Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A filosofia do senso comum

Homem Vitruviano – Leonardo Da Vinci

Homem Vitruviano – Leonardo Da Vinci

Por Juliano Cizzoti.

Poucas expressões são tão impopulares nos meios bem-pensantes quanto “senso comum”. É raro encontrar alguém que se aventura no estudo das ciências ou da filosofia que não se coloque de alguma maneira em uma atitude de superioridade, tantas vezes esnobe, com o conhecimento vulgar e imperfeito das massas ou dos não-iniciados. Julga-se frequentemente que ao atingir os mais altos patamares do edifício intelectual, essas mais ou menos vagas noções comuns a todos os homens, vistas a essa distância, não serão senão nebulosos preconceitos e ignorância e, portanto, acertadamente votados ao desprezo.

É verdade que é da própria finalidade das ciências e da filosofia o desejo de um conhecimento seguro, sistemático, fundamentado das coisas, em oposição àquele necessariamente imperfeito do que sabemos sem poder explicar como nem porquê. A ciência é justamente a busca dessa razão e modo das coisas.  Também é verdade que muitas das noções que formulamos espontaneamente ou recebemos com docilidade se provam, em posterior análise, pobres, deficientes, incompletas e, às vezes, falsas. Mas daí para a impugnação pura e simples do senso comum há um salto gigante que não nos é possível nem lógico realizar. Isso porque antes de chegarmos a certezas científicas ou filosóficas demonstradas, todo o nosso conhecimento se baseia nele. E mesmo fora de nossas áreas de especialidade, às quais devotamos tanto esforço e energia, não temos outro guia para conduzir os afazeres da vida. Só uma ilusão particularmente grave nos faria crer que por termos algum conhecimento avançado em alguma ciência, imediatamente todas as nossas conclusões cotidianas seriam permeadas do mais absoluto rigor, como por osmose.

O que se entende por senso comum

Evidentemente, com a coexistência de uma infinidade de abordagens filosóficas encontramos uma variedade de tratamentos dados ao conceito no correr dos séculos. Como não pretendemos discorrer sobre a equivocidade do termo, mas à realidade precisa que ele indica, recorremos, para início de conversa, à definição clássica de Giambattista Vico, sem nos determos no tratamento específico que este filósofo lhe dá: “O senso comum é um juízo sem reflexão, comumente sentido por toda uma ordem, todo um povo, toda uma nação, ou por todo o gênero humano.” ¹

Deixemos de lado o sentido impróprio do termo, isto é, aqueles juízos que são comuns apenas a “uma ordem, (…) um povo, (…) uma nação”, que constituem o que melhor chamaríamos de costumes ou opiniões. O que, aliás, nos unifica em nossa compreensão comum da realidade e torna possível o uso da linguagem é exatamente esse “juízo (…) comumente sentido (…) por todo o gênero humano”. Imagine se para cada palavra ou constatação que fizéssemos tivéssemos que justificar seu uso e provar exaustivamente sua precisão! Não seria sequer possível iniciar uma conversa, já que ao enunciar qualquer sentença assumimos como pressupostos o significado comum dos termos, a capacidade do ouvinte compreendê-lo, a conveniência de ligar um termo a outro, a existência das coisas de que falamos, nossa capacidade de chegar às conclusões que partilhamos, a existência do mundo externo a nós (em que se inclui o interlocutor), a relevância da informação que ofertamos, o relativo interesse de quem escuta, a conformidade de nossas palavras com nossos pensamentos, a adequação de nossos pensamentos com os objetos aos quais se relacionam, etc, etc, etc. Existe toda uma “filosofia” subjacente à própria possibilidade de entabularmos uma conversação, mesmo que não saibamos justificá-la ou dar-lhe as razões. Acrescentados os primeiros princípios e as conclusões mais imediatas a partir dessaposição natural de nossa razão – a liberdade moral e a existência de Deus, por exemplo – chegamos precisamente ao que se chama de senso comum.

Assim o exprime Jacques Maritain:

“O conhecimento vulgar é, para muitos, constituído de simples opiniões e crenças mais ou menos bem fundadas. Compreende, porém, um núcleo sólido de certezas verdadeiras, em que o filósofo discerne, em primeiro lugar, dados de evidência sensível (por exemplo: os corpos são extensos, em comprimento, largura e altura), em segundo lugar, princípios inteligíveis evidentes por si mesmos (como, por exemplo, “o todo é maior do que a parte”, “tudo o que acontece tem uma causa” etc.), em terceiro lugar, consequências imediatas tiradas desses mesmos princípios (conclusões próximas). Essas certezas que brotamespontaneamente em nosso espírito, desde que usemos de nossa razão, sua obra da natureza em nós, o que podemos, pois, determinar um dote de natureza, e dizer que dependem da apreciação natural, ou do consentimento, do instinto, do senso natural da inteligência. Uma vez que derivam da própria natureza dos homens, devem-se encontrar-se em todos os homens, ou melhor, serem comuns a todos os homens.”²

Ele corrige “devem encontrar-se em todos os homens” para “serem comuns a todos os homens” porque uma educação ideológica pode minar – mas sem as desfazer completamente – essas certezas no espírito.

O papel do senso comum no avanço do conhecimento

Partindo da constatação de que esse “sentir comum” dos homens existe, e é impossível negá-lo, por mais que alguns antropólogos queiram ressaltar as diferenças entre as culturas e sociedades para fundamentar o relativismo, chegamos inevitavelmente a esse núcleo de certezas verdadeiras de que fala Maritain e dos quais oferecemos algumas ilustrações no parágrafo precedente. Mas, cuidemos de detalhar, não se trata, como pensam alguns³, de um simples consenso geral, uma intuição fundamental ou um testemunho universal no qual repousamos como sobre uma autoridade. É justamente por repousarem nas evidências que são universais, e não o contrário. No caso das conclusões próximas, nem sempre são propriamente um “juízo sem reflexão”, como queria Vico, masum juízo tão imediato que não se dá ao trabalho de expor todas as suas premissas, precisamente por repousarem em evidências que nenhum homem são colocaria em dúvida.4

O papel da reflexão Cialis mais aprofundada, seja em ciência ou em filosofia, não é, portanto, e nem pode ser, o de revogar tais certezas ou colocá-las sob o manto da suspeita radical, como queria Descartes, mas unicamente de explicitar suas razões e  fundamentos esobre eles construir o edifício intelectual de que espécie for.

Mas nem todos os filósofos aceitam a necessidade de começar pelo senso comum. Citamos Descartes, mas a partir dele se inicia toda uma escola imensamente influente que desemboca na conclusão – necessária se aceitarmos as premissas cartesianas – de que não nos é possível conhecermos o mundo externo a nós, de que não podemos ter firmeza para afirmar que nossos pensamentos correspondem às coisas, isto é, de que não podemos jamais chegar à verdade. Negar o realismo constitutivo do senso comum leva inevitavelmente ao beco sem saída do idealismo, do ceticismo, do relativismo, do positivismo, do solipsismo (a idéia de que estamos sozinhos no mundo e todo o resto é fruto de nossa imaginação).5 Curiosamente, as verdades mais fundamentais, algumas das quais sequer podem ser provadas, são exatamente as únicas a possibilitarem construirmos um conhecimento que se pretenda verdadeiro! 6

Os elementos fundamentais do senso comum na visão de Chesterton

Um ano antes da publicação de sua obra-prima, Ortodoxia, Chesterton já era bastante conhecido, e convencido da necessidade de aceitarmos algumas premissas indemonstráveis se quiséssemos de fato começar a entender as coisas a sério. Com efeito, em um artigo de 22 de junho de 1907 para o Daily News, o jornalista inglês as reduz a quatro pontos absolutamente indispensáveis, se não quisermos nos perder no labirinto da pensamento moderno:

“1. Todo ser humano em sã consciência acredita que o mundo e as pessoas ao redor dele são reais e não um produto da sua imaginação ou de um sonho. Ninguém começa a incendiar Londres, se está convencido de que seu criado logo o acordará para o café da manhã. Mas não temos provas, em nenhum momento, de que tudo não passa de um sonho. Que algo exista além de mim é uma afirmação que não está comprovada (nem se pode comprovar…).

2. Todo homem em sã consciência, acredita não somente que este mundo existe, mas também que ele tem importância. Todo homem acredita que há, em nós, um tipo de obrigação de nos interessarmos por esta visão da vida. Não concordaria com alguém que dissesse, “Eu não escolhi esta farsa e ela me aborrece. Fiquei sabendo que uma senhora idosa está sendo assassinada no andar de baixo, mas eu vou é dormir”. O fato de que há um dever de melhorar coisas não feitas por nós é algo que não foi provado e não se pode provar.

3.Todos os homens em sã consciência acreditam que existe uma certa coisa chamada eu,self ou ego e que é contínua. Não há nenhum centímetro de meu cérebro igual ao que era há dez anos atrás. Mas se eu salvei a vida de um homem numa batalha há dez anos atrás, fico orgulhoso; se me acovardei, sinto-me envergonhado. A existência desse “eu” axial nunca foi comprovada e não pode ser comprovada. Trata-se de uma questão mais do que “improvável” e que é muito debatida entre os metafísicos.

4. Finalmente, a maioria dos homens em sã consciência acredita, e todos o admitem na prática, que têm um poder de escolha e responsabilidade por suas ações.”7

Por mais que argumentos contrários existam aos borbotões, não vemos de que maneira podemos nos furtar a aceitar esses argumentos, entre tantos outros do núcleo de nosso senso comum, sem nos prestarmos à mais patética condição de vivermos para concluir, e sem sucesso possível, as premissas que todos os homens assumem para simplesmente viver.

A título de epílogo, novamente cedemos a palavra ao mestre Maritain: “o senso comum tem o direito e o dever de defender-se de toda doutrina filosófica que negasse algumas das verdades cuja certeza natural ele possui, como o inferior tem o direito e o dever de defender-se contra o superior que procedesse evidentemente de maneira insensata. Porquanto, desde o momento em que a verdade se manifeste, de um ou de outro modo, peca-se em não a aceitar. O senso comum pode ser levado assim a julgar acidentalmente a Filosofia.” 8

 

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Notas:

¹ Ciência Nova, Dignidade 12 apud N. Abbagnano, Dicionário de Filosofia, Martins Fontes, p.873

² MARITAIN, Introdução Geral à Filosofia, Agir, p. 85

³ Entre eles, a escola escocesa, que considera o senso comum como um faculdade instintivaseparada da inteligência, e os intuicionistas como Rousseau e Bergson, que a  julgam umsentimento estranho e superior à razão. A verdade é que não há outra luz no homem senão a da inteligência.

4 Em Lógica, o silogismo em que uma das premissas está oculta é chamado de entinema. Os raciocínios que demonstrariam, por exemplo, o livre-arbítrio, se baseiam na observação da própria experiência de escolha, no testemunho de outros homens que se arrependeram de suas decisões etc. Nenhuma dessas premissas é aceita pelas correntes idealistas e positivistas, que negam a legitimidade da extensão dessas experiências para todos os homens, ou a realidade da própria auto-observação etc.

5 A esse respeito, da contraposição irreconciliável dos métodos idealista e realistas, indicamos a excelente obra do francês Etiénne Gilson, “Methodical Realism”, Ignatius Press.

6 Para os fãs de Chesterton: “To the question “Is there anything?” St. Thomas begins by answering “Yes”; if he began by answering “No”, it would be not the beggining, but the end.” (Chesterton, St. Thomas Aquinas, p. 516, in Collected Works, vol. II, Ignatius Press)

7 Trad. Gabriele Greggersen, in:

http://www.hottopos.com/videtur7/a_filosofia_para_a_sala.htm

MARITAIN, Idem, p. 88

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Publicado às 16 16America/Belem setembro 16America/Belem 2014 por em Civilização, Coletivismo, Filosofia, Humanidade, Indivíduo, Tradição e marcado , , , , .
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