Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

O arquiteto totalitário: a dolorosa influência de Le Corbusier

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Sede do governo da cidade de Chandigarh, Índia, projetada por Le Corbusier. O paredão de concreto brutaliza a paisagem e esmaga terrivelmente os transeuntes.

“Le Corbusier pertence tanto à história da arquitetura como do totalitarismo, da deformidade espiritual, intelectual e moral de anos na Europa. Claramente, ele não estava sozinho; ele era tanto o criador quanto um sintoma do  zeitgeist”.

Por Theodore Dalrymple. Le corbusier foi para arquitetura o que Pol Pot foi para a reforma social. De certa forma, ele teve menos desculpas por suas atividades que Pol Pot, pois diferentemente do cambojano, ele possuía um grande talento, até mesmo genial. Infelizmente, ele transformou seus dons para fins destrutivos e não é coincidência que ele serviu prazerosamente tanto para Stalin quanto para o Vichy. Como Pol Pot, ele gostaria de começar tudo do zero: “antes de mim, nada; depois de mim, tudo!”. Por sua própria presença, as torres de concreto aparente que o obcecavam cancelaram séculos de arquitetura. Dificilmente alguma cidade ou vila na Grã-bretanha (para escolher apenas uma nação) não viu sua composição ser esculhambada por arquitetos e planejadores inspirados por suas idéias. Escrever sobre Le Corbusier freqüentemente começa com algo sobre sua importância, algo como: “ele foi o arquiteto mais importante do século XX”. Admiradores podem concordar com esse julgamento, mas sua importância é, claro, moralmente e esteticamente ambígua. Afinal de contas, Lênin foi um dos mais influentes políticos do século XX, mas a sua influência para a história, não os seus méritos, que o tornaram assim: como Le Corbusier. Assim como Lênin ainda é reverenciado após toda a sua monstruosidade e isso é óbvio para todos, da mesma forma Le Corbusier continua a ser reverenciado. Na verdade, existem forças que retomam a adulação. Nicholas Fox Weber acaba de publicar uma biografia laudatória e exaustiva e a Phaidon publicou um livro enorme e muito caro devotado ao trabalho de Le Corbu. Ainda foi apresentada uma exibição hagiográfica sobre o arquiteto em Londres e Rotterdam. Em Londres, a exibição aconteceu em um complexo de edifícios hediondos, construídos na década de 1960, chamados Barbican, cujo brutalismo no concreto parece desenhado para humilhar, rebaixar e confundir qualquer ser humano infeliz o suficiente para tentar encontrar um caminho dentro dele. Barbican não foi desenhado por Le Corbusier, mas com certeza foi inspirado por seu estilo particular de arquitetura desalmada.

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Palácio de Buckingham, em Londres, Inglaterra. O contraste da beleza e dignidade entre este e aquele é evidente.

Durante a exibição, conversei com duas madames que aparentemente gastam suas tardes em exibições. “Maravilhoso, não acha?” uma delas disse a mim, a quem respondi: “Monstruoso!” ambas arregalaram os olhos como se eu acabasse de negar Allah em plena Mecca. Se a maioria dos arquitetos reverencia Le Corbusier, quem somos nós, meros leigos, meros humanos esmagados por seus edifícios, que não sabemos nada dos problemas da construção civil, para criticá-lo? Aquecendo para meu tema, falei dos horrores do material favorito de Le Corbusier, concreto armado, que não envelhece graciosamente, mas com trincas, manchas e danos. Um único edifício dele, ou algum inspirado por ele, poderia arruinar a harmonia de toda uma cidade, insisti. Um edifício corbusiano é incompatível com qualquer coisa, exceto ele próprio. As duas damas comentaram que moravam em um bairro da cidade que tinha as linhas tradicionais do século XVIII e que toda a atmosfera social parecia ter sido arruinada por duas torres de concreto aparente. As duas torres confrontavam elas diariamente contra a sua própria impotência de poderem fazer qualquer coisa sobre aquela situação, deixando-as tristes e amarguradas. “E quem vocês acham que foi o inspirador para as duas torres?” Perguntei. “Sim, entendo o que você quer dizer”, disse-me uma delas, como se essa relação pudesse ser difícil e mesmo perigosa de ser realizada. Mostrei para as damas uma área da exibição devotada para o Plano Voisin, o esquema de Le Corbusier para repaginar um quarto de Paris com edifícios de fundamentalmente o mesmo desenho daqueles que foram projetados para a periferia de Novosibirski e cada uma das outras cidades soviéticas (para não dizer nada de Paris e de seus lugares banidos). Se levado adiante, o plano teria modificado, dominado e, em minha visão, destruído toda a aparência da cidade. Ali, a exibição mostrava um filme da década de 1920 mostrando Le Corbusier na frente de um mapa do centro de Paris, uma grande parte na qual ele trabalhava com riscos feitos por seu pastel preto e com todo o entusiasmo de um Bombeiro Harris planejando a aniquilação de uma cidade germânica durante a Segunda Guerra. Le Corbusier louvava esse tipo de destruição com imaginação e ousadia, em contraste com a convencionalidade e timidez com que acusava todos os seus contemporâneos que não se ajoelhassem perante si. Isso ainda diz algo sobre o espírito de destruição que ainda reina na Europa e que esse tipo de filme deveria ser apresentado para evocar não seu horror ou desgosto, ou mesmo risos, mas admiração. Le Corbusier nasceu Charles-Edouard Jeanneret em 1887, em uma pequena cidade franco-suiça chamada La Chaux-de-Fonds, onde seu pai trabalhava como gravador de porta relógios e sua mãe como música. Seu pai queria que ele seguisse seus passos; mas enquanto adolescente, Le Corbusier demonstrava habilidades artísticas precoces, freqüentou a escola local de belas artes e então viajou pela Europa por alguns anos em seu programa de educação artística autodidata. Suas habilidades extraordinárias já apareciam nos seus primeiros rascunhos e aquarelas. Ele também desenhou alguns móveis muito elegantes antes do vírus intelectual e da revolução artística terem-no contaminado.

Le Corbusier

Le Corbusier

Le Corbusier adotou seu pseudônimo na década de 1920, derivando-o de um distante ancestral, Lecorbésier. Porém, com a ausência de um primeiro nome, sugere uma força física assim como de ser humano. Ele traz à mente o verbo courber, curvar-se, e é claro, Le Corbusier foi um grande “encurvador” de cidades ao seu próprio gosto. Também traz à mente le corbeau, corvo ou gralha, não uma ave muito bonita em plumagem ou em seu canto, mas sem nenhum ornamento em ambos e, portanto, metaforicamente falando, honesta e não ludibriada, como Le Corbusier queria ver sua arquitetura. Em francês, le corbeau possui um outro significado: aquele de um pássaro de mau agouro – e talvez seja essa a piada do arquiteto para todo o mundo. Ele certamente foi de mau agouro para as cidades européias e de todo o mundo. A influência de Le Corbusier apareceu constantemente em seus escritos e por qualquer coisa que construísse – talvez ainda mais. Seu modo de escrita é torto, sem uma estrutura lógica aparente, aforístico e com muita freqüência utiliza a palavra “dever”, como se nenhum ser com mais de 50 de QI podesse argumentar contra o que ele diz. Desenhos e fotos normalmente acompanham seus escritos, mas às vezes tão criticamente relacionados com o texto que o leitor começa a duvidar dos próprios poderes de interpretação: ele é levado a pensar que está lendo um livro de alguém de um nível totalmente diferente – mais elevado – de capacidade intelectual. A arquitetura se torna um templo sagrado que a maioria não pode adentrar. André Wogenscky, da Fundação Le Corbusier, escreveu o prefácio de uma antologia dos escritos do arquiteto, afirma que as palavras de seu mestre não são mensuráveis pelo significado normal: “não podemos simplesmente entender os livros; devemos nos render a eles, ressoar, no sentido acústico, com suas vibrações, as marés baixas e altas de seu pensamento”. A passagem denota o que o poeta Tyutchev dizia sobre a Rússia: alguém tinha que acreditar nela, porque ninguém poderia medi-la com a própria mente. Interpretando Le Corbusier desta forma mística, Wogenscky está, na prática, reverenciando um deus muito peculiar: diga-se, o concreto armado, o material favorito de Le Corbusier. Le Corbusier mantinha um tipo de comunicação elitista com seus seguidores, apologistas e hierofantes. Aqui, por exemplo, uma passagem de um livro sobre ele do arquiteto Stephen Gardiner:

Le Corbusier mantém-se, para muitas pessoas, um enigma. Provavelmente a principal razão é a vastidão de sua arquitetura, pois ela significa uma arte de difícil compreensão… … e, enquanto seus edifícios são grandes, as cidades são ainda maiores: aqui, diante de nós, está uma colcha de retalhos imensamente elaborada que nos ameaça com uma multiplicidade de filamentos que nos levam a todas as direções. À primeira vista parece impossível visualizar uma imagem límpida onde ela existe, na verdade, a ordem, o formato e a continuidade: tudo o que vemos é um amontoado. Ainda assim, é nessa hora que se pode fazer a descoberta de que o padrão é impossível de seguir porque uma peça crucial desse quebra-cabeças está faltando … no século XX, Le Corbusier nos mostrou essa peça.

Alguém já parou diante do, digamos, Grande Canal de Veneza e pensou: “o que preciso para entendê-lo é a peça que falta desse quebra-cabeça, aquele que apenas um arquiteto pode me fornecer e apenas então poderei entendê-lo”? Gardiner é um verdadeiro discípulo de Le Corbusier em seu desejo de intelectualizar sem o exercício do intelecto, com suas falhas em fazer distinções elementares e em seu uso de palavras tão ambíguas que é difícil argumentar conclusivamente contra elas. Em justiça a Le Corbusier, três atenuantes podem ser oferecidos para o seu trabalho. Ele amadureceu em um tempo em que novos materiais construtivos surgiam com a indústria e tornavam possíveis projetos completamente diferentes de todos aqueles de eras passadas. A destruição do norte da França durante a Grande Guerra, assim como as condições sociais, necessitavam de reconstruções em larga escala, um problema que ninguém poderia resolver satisfatoriamente. E ele cresceu durante a desordem doméstica burguesa – mobiliário pesado, felpudo e duradouro; enfeites de estante por todos os lados – eram tão medonhos que uma revolução extrema contra isso na forma de militância e ausência de adornos era muito compreensível, talvez até mesmo necessária (uma oposição diametral para algo feio está mais para ser feio do que uma solução à feiúra). No entanto, a linguagem de Le Corbusier revela a sua mentalidade perturbadoramente totalitária. Por exemplo, no que é provavelmente seu livro mais influente, Towards a New Architecture de 1924, (o próprio título parece sugerir que o mundo todo esperava por sua vinda) ele escreve poeticamente:

Devemos criar um estado de espírito de produção em massa: Um estado de espírito para a construção em massa de moradia. Um estado de espírito para habitar as construções em massa Um estado de espírito para conceber moradias de massas.

Quem são esses “nós” de quem ele fala com tanta empolgação, responsáveis pela criação, entre outras coisas, de estados de espírito universais? Apenas uma resposta é possível: Le Corbusier e seus discípulos (de quem haveria de ser muitos). Todos os demais possuem “olhos que não podem ver”, como escreve com tamanha tolerância. Aqui estão mais alguns “devemos”:

Devemos ver para o estabelecimento de padrões de modo que possamos encarar os problemas da perfeição. O homem deve ser construído neste axioma [de harmonia], em perfeita concordância com a natureza e, provavelmente, com o universo. Devemos encontrar e aplicar novos métodos, métodos limpos que nos permitam trabalhar planos úteis para a habitação, que levem naturalmente à padronização, industrialização e ao taylorismo. O plano deve reger … a rua deve desaparecer.

E então surge essa asserção parecida: “a parede de tijolos não possui mais o direito de existir” Le Corbusier queria que a arquitetura fosse a mesma em todo o mundo porque acreditava que havia um modo “correto” de construir e que apenas ele sabia como ele era. O programa do CIAM – Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – do qual Le Corbusier era o espírito impulsionador, afirma: “as reformas serão estendidas simultaneamente a todas as cidades, para todas as áreas rurais, através dos mares”. Nenhuma exceção. “Oslo, Moscou, Berlin, Paris, Algiers, Port Said, Rio de Janeiro ou Buenos Aires, a solução é a mesma”, Le Corbusier mantinha, “já que responde pelas mesmas necessidades”. Os imperativos de Le Corbusier se aplicavam mais do que a edifícios ou mesmo ao planejamento urbano, pois ele não era nada mais do que um filósofo totalitário, cuja visão sobre arquitetura derivava, pelo menos em parte, de seu ponto de vista auto-evidente de onisciência.

Devemos construir fazendas, ferramentas, maquinário e habitações que conduzam para uma vida límpida, saudável e bem ordenada. Devemos organizar a vila para preencher esse papel como um centro que irá trabalhar para as necessidades das fazendas e agir como um distribuidor de seus produtos. Devemos matar o antigo, brutal e voraz tipo de dinheiro e criar um novo, um dinheiro honesto, um meio para o preenchimento de uma função totalmente natural e normal.

Não havia nenhuma escapatória das prescrições de Le Corbusier. “A única estrada possível é a do entusiasmo … a mobilização do entusiasmo, aquela fonte de energia elétrica da fábrica humana”. Em seu livro The Radiant City, há a imagem de uma multidão na praça de São Marcos em Veneza, com a seguinte legenda: “de pouco em pouco, o mundo está se movendo para seu destino final. Em Moscou, em Roma, em Berlim, nos Estados Unidos, vastas multidões estão reunindo uma forte idéia” – a idéia sendo, aparentemente, o líder ou o estado absoluto. Essas palavras foram escritas em 1935 e não era um período muito feliz para esse tipo de pensamento político sobre Moscou, Roma ou Berlim e talvez deveríamos esperar que ele o tivesse revisto mais tarde. Contudo, em 1964, na republicação do livro em inglês, Le Corbusier, longe de retificar o trecho, escreveu o seguinte: “já pensaram, todos vocês Senhores NOS! (Mister NOS!), que esses planos foram preenchidos com a total e desinteressada paixão de um homem que passou a vida toda preocupado com seu ‘semelhante’, preocupado fraternamente. E, por essa própria razão, quanto mais ele estava com razão, mais ele aborrecia os acordos e esquemas dos outros”.

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A cidade de Brasília (DF), projetada por Niemeyer, revela a influência de Le Corbusier sobre a arquitetura da nova capital do Brasil.

Entre esses planos fraternos, estavam muitos destinados a destruir cidades completas, incluindo Estocolmo (outras cidades que ele planejou destruir: Paris, Moscou, Algiers, Barcelona, Rio de Janeiro, Montevidéu, Buenos Aires, Antuérpia e Genebra). No The Radiant City, Le Corbusier apresenta uma fotografia aérea de Estocolmo como ela era, um grupo belamente integrado de edificações que ele via somente como um “caos assustador e uma triste monotonia”. Ele sonhava em “limpar e expurgar” a cidade, importando “uma arquitetura calma e poderosa” – isto é dizer, a pretensa variedade verdadeira de aço, vidraças e concreto armado desenhados por ele. Le Corbusier nunca conseguiu destruir Estocolmo, mas arquitetos inspirados por suas doutrinas foram adiante na mesma direção. Como a sinopse da edição de 1964 do The Radiant City profeticamente afirma, o livro é “um projeto para o presente e para o futuro … um trabalho clássico sobre arquitetura e planejamento urbano”. Uma desumanidade terminal – o que quase podemos chamar de falta de humanidade – caracteriza o pensamento de Le Corbusier, apesar de suas declarações de fraternidade para com a humanidade. Isso se manifesta de algumas formas, incluindo em seus milhares de desenhos e fotos de arquitetura, nos quais é raro, na verdade, que uma figura humana alguma vez apareça e, quando aparece, é como um tipo de formiga distante, infelizmente estragando uma até então imaculada cidade platônica. Agradecendo aos seus arranha-céus, Le Corbusier diz, 95 por cento da superfície da cidade deveria se tornar áreas de parque – e então ele mostra uma imagem de um parque bem arborizado sem uma única alma viva. Presumivelmente, os humanos deveriam estar onde eles deveriam estar, longe da vista e da mente (a mente do arquiteto), em suas máquinas de morar (como ele charmosamente as chamava), sentados em máquinas de sentar (como ele definia cadeiras). Essa falta de humanidade explica o ódio freqüentemente expressado sobre as ruas e o amor pelas estradas. As estradas eram meios impressionantes para corrida a altas velocidades (ele tinha uma obsessão por carros velozes e aviões), que, portanto, tinham um propósito definido e consertavam as interações sem ordem dos homens. A rua, em contraste, era imprevisível, incalculável e profundamente social. Le Corbusier queria ser para a cidade o que a pasteurização é para o queijo. Quando se fala da utilização do concreto aparente por Le Corbusier – “meu leal e amigo concreto” – questiona-se se ele poderia sofrer em algum grau da síndrome de Asperger: ele sabia que as pessoas falam, andam, dormem e comem, mas não tinha nenhuma idéia se as pessoas tinham a capacidade de pensar, ou o que poderia ser, e conseqüentemente tratava as pessoas como se elas fossem meras coisas. Além disso, pessoas com a síndrome de Asperger freqüentemente possuem uma obsessão com algum objeto comum ou substância: concreto aparente, talvez. O ódio de Le Corbusier pelas pessoas ia ainda além de suas palavras, é claro! O que ele chamava de “telhado jardim” em seu famoso bloco de apartamentos em Marselha, o Unité d’Habitation, consiste em uma laje de concreto sobre a qual surgem algumas formas abstratas protuberantes de concreto cru e paredes. Le Corbusier não queria nenhum outro tipo de telhado a ser construído em qualquer outro lugar e escreveu denunciando todos os outros tipos “primitivos” de telhados. Poderia-se ter a esperança de que a caracterização desse despejo de concreto como um jardim teria virado uma chacota; mas, ao contrário, as suas imagens são reproduzidas como evidência de seu gênio inventivo. A única cidade construída por Le Corbusier, Chandigarh, na Índia, é outro monumento à sua visão deturpada. Na exibição de Londres, as imagens eram apresentadas com o som de belas músicas indianas, como se existisse alguma conexão intrínseca entre a refinada civilização indiana e as horríveis lajes de concreto. A incompetência cambaleante de Le Corbusier – o produto natural de sua arrogância inflexível – foi revelada, sem dúvida sem essa intenção, pelas imagens das enormes quadras de concreto que ele locou em Chandigarh, totalmente isentas de áreas de sombra. É como se ele tivesse a intenção de torrar os humanos no sol como insetos sob lupas que petulantemente ousam manchar a geometria perfeita de seus planos com as irregularidades que trazem consigo. A sua falta de humanidade se torna ainda evidente com sua atitude sobre o passado. Repetidamente ele fala do passado como um tirano do qual é necessário escapar, como se ninguém ainda tivesse descoberto qualquer coisa até a sua chegada. Não é que o passado nos legou problemas que devemos tentar nosso melhor para melhorar: é que o passado inteiro, com poucas exceções, é um enorme erro que deveria ser destruído e esquecido. Seu desdém por seus contemporâneos, exceto aqueles que o reverenciavam sem reservas, é total: mas um passeio pelo subúrbio de Paris em Vincennes, para dar apenas um exemplo, deveria ser o suficiente para convencê-lo, ou a qualquer um, que logo após a Primeira Guerra, arquitetos foram capazes de construir diferentemente de, mas em harmonia com, tudo aquilo que existia ali e tinha sido destruído. Esses arquitetos, entretanto, não eram egoístas maus determinados a gravar seus nomes permanentemente sobre o público, mas homens buscando adicionar seu conhecimento à sua civilização. A nenhum momento Le Corbusier discute o problema de harmonização entre o novo e o existente. Na denúncia contra a arquitetura gótica, por exemplo, o arquiteto diz:

A arquitetura gótica não é, fundamentalmente, baseada em esferas, cones ou cilindros, … é por essa razão que a catedral não é muito bela … uma catedral nos interessa como uma solução engenhosa para um difícil problema, mas um problema do qual os postulados foram erroneamente formulados porque eles não procedem de grandes formas primárias.

Agora sabemos por que as pessoas gostam das catedrais de Chartres e Rheims! Elas resolvem problemas mal formulados! Le Corbusier me lembra o pai de um amigo russo, um homem que foi o maior especialista em vidros planos da União Soviética que, ao visitar Londres pela primeira vez, olhou para um bloco modernista de design corbusiano que arruinou uma quadra do século XVIII e disse, referindo-se a alguns aspectos das vidraças: “Isso é uma interessante solução para o problema”. O mais sincero, pois inconsciente, tributo a Le Corbusier vem das pichações. Se aproximarmo-nos dos resultados de suas atividades apistemologicamente, por assim dizer, veremos logo que onde a boa arquitetura está nas proximidades da arquitetura corbusiana, pichadores tendem a pichar apenas as superfícies e construções corbusianas. Como que por instinto, esses vândalos apreenderam corretamente o que vários arquitetos levaram anos em estudos e esforços intelectuais para apreender: Le Corbusier foi um inimigo da humanidade. Le Corbusier pertence tanto à história da arquitetura como do totalitarismo, da deformidade espiritual, intelectual e moral de anos na Europa. Claramente, ele não estava sozinho; ele era tanto o criador quanto um sintoma dozeitgeist. Seus planos para Estocolmo, afinal de contas, foram uma resposta à competição sueca oficial para reconstruir a bela e velha cidade. Portanto, a destruição estava no menu. É um sinal da tentação totalitária, como o filósofo francês Jean-François Revel a chamou, que Le Corbusier ainda é reverenciado nas escolas de arquitetura e por todos os lados, ao contrário de universalmente insultado.

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Publicado às 4 04America/Belem dezembro 04America/Belem 2014 por em Arquitetura, Arte, Beleza, Tradição, Urbanismo e marcado , , , , , .
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