Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A culpa é da sociedade

SociedadePor Cesar Ranquetat Júnior.

Na linguagem coloquial  é bastante comum o uso de  afirmações do tipo: “a culpa toda é da sociedade”; “a sociedade obrigou-me a agir deste modo”; “sou uma vítima das estruturas sociais”;  “a responsabilidade é do sistema social”; “o sistema social é opressor”. Estas afirmativas são no mínimo arbitrárias, pois tendem a coisificar a sociedade, a fazer dela uma realidade viva e concreta, com intenções, objetivos e finalidades. Contudo, a sociedade, o social, o sistema social e outras expressões afins nada mais são que abstrações. Noções e conceitos usados pelos leigos e pelos cientistas sociais para descrever a vida de um conjunto de pessoas.

Quando um leigo ou um analista social toma uma idéia ou conceito – como a noção de sociedade e sistema social –  e trata-o como se fosse algo concreto e real ele incorre naquilo que é chamado nas ciências sociais e na filosofia de reificação. Reificar é, grosso modo, coisificar uma noção abstrata.

Não apenas na linguagem cotidiana reifica-se o social. Importantes teóricos sociais e filósofos conceberam a sociedade como uma entidade viva. Émile Durkheim, um dos fundadores da Sociologia, acreditava que a sociedade era uma totalidade orgânica que preexistia a seus membros. Para ele, a sociedade era como uma “substância moral” e, além disso, uma “consciência coletiva”. O social era uma força moral coercitiva, externa aos indivíduos, que modelava por completo suas atitudes, gostos e pensamentos. Por sua vez, o marxismo parte da perspectiva de que as estruturas sociais, sobretudo a infraestrutura econômica, determinam a superestrutura religiosa, moral, jurídica e cultural. Sendo assim, os indivíduos nada mais são que marionetes, guiados e arrastados por forças sociais e econômicas poderosas.

Outros autores e escolas de pensamento também substancializaram a sociedade. Para os organicistas biológicos do século XIX como Herbert Spencer e Ernst Haeckel, a sociedade era vista como um “organismo vivo gigantesco”. Os românticos alemães, principalmente Herder, concebiam as sociedades como  “almas nacionais”. Hegel defendera a tese de que a sociedade era a materialização do “espírito coletivo”.

Estas perspectivas teóricas partem da premissa de que a sociedade é algo externo aos indivíduos. Uma realidade que está acima e além deles. Definem o social como uma espécie de substância, como uma coisa, como um objeto estático, uma realidade concreta semelhante a uma pedra, a uma árvore ou uma bola de bilhar. Porém, a sociedade não é propriamente algo subsistente como um organismo vivo ou uma alma. As “forças sociais”, as “estruturas sociais”, “as classes e grupos sociais” e o “sistema social” não existem de forma autônoma, independentemente dos indivíduos que os constituem. O social nada mais é que um conjunto de indivíduos em interação. Trata-se de pessoas entre outras pessoas envolvidas em relações de cooperação e conflito.

Como lembra o historiador e sociólogo Norbert Elias, noções como família, escola, indústria, cidade e estado, referem-se essencialmente a grupos de seres humanos interdependentes, formando configurações específicas.

Ademais, o social –  a sociedade –  não pode ser visto, nem mesmo pode ser captado diretamente pelos sentidos físicos. Não é um objeto material, uma entidade do mundo físico perfeitamente delimitada e perceptível. De acordo com Ludwig von Mises: “É algo manifesto que ninguém é capaz de observar e analisar a sociedade como um todo. Tudo o que pode ser observado é apenas a ação de indivíduos”. Desse modo, só é possível descrever, analisar e compreender uma sociedade, descrevendo, analisando e compreendendo as condutas, as ações, os valores e as idéias dos indivíduos que a compõem.

A sociedade não é capaz de pensar, sentir e agir. O sistema social não tem intenções, vontades e desejos, quem os tem são os indivíduos. Em suma, a sociedade não é um ser dotado de inteligência, consciência e vontade livre. Assim sendo, não pode ser avaliada, julgada e responsabilizada.

A premissa de que a sociedade é um ser vivo subsistente, com finalidades e objetivos, legitima o argumento de que a culpa é sempre da sociedade, de que os indivíduos são meras vitimas de um sistema social opressor. Ao eximir a responsabilidade dos indivíduos, transferem-se automaticamente as culpas e males para um ente abstrato. O problema reside sempre nesta entidade fantasmagórica e nunca nos indivíduos reais de carne e osso. Não se imputa a responsabilidade a alguém, a uma pessoa concreta, mas a algo abstrato – o famigerado sistema social.

Segundo o filósofo e sociólogo Recásens Siches quando se concebe sociedade como uma substância, uma realidade com existência própria e independente, acaba-se por justificar  as doutrinas políticas e sociais que pretendem  escravizar os indivíduos. Ao tornar outras entidades coletivas como o Estado, a nação, a classe e a raça organismos vivos dotados de inteligência e vontade própria, legitima-se a sujeição dos indivíduos a estes entes fetichizados.

A coisificação da sociedade transforma as pessoas em insignificantes e descartáveis  elementos da engrenagem social, submergindo-as  num todo coletivo amorfo e sem rosto. Em síntese, a coisificação da sociedade acaba por coisificar os indivíduos, pois retira-lhes o rosto humano. É a fonte primordial de toda a forma de coletivismo, socialismo, estatismo, nacionalismo agressivo e racismo.

Com efeito, a estatolatria e a sociolatria modernas favorecem e estimulam o conformismo, o servilismo, o nivelamento igualitário e a massificação. A transformação do Estado, da sociedade e de outras entidades coletivas em ídolos a serem objeto de devoção e culto,  conduz à despersonalização e debilita e desintegra as individualidades. Torna os indivíduos seres passivos, objetos inermes completamente moldados por forças impessoais.

A fetichização da sociedade enfraquece – senão mesmo anula – a capacidade de ação dos indivíduos, debilitando a aptidão humana de resistir e se opor as pressões, forças  e “condicionamento sociais”. Faz da pessoa humana um produto mecânico dos influxos sociais e não um sujeito agente capaz de intervir na marcha dos acontecimentos. Ainda, a “tirania do coletivo” reduz todos os ideais, valores e atividades humanas a interesses de teor social. Tudo aquilo que não tenha  uma dimensão e uma finalidade eminentemente  social é visto como uma atividade supérflua e ornamental, um “preconceito burguês”, uma atitude egocêntrica e inútil para o bem estar coletivo, convertido – de acordo com o ideal coletivista – em um simples bem estar material tão de agrado ao homem-massa.

Teorias sociais que reificam a sociedade são o fundamento especulativo para os  mitos políticos modernos de teor estatólatra e coletivista que tendem, fatalmente, a hipertrofiar “entes coletivos”.  Este processo, via de regra,  resulta na diminuição da liberdade e do poder de ação da pessoa humana. O que se busca, em última instância, é a anulação do valor da personalidade, domesticando-a e submetendo-a aos ditames e imperativos de forças impessoais, ou ao arbítrio de lideranças populistas e ditatoriais que afirmam representar os interesses de entidades abstratas como o povo, a nação, humanidade, a comunidade ou determinada classe social.

Há que se restabelecer a primazia da pessoa humana, sua dignidade e valor superior  frente a qualquer “organismo coletivo”. Estado e sociedade não são fins em si mesmo, mas apenas meios para a realização da pessoa humana.

 

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Publicado às 18 18America/Belem setembro 18America/Belem 2014 por em Civilização, Coletivismo, Democracia, Indivíduo e marcado , , .
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