Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

Globalização e cultura

padre robertPor Padre Robert Sirico.

Traduzido por Pedro Ravazzano.

Muitos dos males da globalização são consequências de um planejamento de cima para baixo mais do que reflexo do livre mercado, todavia essa percepção precisa ser equilibrada com outra: o capitalismo global não pode por si só oferecer a formação cultural e moral digna da pessoa humana e essencial para florescimento humano. Mesmo se pudéssemos purgar muito do clientelismo e do equivocado planejamento central do processo de globalização, o mercado global repentinamente não daria a formação cultural e moral essencial para a difusão do alvorecer econômico e humano. Esta não é a função de um mercado, e tanto os críticos como os simpatizantes de um processo internacional de globalização e livre troca precisam entender isso claramente.

Meu amigo, o falecido reverendo congregacionalista Edmund Opitz (1914-2006), apresentou o problema desta forma: “O mercado vai expor todas as deficiências e falhas que as pessoas, em atuação pacífica, apresentarão”. O que isso significa, entre outras coisas, é que nossa interconexão crescente tem um grande potencial para ofensas contra a dignidade humana. Os avanços na tecnologia e comunicação podem tornar mais fáceis a venda de pornografia ou o tráfico de seres humanos. Ou, para dar um exemplo menos tenso, o investimento estrangeiro permite negócios dispersos, ou seja, nos quais as propriedades não estão localizadas no local do investimento, que por sua vez pode tornar a gestão menos pessoal e menos sintonizada com os costumes e expectativas locais.

A globalização também traz imensos desafios de longo prazo para a cultura. Falsas e aviltantes ideias podem se espalhar, às vezes, mais rapidamente do que as verdades que contribuem para o desenvolvimento humano. Já que existe, portanto, um ceticismo generalizado sobre as verdades universais e atemporais, a liberdade cultural pode ser abusada. Os débeis que parecem ter pouco a oferecer — os pobres, os nascituros, os idosos e os deficientes são vistos como um fardo que deve ser posto à margem, limitados, e até mesmo destruídos em vez de serem reconhecidos como pessoas dignas de respeito e solidariedade.

A globalização, ademais, quando aumenta o alcance da mídia ocidental de massa muitas vezes faz mais mal do que bem: a degradação da sexualidade humana, incluindo a exploração de mulheres, a confusão entre “ter” e “ser” e um senso inflado de nossos direitos junto com um sentido de redução da responsabilidade social, estas são apenas algumas das manifestações culturais da sociedade ocidental dignas de crítica e que podem causar danos reais para a cultura de um país em desenvolvimento, uma vez que se vinculam à economia global da informação.

Mas esses problemas culturais são acompanhados de oportunidades positivas, dentre elas, um convite para as comunidades religiosas fazerem o que fazem de melhor, isto é, levar os homens e mulheres para uma conversão de vida de tal modo que, todos os valores e escolhas, incluindo os da esfera econômica, reflitam o encontro com a verdade sobre Deus e sobre a natureza humana. Um dos grandes recursos que o cristianismo traz para a missão de assegurar que a globalização sirva à pessoa humana é a sua universalidade. Uma vez que “o Evangelho é para todos”, como diz o velho hino, e tem sido desde o início, estamos bem ao estimular a extensão da mensagem por todo o mundo. A verdade e a comunidade ao nosso entorno nos encoraja a proclamar de forma inequívoca a dignidade absoluta de cada pessoa humana e de construir instituições políticas, de caridade, e de mercado que exprimam essa dignidade. O desafio, agora, é usar as oportunidades oferecidas pela globalização como vias para uma nova evangelização, que poderá transformar a cultura global para melhor.

A ideia de que o cristianismo pode e desempenha um papel tão positivo, não é restrita a cristãos ou até mesmo a teístas. O psiquiatra inglês e comentarista social Theodore Dalrymple, um ateu professo, argumentou do mesmo modo. O ex-parlamentar britânico e colunista do “London Times”, Matthew Parris, pontuou a mesma questão em um artigo de dezembro de 2008:
“Ora, como um ateu confesso, estou convencido da enorme contribuição que o evangelismo cristão realiza na África: nitidamente diferente das ONGs seculares, dos projetos governamentais e dos esforços de ajuda internacional. Estes sozinhos não vão fazer nada. Educação e formação por si só não vão ter sucesso. Na África, o cristianismo muda o coração das pessoas. Produz uma transformação espiritual. O renascimento é real. A mudança é boa”.

Há um processo recursivo se realizando aqui. O cristianismo, uma religião global, desempenhou um papel na preparação do caminho para a globalização econômica, e a globalização econômica, em seguida, exerceu um papel importante ao possibilitar que mais pessoas entrassem em contato com outras culturas e, assim, com o cristianismo, que por sua vez leva mais pessoas para o rebanho cristão.

Não devemos nos distrair com a complexidade desse processo histórico. A dinâmica do livre comércio é um caminho pelo qual os valores das pessoas se expressam na forma de bens e serviços que são exigidos e oferecidos. Em grande medida, a cultura e os valores que determinam o que é comprado e vendido já estão no lugar. O mercado não cria a cultura ou os valores das pessoas tanto como os revela. Além disso, as culturas não são estáticas. Quando as culturas se encontram, um processo de refinamento se inicia para a melhoria recíproca. O que isso significa é que a formação de uma cultura virtuosa, que começa com a formação virtuosa das pessoas, é muito mais um empreendimento moral do que econômico, e só pode ser efetivamente alterado nesse nível.

Tomados em conjunto, o que encontramos, então, é que o livre mercado não é nem o bicho-papão destrutivo que seus detratores da esquerda dizem ser e nem o elixir que abençoa uma sociedade na ausência de um contexto moral. O capitalismo tem o poder de criar, ao mesmo tempo em que substitui as antigas formas de criar e servir, com uma força e uma energia desconhecidas em economias centralmente planejadas. Só há tal sistema de inciativa quando existe o estado de direito e o respeito pela dignidade e pela capacidade da pessoa humana — em outras palavras, só se for um capitalismo legítimo.

 

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Publicado às 5 05America/Belem agosto 05America/Belem 2014 por em Civilização, Economia, Livre Mercado e marcado , , , .
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