Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Conformidade de Deus com nossa organização moral

joaquimNabuco

A situação da ciência perante a ordem moral é esta: ou negá-la ou admiti-la. Se ela a nega, nega a si mesma, insurge-se contra a evidência dos fatos, das civilizações, do desenvolvimento progressivo da humanidade.

Por Joaquim Nabuco.

(…)A humanidade não teria chegado aonde chegou se ela fosse apenas uma criança enjeitada, filha da matéria e do acaso. A verdade – é a réplica que nos dão – nada tem a ver com a desolação moral do universo sem Deus. Que ele se torne triste ou ainda mais alegre, a ciência não tem de se informar dos sentimentos do espectador humano. O que concerne ao sábio, em primeiro lugar, é não tomar por realidade as projeções de seu próprio pensamento, e por Deus sua própria sombra sobre o universo. Aí, a ciência ainda se desembaraça facilmente demais da importância do mundo interior, como complemento científico.

Contudo, ele não é tão negligenciável. A crença em um princípio moral é um fato natural, da mesma maneira que a existência do homem. Não basta provar que um tal princípio só existe em nossa imaginação, é preciso demonstrar também que ele não existe como um reflexo da ordem universal. A não existência objetiva desse princípio mataria de um só golpe não somente o dever, a religião e a arte, mas a própria ciência, pois a ciência só é possível pelo ditame da moral, que impõe o culto do respeito absoluto pela verdade.

A situação da ciência perante a ordem moral é esta: ou negá-la ou admiti-la. Se ela a nega, nega a si mesma, insurge-se contra a evidência dos fatos, das civilizações, do desenvolvimento progressivo da humanidade. Portanto, ela é forçada a admiti-la; admitindo-a, não pode explicá-la senão de duas maneiras: ou essa ordem é uma inspiração própria e particular do homem independente e dono exclusivo de seu destino; ou então ela pertence, do mesmo modo como tudo o mais, à ordem geral da natureza. A primeira solução é um “absurdo” intuitivo.

Imaginar tudo na natureza construído segundo suas leis e sua vontade e, só quando se chega a seu mais alto estágio, concebê-la como a fantasia imprevista e que não diz respeito a um organismo gerado por ela é, pelo menos, traçar na criação uma linha arbitrária. Essa linha deveria passar bem pelo meio dos centros nervosos do homem; ele ficaria submetido à natureza pela vida vegetativa, e estaria então isento quanto ao que ele pensa e ao que realiza; ele lhe pertenceria por suas sensações e estaria separado dela por sua vontade. A única indução racional é, pois, que a ordem moral – assim como a ordem física, a liberdade humana e inclusive as afinidades químicas – faz parte da ordem
indivisível do universo. Ora, para explicar essa ordem moral natural, só há uma única hipótese. Deus. Sem ele, não se poderia imaginar a moralidade existente na natureza a não ser sem consciência, o que é contrário ao conceito de moralidade. Uma moralidade inconsciente, iluminando gradativamente a consciência moral do homem, sem que seu princípio ativo tenha algo a ver com uma causa moral inteligente, só seria aceitável pelos que admitem a existência do universo sem um princípio intelectual inerente. Ela, porém, não conteria as condições preliminares da moralidade, que são: a liberdade, a consciência e a meta.

Fonte: NABUCO, Joaquim, 1849-1910. A desejada fé / apresentação de Luiz Paulo Horta ; texto em francês estabelecido por Claude-Henri e Nicole Frèches ; tradução para o português por Ruth Sylvia de Miranda Salles. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 61 – 62.

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Publicado às 6 06America/Belem novembro 06America/Belem 2014 por em Ciência, Humanidade, Joaquim Nabuco, Moral, Religião, Tradição e marcado , , , , , , .
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