Grupo de Estudos Joaquim Nabuco – Ano IV

O G.E. Joaquim Nabuco reúne pessoas comprometidas com a defesa das instituições tradicionais, das liberdades autênticas, do livre mercado e da pessoa humana, sob inspiração católica.

A falácia do sucesso

gkc_francis_sliderPor G. K. Chesterton

Traduzido por Mateus Leme

Surgiu em nossos dias uma classe particular de livros e artigos que sincera e solenemente penso que podem ser chamados de os mais tolos já conhecidos pelos homens. São muito mais desvairados que os mais desvairados livros de cavalaria e muito mais enfadonhos que o mais enfadonho tratado religioso. Mais ainda: os romances de cavalaria ao menos eram sobre cavalaria; os tratados religiosos são sobre religião. Mas estas coisas são sobre nada; são sobre o que se chama Sucesso. Em qualquer banca, em qualquer revista, você poderá encontrar textos dizendo às pessoas como ter sucesso. São livros que demonstram às pessoas como ter sucesso em tudo; são escritos por homens que não conseguem ter sucesso nem em escrever livros. Para começar, é claro, não há algo como “o” sucesso. Ou, se preferir, não há nada que não seja bem-sucedido. Dizer que uma coisa é bem-sucedida significa simplesmente que essa coisa é; um milionário é bem-sucedido em ser um milionário e um burro em ser um burro. Qualquer homem vivo foi bem-sucedido em viver; qualquer homem morto pode ter sido bem-sucedido em cometer suicídio. Mas, passando por alto a má lógica e a má filosofia da frase, poderemos considerá-la, como esses autores, no sentido ordinário de ser bem-sucedido em obter dinheiro ou posições mundanas. Esses autores afirmam dizer ao homem ordinário como ele pode ser bem sucedido em seu negócio ou especulação — como, se é construtor, ele pode ser bem-sucedido como construtor; como, se é corretor de ações, ele pode ter sucesso como corretor. Os autores dizem-se capazes de mostrar-lhe como, se é verdureiro, pode se tornar um iatista; como, se é um jornalista de décima categoria, pode se tornar um nobre; e como, se é um judeu alemão, pode se tornar um anglo-saxão. É uma proposta definida e comercial, e realmente penso que as pessoas que compram tais livros (se é que alguém os compra) têm o direito moral, se não legal, de pedir seu dinheiro de volta. Ninguém ousaria publicar um livro sobre eletricidade que literalmente não dissesse nada sobre eletricidade; ninguém ousaria publicar um livro de botânica que demonstrasse que o autor não sabe qual lado da planta fica na terra. Mesmo assim nosso mundo moderno está cheio de livros sobre sucesso e pessoas bem-sucedidas, livros que não têm literalmente nenhum tipo de ideia e quase nenhum tipo de concordância verbal.

É perfeitamente óbvio que em qualquer ocupação decente (como assentar tijolos ou escrever livros) há apenas duas maneiras (em qualquer sentido) de ser bem sucedido. Uma é fazer um trabalho muito bom, a outra é trapacear. Ambas são muito simples para requerer qualquer explicação literária. Se você vai praticar salto em altura, ou pule mais alto que qualquer um ou dê algum jeito de fingir que o fez. Se você quer ser bem-sucedido no whist, ou seja um bom jogador ou jogue com cartas marcadas. Você pode querer um livro sobre saltos; você pode querer um livro sobre whist; você pode querer um livro sobre trapaças no whist[1]. Mas você não pode querer um livro sobre o sucesso. Principalmente você não pode querer um livro sobre o sucesso como aqueles que hoje se podem encontrar às centenas espalhados nas livrarias. Você pode querer pular ou jogar cartas; mas você não quer ler afirmações errantes de que saltar é saltar, ou de que jogos são ganhos por vencedores. Se esses autores, por exemplo, dissessem qualquer coisa sobre o sucesso no salto seria algo como isso: O saltador deve ter um objetivo claro diante de si. Ele deve definitivamente desejar saltar mais alto que os outros que estão na mesma competição. Ele não deve deixar que sentimentos menores de pena (provindos dos detestáveis “Pequenos Ingleses”[2] e Pró-Boeres) o impeçam de tentar fazer o seu melhor. Ele deve se lembrar de que uma competição em salto é distintamente competitiva, e que, como Darwin demonstrou gloriosamente, OS MAIS FRACOS SE DÃO MAL. Esse é o tipo de coisa que o livro diria, e seria mesmo muito útil, sem dúvida, se fosse lida em uma voz baixa e tensa para um jovem prestes a saltar. Ou suponha que em seus devaneios intelectuais o filósofo do sucesso encontrasse nosso outro caso, aquele do jogo de cartas, e seu enérgico conselho seria — “Ao jogar cartas é muito importante evitar o erro (comumente cometido por sentimentais humanitários e defensores do livre comércio[3]) de permitir que seu oponente vença o jogo. Você deve ter firmeza e audácia e entrar para vencer. Os dias do idealismo e superstição acabaram. Vivemos na era da ciência e do senso comum e já foi definitivamente provado que em qualquer jogo em que dois jogam SE UM NÃO VENCER, O OUTRO VENCE”. É tudo muito entusiasmante, é claro; mas confesso que se estivesse jogando cartas preferiria ter comigo um livrinho decente que me dissesse as regras do jogo. Além das regras do jogo é tudo uma questão de talento ou desonestidade; e vou me esforçar para conseguir um ou o outro — qual, não me cabe dizer.

Acho um estranho e divertido exemplo ao folhear uma revista popular. Há um artigo intitulado O instinto que torna as pessoas ricas. Está decorado na frente com um formidável retrato de Lord Rothschild[4].

Há muitos métodos diferentes, honestos e desonestos, de tornar uma pessoa rica; o único “instinto” que conheço que faz isso é aquele instinto que a teologia Cristã descreve cruamente como “o pecado da avareza”. Isso, porém, está fora do assunto em questão. Gostaria de citar os extraordinários parágrafos a seguir como um exemplo de conselhos típicos de como ser bem-sucedido. É tão prático; deixa tão poucas dúvidas sobre qual deveria ser nosso próximo passo:

“O nome Vanderbilt é sinônimo da riqueza adquirida pelos empreendimentos modernos. “Cornelius”, o fundador da família, foi o primeiro dos grandes magnatas americanos do comércio. Começou como o filho de um fazendeiro pobre; terminou como um multimilionário.

Tinha o instinto de ganhar dinheiro. Agarrou as oportunidades, oportunidades que foram dadas pela aplicação da máquina a vapor no tráfego marítimo, e pelo nascimento da locomoção por estradas de ferro nos ricos, mas subdesenvolvidos EUA, e em consequência juntou uma imensa fortuna.

Agora é, evidentemente, óbvio que não podemos seguir todos exatamente as mesmas pegadas deste grande rei das ferrovias. As oportunidades concretas que surgiram para ele não ocorrem para nós. As circunstâncias mudaram. Mas, mesmo assim, ainda, em nossa própria esfera e em nossas circunstâncias, podemos seguir seu método geral; podemos agarrar aquelas oportunidades que nos são dadas, e nos dar uma grande chance de obter riquezas.

Nessas declarações estranhas vemos claramente o que está realmente no fundo de todos esses artigos e livros. Não é apenas negócio; não é nem mesmo apenas cinismo. É uma mística; a horrível mística do dinheiro. O autor daquela passagem não tinha na verdade a menor noção de como Vanderbilt ganhou seu dinheiro, ou de como qualquer outra pessoa pode ganhar o seu. Conclui suas colocações, de fato, sugerindo alguma estratégia; mas isso não tem absolutamente nada a ver com Vanderbilt. Ele simplesmente queria se prostrar diante do mistério de um milionário. Pois quando nós realmente adoramos algo, amamos não apenas sua clareza, mas também sua obscuridade. Exultamos na sua própria invisibilidade. Assim, por exemplo, quando um homem está apaixonado por uma mulher, sente especial prazer no fato de uma mulher não ser razoável. Assim, também, o próprio poeta sacro, celebrando seu Criador, compraz-se em dizer que Deus atua por vias misteriosas. Agora, o autor do parágrafo que citei não parece ter tido qualquer coisa a ver com um deus; chego mesmo a pensar (a julgar por sua extrema falta de praticidade) que nunca esteve realmente apaixonado por uma mulher. Mas trata a coisa que adora —Vanderbilt — exatamente dessa forma mística. Realmente, se regozija com o fato de sua deidade Vanderbilt estar lhe escondendo um segredo. E isso enche sua alma com um excesso de gênio, um êxtase de sacerdócio, que o faz querer fingir revelar às multidões o terrível segredo que não conhece.

Falando sobre o instinto que torna as pessoas ricas, o mesmo autor afirma:

“Nos tempos antigos, sua existência era totalmente entendida. Os gregos o registraram na história de Midas, do «Toque Dourado». Esse era um homem que transformava tudo o que tocava em ouro. Sua vida foi um caminhar por entre riquezas. De tudo o que aparecia em sua frente, ele criava o precioso metal. «Uma lenda de tolos», disseram os novos ricos da era Vitoriana. «Uma verdade», dizemos hoje. Todos conhecemos esses homens. Estamos sempre encontrando pessoas assim, ou lendo elas: pessoas que transformam tudo o que tocam em ouro. É o próprio sucesso que traça a trajetória deles. Seu caminho de vida leva irremediavelmente para cima. Não podem perder”.

Infelizmente, entretanto, Midas podia perder; e perdeu. Seu caminho não levava irremediavelmente para cima. Ele morreu de fome porque sempre que tocava um biscoito ou um sanduíche de presunto este se transformava em ouro. Este é todo o sentido da história, embora o autor tenha de suprimi-lo delicadamente, por estar escrevendo muito perto de um retrato de Lord Rothschild. As velhas fábulas da humanidade são, de fato, insondavelmente sábias; mas nós não devemos expurgá-las no interesse de Mr. Vanderbilt. Não devemos apresentar o rei Midas como um exemplo de sucesso; ele foi um fracasso de um tipo incomumente doloroso. Além disso, tinha orelhas de burro. Além disso (como muitas outras pessoas ricas e proeminentes), ele procurava esconder o fato. Seu barbeiro (se me lembro corretamente) tinha de ser tratado de forma muito confidencial por causa dessa peculiaridade; e seu barbeiro, ao invés de se comportar como uma pessoa empreendedora da escola do sucesso a qualquer custo e tentar chantagear o rei Midas, saiu e foi sussurrar esta esplêndida fofoca social para os juncos, que se divertiram enormemente. Diz-se que eles ainda a sussurram quando os ventos os balançam de um lado para o outro. Olho com reverência para o retrato de Lord Rothschild; leio com reverência sobre as proezas de Mr. Vanderbilt. Sei que não posso tornar tudo o que toco em ouro; mas por outro lado, também sei que nunca tentei, tendo preferência por outras substâncias, como a grama e o bom vinho. Sei que essas pessoas certamente tiveram sucesso em alguma coisa; que certamente superaram alguém; sei que são reis num sentido em que nenhum homem já foi rei antes; que criam mercados e atravessam continentes. Ainda assim sempre me parece que há algum pequeno fato doméstico que estão escondendo, e algumas vezes eu pensei ter ouvido através do vento o riso e murmúrio dos juncos.

Ao menos, vamos esperar que todos possamos viver para ver esses absurdos livros sobre o sucesso cobertos com merecidos desprezo e descaso. Não ensinam as pessoas a serem bem-sucedidas, mas sim a serem esnobes; espalham um tipo de poesia maldita do mundano. Os Puritanos estão constantemente denunciando livros que inflamam a luxúria; o que dizer de livros que inflamam as paixões ainda mais vis da avareza e do orgulho? Há cem anos surgiu o ideal do Aprendiz Laborioso[5]: os meninos eram ensinados que, por meio da economia e do trabalho, todos eles se tornariam Prefeitos. Esta era uma falácia, mas era humana, e tinha um mínimo de verdade moral. Em nossa sociedade, a temperança não ajudará um homem a enriquecer, mas pode ajudá-lo a se respeitar. Um bom trabalho não fará dele um homem rico, mas pode fazer dele um bom trabalhador. O Aprendiz Laborioso progrediu através de poucas e restritas virtudes, realmente, mas ainda assim virtudes. Mas o que diremos do evangelho pregado ao novo Aprendiz Laborioso: o aprendiz que progride não por suas virtudes, mas declaradamente por seus vícios?

[1] Jogo de cartas muito popular na Inglaterra. (N. do T.)
[2] No original, Little-Englanders. Refere-se ao grupo de ingleses que, na época da 2ª Guerra dos Boeres, eram contra a expansão do império Britânico, achando que a Inglaterra devia se limitar ao território do Reino Unido. (N. do T.)
[3] “Free-Traders no original, era um partido político nas eleições gerais do início do séc XX, que entre outras causas defendia o comércio livre, isto é, sem interferência do Governo. (N. do T.)
[4] O Barão de Rothschild foi um banqueiro e milionário inglês no início do século XX, que entre outras coisas foi patrocinador da construção do Canal de Suez. (N. do T.)
[5] Referência a “IndustryIdleness”, sequência de 12 gravuras de William Hogarth, em 1747, em que se comparam dois aprendizes, um laborioso que acaba se tornando prefeito de Londres, e um preguiçoso que acaba executado. (N. do T.)
Fonte: All things considered, 1909

 

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Publicado às 29 29America/Belem julho 29America/Belem 2014 por em Civilização, G. K. Chesterton, Indivíduo, Moral, Tradição e marcado , .
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