Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Sempre tereis os ricos convosco

brucepfrohnen

Não importa quanto nos esforcemos, algumas pessoas terão piores condições financeiras do que outras, e seria uma insensatez permitir que o nosso desejo de ajudar os pobres nos fizesse perder de vista todos os outros bens, ou que nos levasse a destruir nosso sistema econômico e nossa sociedade.

Por Bruce P. Frohnen.

Uma das passagens bíblicas mais comumente discutidas é a da resposta de Jesus aos que criticaram a mulher que o ungiu com óleo caro. A mulher foi criticada sob a alegação de que o óleo deveria ter sido vendido para ajudar os pobres. Jesus, claro, respondeu: “Sempre tereis os pobres convosco” (Mt 26, 11 / Mc 14, 7 / Jo 12, 8).

De um extremo a outro do espectro político, muitos foram os que interpretaram mal essa afirmação, como se fosse uma prova da falta de interesse de Jesus pelas questões relativas à pobreza. Mas, como sabem todos aqueles que levam a sério o restante da resposta de Jesus –“a mim nem sempre tereis” (Mt 26, 11 / Mc 14, 7 / Jo 12, 8) –, era uma afirmação da necessidade que todos temos de nos preocupar mais com os bens superiores. Nosso dever em relação aos pobres, assim como nosso dever em relação a Deus, é perpétuo. Mas o nosso dever em relação a Deus é superior; de fato, é dele que derivamos e reconhecemos nosso dever para com os pobres.

Nessa afirmação está também o reconhecimento de que as desigualdades relativas ao bem-estar material estarão sempre conosco. Não importa quanto nos esforcemos, algumas pessoas terão piores condições financeiras do que outras, e seria uma insensatez permitir que o nosso desejo de ajudar os pobres nos fizesse perder de vista todos os outros bens, ou que nos levasse a destruir nosso sistema econômico e nossa sociedade. A sabedoria da Bíblia nos adverte contra os planos utópicos de distribuição de riqueza.

Mas, que dizer dos ricos? Independentemente do quanto o governo se esforce, algumas pessoas, por sorte, por talento, pelo trabalho duro, pelos maus princípios ou, o que é mais provável, por uma combinação desses fatores, acumularão grandes quantidades de bens. E nenhum programa de governo acabará com nenhuma dessas formas de adquirir riqueza — incluindo a última citada, os maus princípios. Até mesmo a pessoa que evita a mentira, a trapaça e o roubo pode se decidir a deixar de lado a família e, obtendo uma vantagem (perfeitamente conforme à lei) em relação aos demais, alcançar sucesso na busca da riqueza. Mesmo nas épocas mais terríveis do regime soviético, por exemplo, aqueles que souberam acumular mais poder também acumularam casas de campo, automóveis e outros bens supérfluos.

Portanto, a questão não é se haverá ricos entre nós, mas que tipo de ricos serão eles. Está claro que a virtude perfeita não existe neste mundo, muito menos entre aqueles dotados da determinação e do poder que acompanham as grandes fortunas. As sociedades, contudo, podem lidar com os ricos de muitas maneiras, melhor ou pior planejadas, conforme assegurem que eles sirvam ao bem comum, ou não. Por exemplo, os chamados “Barões Ladrões” [1], do final do século XIX, foram com frequência personalidades bastante imorais. Andrew Carnegie (1835-1919), tido amiúde entre os mais virtuosos desses “barões”, começou a fazer fortuna não com o suor do seu rosto, mas por meio de “insider trading”[2], aproveitando-se do acesso a informações internas no escritório onde trabalhava. E o governo federal muito fez no sentido de conferir poder a Carnegie e a outros da mesma laia, ao investir contra leis estaduais e locais (em nome dos “mercados nacionais”) e ao estender para empresas cujo propósito legal e cujo objetivo não eram outros senão os de multiplicar os lucros, o importante privilégio de constituir um empreendimento do tipo “sociedade limitada”.

Apesar de sua ilusão de ter sabedoria e virtude (ilusão por demais comum entre os ricos e poderosos), pelo menos Carnegie ajudou a produzir algo: aço. O aço é essencial na construção de coisas úteis como estradas de ferro e pontes; e, de modo geral, a capacidade de construir mais estradas de ferro e pontes foi um acontecimento benéfico para os americanos. Na realidade, há espaço para debate em torno dessa questão, mas ao menos eu diria que Carnegie tornou mais acessível um produto importante e, quer a nação tenha feito bom uso desse material, quer não, o fato de Carnegie ter ajuntado uma fortuna obscena está ligado a algo de valor.

Hoje, o mesmo não se aplica a muitíssimos de nossos ricos. Seja por meio de “junk bonds”[3], hipotecas “securitizadas” ou outros instrumentos “arrecadados” de um amontoado de empréstimos de valor bastante questionável, ludibriar as pessoas para que façam diversos “investimentos” sem futuro tornou-se uma das principais fontes de geração de riqueza.

Essa mesma cultura da ganância transformou nossas profissões — as profissões daqueles que costumavam ser bem de vida e desfrutavam do respeito dos vizinhos por lhes oferecerem serviços importantes, que exigiam estudo, preparo e inteligência. Agora, é claro, muitos e muitos doutores e advogados não se contentam com ter boa situação financeira e ser respeitados, pois o que desejam é ser bastante ricos, não se importando, ao que parece, que sejam odiados. Os resultados para esses profissionais — uma medicina cada vez mais subsidiada pelo governo e demissões em massa nas grandes firmas de advocacia (que se tornaram semelhantes a esquemas de pirâmide [4]) — são desanimadores, mas não tão desanimadores quanto os resultados para uma sociedade que perdeu profissionais honestos e dignos de confiança.

Depois, há aquilo que atualmente passa por espírito empreendedor. Sabe como produzir comida barata e de má qualidade? Venda franquias da empresa! Isto é, faça com que lhe paguem pelo privilégio de usar o seu logo, comprar os seus ingredientes baratos, equipamentos, e seguir as suas normas. Como sucede com a maioria dos esquemas de pirâmide, pode ser que os franqueados ganhem um bom dinheiro, se começarem cedo, se conseguirem boa localização e sobreviverem à avalanche de competição resultante da venda de mais franquias. Caso contrário, serão empregados mal pagos. Veja só, se o franqueador seria capaz de ganhar um bilhão de dólares, é porque se trata de um cara inteligente e bonzinho, não é mesmo?

Toda sociedade necessita de gente trabalhadora, interessada em melhorar de qualidade de vida por meio do serviço ao próximo. Toda sociedade deve tolerar o pilantra ocasional que se aproveita dos outros para encher o próprio bolso. Mas uma sociedade que favorece tipos como esse está em apuros. E uma sociedade que gasta mais de um trilhão de dólares do dinheiro — emprestado — de impostos, para salvar a casa e a coleção de arte, compradas nos Hamptons[5] com o dinheiro sujo dos pilantras, já vai longe na estrada que conduz à ruína.

É característico do modo como o nosso sistema agora opera, que uma administração republicana tenha tirado essa gente da cadeia, e que a administração seguinte, democrata, sistematize tal procedimento. Daí que temos um enorme projeto de lei “reformador” que não trata da questão fundamental (os falsos títulos), mas, ao contrário, garante que, de agora em diante, aqueles que ganharam cargos de autoridade e privilégios desfrutem desses benefícios da maneira que lhes convenha — protegidos, é claro, por novas barreiras à entrada de competidores no mercado.

Qualquer sistema pode ser manipulado. E sempre haverá indivíduos que se acham no direito de manipulá-lo. O truque é direcionar o sistema para a produção efetiva de coisas concretas que as pessoas precisam, e manter o jogo e seus lucros ao mínimo. Washington é incapaz de pôr freio à corrupção porque o governo é grande demais e está distante demais das consequências de suas medidas e regulamentos; a sua organização deve ser excessivamente complexa e estar sujeita à manipulação. No entanto, uma boa sociedade, como costumava ser a nossa, há de simplificar seus sistemas regulatórios, fazer executar localmente a lei e desestimular o desenvolvimento daqueles empreendimentos grandes ao ponto de abandonar suas comunidades locais. Isso quer dizer, entre outras coisas, contar mais com a tradição local do que com as estruturas normativas, e opor-se à castração dos estados e regiões do país em nome dos “mercados nacionais”. Ricos nós os teremos sempre conosco, mas eles serão POR nós apenas se forem nossos próximos, trabalhando para comprar, produzir e vender bens em meio a pessoas cuja sorte e modo de vida eles compartilhem.
Traduzido do inglês por Davi James Dias

Notas do Tradutor:
[1] “Robber Barons”: Empreendedores obcecados por dinheiro e trabalho, os “Barões Ladrões” foram homens que, no século XIX, fizeram fortuna com ferrovias, fábricas e indústrias extrativas, como petróleo e carvão. Alguns exemplos famosos de “barões” são John D. Rockefeller (1839-1937), Jay Gould (1836-1892), J. P. Morgan (1837-1913) e o citado Andrew Carnegie (1835-1919).

[2] “Insider Trading”: Realização de operações que se valem de informações privilegiadas, internas, não divulgadas fora da empresa.

[3] “Junk bonds”: Títulos, bônus especulativos, que rendem juros elevados mas apresentam alto risco (negociados em profusão, nos Estados Unidos, especialmente nos fins da década de 1980): “A maior parte dos títulos que a Drexel detém é constituída de papéis de alto risco (…) No jargão de Wall Street, esses papéis são chamados de ‘junk bonds’, ou seja: títulos que valem tanto quanto lixo” (“Veja”, São Paulo, 1990). [Referência: SANTOS, Agenor Soares dos. “Dicionário de Anglicismos e de Palavras Inglesas Correntes em Português”. Rio de Janeiro: Editora Campus / Elsevier, 2006.)

[4] Esquemas de pirâmide: Também chamados de “esquemas Ponzi”, são esquemas fraudulentos de investimentos com atraentes rentabilidades, abonadas com o dinheiro fornecido por novos investidores. Basicamente, consistem em remunerar os clientes mais antigos de uma empresa com o dinheiro dos novos investidores, sem produzir rendimentos reais.

[5] O autor se refere ao balneário dos Hamptons, próximo a New York, frequentado por milionários.

Fonte: CIEEP

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Publicado às 30 30America/Belem outubro 30America/Belem 2014 por em Humanidade, Liberdade, Moral, Política, Propriedade, Religião e marcado , , , , , .
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