com a moral tradicional se tornou uma tragédia, porque abriu portas para uma liberdade irresponsável, destrutiva e deixou um vazio estrutural de moralidade. A explosão de violência e criminalidade tem muito mais a ver com esse contraste moral do que as tão alardeadas tolices a respeito da pobreza ou da distribuição de renda.

Essa ruptura acabou por demonizar o legado da tradição. Nem todo o legado moral tradicional é mau. O fato de sermos livres é o que se exige maior capacidade de discernimento moral e ético, pois a liberdade nos torna responsáveis pelos nossos atos. Contraditoriamente, a sociedade que se diz livre, é, ao mesmo tempo, a mais irresponsável. Muitos adoram reverberar forças abstratas para não assumir seu cadinho de responsabilidade pessoal. Daí os mitos da “desigualdade”, da “falta de escolas”, da “pobreza”, da “culpa” da sociedade, ou da “falta” de amparo estatal para justificar a omissão moral do indivíduo enquanto ser livre. Isso mostra o total conflito de uma sociedade que se considera “libertária”, mas que se encontra desamparada, num estado de desunião total. E o vácuo que se apresenta desta carência moral é uma ideologização do comportamento, através das neuroses politicamente corretas, que nos transforma mais escravos de comportamentos absolutistas e ditatoriais. É uma pseudomoral que ascende socialmente, patrocinado pelo Estado e pelos engenheiros sociais, e visa justamente aumentar o fosso da liberdade com os paradigmas morais, piorando mais ainda os problemas sociais. É o veneno do relativismo moral, da criminalização dos laços íntimos da família e da responsabilidade individual, na introdução de comportamentos artificiais, que torna uma sociedade mais imbecilizada e amorfa moralmente. Os nossos avós tinham um privilégio na sociedade patriarcal: a família era rígida, mas acolhia com amor. E a moralidade que compactuavam, por mais autoritária que pudesse parecer, não isentava o indivíduo de seus atos. Isso dava um caráter de maturidade espiritual neles, mais do que muitos adultos de nossa época. A sociedade moderna, despersonalizada de seus laços íntimos, poderá ter um patriarca abstrato e indiferente, que subjugará os indivíduos numa solidão sufocante e carente de sensibilidade: o Estado. E quando isto ocorrer, ainda teremos saudade da pobreza digna de nossos avós…

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Publicado às 9 09America/Belem dezembro 09America/Belem 2014 por em Civilização, Conde Louppex de Villanueva, Família, Humanidade, Liberdade, Moral, Tradição e marcado , , , , .
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